
Comentário: O filme retrata um julgamento histórico ocorrido na Argentina em 1985, no qual foram para o “tribunal civil os nove líderes das três primeiras juntas militares que governaram o país após o golpe de Estado de 1976, por crimes que iam desde homicídio e tortura até privação ilegítima de liberdade. Organizações de direitos humanos estimam que 30 mil pessoas desapareceram durante aqueles anos”. Segundo nos conta a BBC News, não há no mundo outros julgamentos como esse “na história do século 20 além do julgamento de Nuremberg, que ocorreu entre 1945 e 1946, sobre os crimes do nazismo, e de um julgamento de 1975 contra coronéis gregos que lideraram o golpe de Estado no país em 1967”. O promotor que conduziu o caso foi Julio Strassera, interpretado por Ricardo Darin. “Moreno Ocampo [promotor adjunto do caso, interpretado por Juan Pedro Lanzani] lembra que o julgamento fez parte de um processo que havia começado nas eleições de 1983, quando a questão dos ‘desaparecidos’, as vítimas da ditadura cujos corpos não apareciam, se tornou parte da campanha eleitoral que levou Raúl Alfonsín à presidência. Alfonsín criou a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep), que compilou os depoimentos de sobreviventes e familiares de vítimas da ditadura, e tentou fazer que os próprios militares julgassem os ex-comandantes, mas acabou sendo a justiça civil - aplicando o Código de Justiça Militar - o cenário do julgamento. ‘Optamos pelo Código de Justiça Militar porque possibilitava um julgamento oral e isso também dava a melhor proteção para o tribunal, ou seja, todos podiam ver o que estava acontecendo’, diz Gil Lavedra. E o que aconteceu é que a crueza dos depoimentos de mais de 800 testemunhas foi registrada todos os dias pelos mais de 500 jornalistas que cobriram o julgamento, e isso - nas palavras dos protagonistas - permitiu o apoio da opinião pública que havia se mostrado reticente. (...) Em 9 de dezembro de 1985, os juízes leram a sentença de 709 casos apresentados durante o julgamento. [Dos 9 líderes julgados], Videla e Massera foram condenados à prisão perpétua; Orlando Agosti foi condenado a quatro anos e seis meses de prisão; Roberto Viola, a 17 anos; e Armando Lambruschini, a oito anos; Omar Graffigna, Fortunato Galtieri, Jorge Anaya e Basilio Lami Dozo foram absolvidos”.
O que disse a crítica: Segundo Raquel Carneiro da Revista Veja, “o filme havia acabado de chegar à plataforma quando o Brasil assistia à apertada eleição entre o atual presidente Jair Bolsonaro e o agora presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva. A derrota de Bolsonaro foi indigesta para parte de seu eleitorado, que, desde então, vem causando tumulto nas rodovias do país pedindo por um novo golpe militar. Ao contrário da Argentina, o Brasil não levou os militares que governaram o país, entre 1964 e 1985, ao banco dos réus. Por aqui, a anistia política geral se estendeu de exilados a generais, deixando feridas abertas e um sentimento errôneo de que foi um período de paz e prosperidade - ideia estabelecida pela falta de informação da época, quando a imprensa era censurada e havia uma repressão violenta contra a liberdade de expressão. Na Argentina, pairava o mesmo clima, sentimento representado pela família de Ocampo - a mãe do advogado tinha vergonha do filho por estar do lado oposto ao do exército. Isso até que centenas de vítimas foram ouvidas no tribunal, no julgamento que foi transmitido pelo rádio. Ao expor os atos hediondos cometidos pelos militares, como tortura e assassinato - métodos camuflados por um discurso ideológico vazio -, o país vizinho expôs a sujeira embaixo do tapete e abriu um precedente mundial, criminalizando os generais que não deram às vítimas o direito de um julgamento honesto. Ao contrário deles, que tiveram a chance de se defender diante de uma corte e cumpriram a pena imposta perante a lei. Um direito que não pode, nunca, ser considerado um luxo”.
O que eu achei: Se o filme é bom? O filme é universal e imprescindível pois, como disse Carneiro, muita gente defende a volta dos militares ao poder sem saber dessas atrocidades. No Brasil ocorreu a prisão, morte e tortura de adversários políticos, o regime também acobertou crimes contra cidadãos cujo envolvimento nas chamadas atividades subversivas jamais foi atestado, incluindo-se aí crianças. Seja pelo sequestro de filhos de militantes capturados, seja acobertando os casos de pedofilia que chocaram o país nos anos 70, o fato é que o mito propagado pelos admiradores do regime, de que a ditadura só teria punido ‘terroristas’ não passa de ilusão revisionista que só quem não se informa acha bom. Segundo Thais Reis Oliveira da Carta Capital, os números são impressionantes: “a Comissão da Verdade concluiu, em 2014, que 434 pessoas morreram ou desapareceram durante as duas décadas e meia de ditadura no Brasil. Também foram assassinados, conforme o relatório, 8.350 indígenas”. O que aconteceu durante o período da ditadura não pode mais voltar a acontecer nem na Argentina, nem no Brasil, nem em lugar nenhum. Por isso, democracia sempre.