
Comentário: A história do filme é a seguinte: “o dono de uma empresa de computadores lamenta a queda das vendas de seus produtos nos últimos meses, especialmente as vendas para a polícia/Estado. Sem guerra e sem atividades terroristas para fazê-lo lucrar, o empresário engendra um intricado plano, alimentando uma célula de revolucionários na qual possui dois agentes infiltrados. As ações desses terroristas será a justificativa para atitudes mais enfáticas da política em diversos setores da sociedade e, claro, terminará com a volta da empresa de P. J. Lurz (o ótimo Eddie Constantine) às altas vendas. O ponto final da ação desses indivíduos é, irônica e propositalmente, no desfecho do Carnaval, onde se vestem como foliões e sequestram Lurz, filmando-o com um sorriso cínico, dizendo que era um ‘prisioneiro do povo’”.
O que disse a crítica: Luiz Santiago do site Plano Crítico, que classificou o filme como excelente, nos traz informações importantes. Ele diz: “Em um ensaio publicado no jornal Frankfurter Rundschau, em 2 de dezembro de 1978, durante a produção de ‘A Terceira Geração’ (...), Fassbinder classificou as gerações alemãs que teve em mente quando escreveu o roteiro do filme. 1ª Geração: a burguesia que viveu entre 1848 e 1933; 2ª Geração: ‘nossos avós’ e como eles vivenciaram o III Reich e se recordam dele; 3ª Geração: ‘nossos pais’ e como tiveram, depois da guerra, a oportunidade de criar um Estado humano e livre como nenhum outro, e no que resultou essa oportunidade. Quase um ano depois, em uma entrevista cedida em outubro de 1979, ele classificou as gerações dentro do aspecto do terrorismo moderno (do ponto de vista dele, na Alemanha), o que também representa o pensamento problematizado nas entrelinhas de ‘A Terceira Geração’. 1ª Geração: os idealistas de 1968, que queriam mudar o mundo e acreditaram que podiam fazer isso com palavras e demonstrações; 2ª Geração: o grupo Baader-Meinhof, indo da legalidade à luta armada e completa ilegalidade; 3ª Geração: a geração de hoje que age sem pensar e que não tem base política nem uma ideologia, e que, sem perceber, deixa-se manipular pelos outros, como marionetes”. O filme é de 1979, mas não poderia ser mais atual. Santiago completa: “Alienados, os terroristas serão facilmente levados como marionetes pela vontade de uma camada social que eles acreditam combater. Como o filme olha para esses indivíduos através de seus aspectos humanos, suscetíveis a falhas, amores, defeitos e vontades, o espectador se aproxima deles, estabelece algum nível de identificação que aos poucos é dissipado pela estupidez e ausência de pensamento racional para suas ações”.
Cesar Zamberlan da Revista Interlúdio concorda, ele diz: “Fassbinder defende no filme que o capital inventou o terrorismo para aproveitá-lo em seu sistema de dominação. (...) A 3ª [geração], que agia sem pensar e sem ter ideologia ou política (...) deixou-se manipular como marionete – parece extremamente atual se as relacionarmos à contemporaneidade e aos grupos que hoje contestam o sistema. [O filme] é de todos os tempos e assustadoramente atual”.
O que eu achei: Essa prática de pesquisar para escrever comentários têm me trazido gratas surpresas, e esse é o caso de “A Terceira Geração”. Filmes do Fassbinder, sabemos, não são filmes fáceis. Eles costumam ser, como os do Godard, uma espécie de “decifra-me ou te devoro” que te levam para um inevitável ame ou odeie e este eu não posso dizer que desliguei adorando o que vi. Terminei a película mais num estado de perplexidade do que com alguma opinião formada. Entretanto, após decifrar o filme, o que posso concluir é que ele discorre sobre as bases do terrorismo contemporâneo, um tema bem pertinente de se ver neste momento, num Brasil recém saído de um governo autoritário de extrema direita que reuniu grupos irracionais nas ruas que chegaram a tentar fazer contato com ETs. Se você vai gostar deste filme eu não sei, mas que é coisa de gênio, isso é.