28.11.22

“Luce” - Julios Onah (EUA, 2019)

Sinopse:
Luce Edgar (Kelvin Harrison Jr.) é um jovem brilhante, orgulho de seus pais adotivos (Naomi Watts e Tim Roth). No entanto, Harriet (Octavia Spencer), a professora do rapaz, descobre um artigo político escrito por ele que revela traços obscuros de sua personalidade, desencadeando uma série de situações negativas na vida de todos os envolvidos.
Comentário: O filme, dirigido pelo cineasta nigeriano Julius Onah, se baseia numa peça teatral publicada em 2014 pelo roteirista J. C. Lee que conta a história de um rapaz negro - cujo nome original africano a mãe adotiva não conseguia pronunciar, então ele foi rebatizado com o nome Luce - que é adotado por um casal de brancos americanos que lhe dá tudo o que o dinheiro pode oferecer: uma boa casa onde morar e uma escola onde ele, já adolescente, se destaca como um jovem promissor chamando a atenção por servir como exemplo. Sua vida vira de cabeça para baixo no dia em que sua professora, também negra, pede aos alunos que escrevam uma redação se passando por alguém famoso e ele escolhe Frantz Fanon. Para quem não conhece, Frantz Fanon (1925-1961) foi um psiquiatra e filósofo político nascido na colônia francesa da Martinica. Suas obras tornaram-se influentes nos campos dos estudos pós-coloniais, da teoria crítica e do marxismo. Além de intelectual, Fanon era um radical político, pan-africanista e humanista preocupado com a psicopatologia da colonização e as consequências humanas, sociais e culturais. Ocorre que a redação feita por Luce deu margem à interpretação, por parte da professora, de que poderia estar despontando no rapaz algum tipo de revolta e consequente comportamento agressivo, o que culmina com o achado em seu armário de um pacote de fogos de artifícios ilegais em volume suficiente para derrubar uma parede. A desconfiança cresce quando atos violentos surgem aqui e ali levando à um embate entre a professora desconfiada, Luce e seus pais adotivos. Estaria ela certa com relação à essa desconfiança ou estaria sua visão estereotipada? 
O que disse a crítica: Wanderley Teixeira do site Chovendo Sapos escreveu: “A dúvida é constante ao longo da narrativa. Quem está dizendo a verdade? Quem realmente é aquilo que transparece? Luce, com todos os seus atributos de jovem exemplar, seria mesmo capaz de cometer os atos que Harriet suspeita? (...) Nem mesmo os pais interpretados por Naomi Watts e Tim Roth escapam dos questionamentos do público, funcionando, por vezes, como seus olhos para a própria narrativa que é tecida, mas também revelando alguns traços da complicada dinâmica familiar que vivenciaram com o garoto nos primeiros anos da adoção, quando o rapaz ainda lidava com o trauma de ter vindo de uma região de intenso conflito bélico na África. Todo esse background acaba trazendo à tona pais afetuosos, mas também excessivamente protetores e cheios de culpa”. 
O que eu achei: O resultado me agradou demais. Ele toca numa ferida importante que implica num “processo de perda de identidade de um rapaz africano adotado por uma família branca de classe média dos EUA, que não tem qualquer consciência de classe. O próprio nome do protagonista (Luce) é um traço marcante desse processo, lembrado a todo momento pelos demais personagens como um indício do ‘embranquecimento’ do rapaz. Assim, a professora (...) surge como essa peça incômoda na trajetória de Luce, abalando algumas de suas convicções moldadas e o próprio caráter do rapaz. Gradualmente assumindo ares mais sombrios conforme a psiquê dos seus protagonistas é revelada, ‘Luce’ capta neuroses germinadas na sociedade americana a partir da sua não superada dívida com a população negra do país. A hipocrisia do reconhecimento de méritos isolados e do assistencialismo tem um revés na ficção a partir de um complexo estudo de relações que se desembaraçam e se revelam ainda mais perturbadoras”. Quem não achar esse filme uma excelente oportunidade para refletir sobre esse lúcido retrato sociológico, com certeza não prestou atenção suficiente ao conteúdo.