23.1.23

“A Tortura do Silêncio” – Alfred Hitchcock (EUA/Canadá, 1953)

Sinopse:
 
Otto Kellar (O. E. Hasse) trabalha como guardião da igreja católica de Quebec. Ele acaba assassinando um homem ao assaltar uma casa. Com a culpa corroendo seu espírito, Otto decide confessar tudo para o padre Michael Logan (Montgomery Clift). Algum tempo depois, a polícia começa a suspeitar que Logan tenha sido o autor do crime e a única maneira que o padre tem para limpar seu nome é quebrar o sigilo do confessionário - algo impensável e impossível para um padre.
Comentário: Alfred Hitchcock (1899-1980) foi um diretor e produtor cinematográfico britânico. Amplamente considerado um dos mais reverenciados e influentes cineastas de todos os tempos, Hitchcock foi eleito pelo The Telegraph o maior diretor da história da Grã-Bretanha e, pela Entertainment Weekly, o maior do cinema mundial. Conhecido como "Mestre do Suspense", dirigiu em torno de 53 longas-metragens ao longo de seis décadas de carreira, parte dela na Inglaterra, parte nos EUA. Tornou-se também famoso também por conta das frequentes aparições em seus filmes e pela apresentação do programa "Alfred Hitchcock Presents" (1955-1965). Assisti dele 31 filmes, dentre eles as obras-primas "Os Pássaros" (1936), "Festim Diabólico" (1948), "Janela Indiscreta" (1954), "Um Corpo Que Cai" (1958) e "Psicose" (1960) e os ótimos: "O Inquilino" (1927), "Chantagem e Confissão" (1929), "Sabotagem" (1936), "Jovem e Inocente" (1937), "A Dama Oculta" (1938), "A Sombra de Uma Dúvida" (1943), "Interlúdio" (1946), "Pacto Sinistro" (1951), "Disque M para Matar" (1954), "O Homem Que Sabia Demais" (1956), “Intriga Internacional” (1959) e "Frenesi" (1972). Desta vez vou conferir "A Tortura do Silêncio" (1953), cujo roteiro se baseia em uma peça teatral francesa do início do século 20 que segue aquele habitual whodunit hitchcockiano: quem matou o sr. Laffitte? O imigrante alemão Otto Kellar (O. E. Hasse) ou o padre Logan (Montgomery Clift)?
Luiz Santiago do site Plano Crítico nos conta que “’A Tortura do Silêncio’ foi um dos filmes de Alfred Hitchcock que mais demoraram para sair do papel, com oito anos desde o tratamento do primeiro roteiro até a versão que seria filmada, 12 roteiristas depois. Mas as dificuldades não pararam por aí. Apesar de o período de filmagens ter permanecido dentro do esperado (entre agosto e outubro de 1952), houve uma enorme dificuldade de Hitchcock em se adaptar ao método de atuação de Montgomery Clift, sem contar o fato de que o ator bebia constantemente e causava mal-estar no set por insistir na presença de sua orientadora dramática (Maria Rostova), dirigindo-se a ela para checar como fora sua atuação e não ao diretor. 
Mas nem mesmo esses problemas tiraram a força da atuação de Clift, que traz para a tela a delicadeza, a paz e a visível insatisfação em momentos de crise de um jovem padre que ouve uma confissão de assassinato, mas não pode dizer nada à polícia, mesmo quando as suspeitas do crime recaem sobre ele.
O sacramento da confissão é aqui tratado com o maior respeito pelo roteiro e pelo diretor, que torna o crime ouvido durante a confissão o núcleo moral da fita, que colocará o sacerdote em uma crise de fé: ou ele cumpre a missão de manter o segredo diante da confissão ouvida ou ele renuncia o sacerdócio para então livrar o seu pescoço da forca”. 
O que disse a crítica 1: Rubens Ewald Filho gostou do filme. Ele disse: “Um filme ‘menor’ de Alfred Hitchcock nunca é desinteressante. ‘A Tortura do Silêncio’ mostra uma curiosa variação do tema predileto do diretor, o homem acusado de crime que não cometeu. Aqui os elementos religiosos e a notável atuação de Montgomery Clift dão novas nuances ao tema, assim como a fotografia sombria. O próprio Hitchcock assumia que o resultado final havia ficado excessivamente pesado e controverso, mas o filme preservou sua atualidade e ainda é intrigante. Hitchcock nunca gostou muito do filme que rodou no Canadá, não se deu bem nem com a estrela que lhe foi imposta, Anne Baxter (ele queria a sueca bergmaniana Anita Bjork), muito menos com Clift. Também teve problemas com a censura, que não permitiu que ele desenvolvesse o romance do padre com a moça. Na verdade, tocar no assunto do segredo da confissão naquela época, em que a Igreja Católica mantinha a Legião de Decência e tinha força na indústria do cinema, foi uma ousadia”. 
O que eu achei: "A Tortura do Silêncio" (1953) pode não estar entre os melhores longas do mestre, mas ainda assim carrega muitas das qualidades que tornaram o diretor famoso. A trama, centrada no dilema moral e religioso de um padre acusado de um crime que não cometeu, é conduzida com sobriedade e tem momentos de grande tensão, mesmo sem recorrer aos truques mais tradicionais de suspense. Essa abordagem mais contida permite que o filme explore bem o conflito interno do protagonista que sabe quem cometeu o assassinato mas não pode dizer pois foi-lhe dito em confissão, criando uma história envolvente e com peso dramático. Embora o próprio Hitchcock tenha manifestado certo arrependimento por ter feito o filme, a verdade é que "A Tortura do Silêncio" tem méritos inegáveis. A direção segura, a fotografia expressiva e o ritmo equilibrado fazem dele um bom filme, capaz de prender a atenção e provocar reflexão. Pode não alcançar o brilhantismo de outros trabalhos do mestre, mas certamente merece ser visto, principalmente por quem aprecia essa fase mais séria e introspectiva da carreira do diretor.