
Comentário: Trata-se de mais um filme da lista dos essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: “Martin Scorsese não vivia seus melhores dias quando resolveu fazer ‘Touro Indomável’. Seu filme anterior ('New York, New York', de 1977) havia sido um fracasso de público e crítica, ele vinha sofrendo com o vício em cocaína e ainda passava por problemas no casamento com Isabella Rossellini – culpa, dizem, do temperamento explosivo e inconstante dele. Quem lhe ofereceu a ideia de filmar a história real do boxeador Jake LaMotta foi o amigo e parceiro Robert De Niro, que via no ex-campeão muito da personalidade de Scorsese. A princípio o cineasta recusou o projeto, mas acabou cedendo, com a ideia de que este seria seu último trabalho no cinema. Mais tarde, o diretor disse que De Niro salvara sua vida ao lhe tirar das drogas. A história foi adaptada da autobiografia de LaMotta (De Niro), que narra a saga do campeão invicto dos pesos-médios na década de 1940 e sua decadência duas décadas depois, provocada por seu temperamento arrogante, paranoico e raivoso. Em poucos segundos, o lutador poderia ir da calmaria à tempestade e socar quem estivesse pela frente. Fosse sua esposa (Cathy Moriarty), por quem nutria ciúmes doentios, fosse seu próprio irmão (Joe Pesci). LaMotta termina sozinho, gordo, mas com paz de espírito, fazendo apresentações artísticas. Scorsese escolheu fotografar o filme em um esplendoroso P&B. Fora sua competência habitual (notável nos ângulos pouco usuais, pelo uso de câmera lenta e pela opção de filmar as lutas de dentro do ringue), vale destacar a edição de cortes rápidos da sua montadora inseparável, Thelma Schoonmaker, que ganhou um Oscar pelo trabalho. Robert De Niro foi premiado, e esta talvez tenha sido mesmo a sua principal atuação, maior até que a de ‘Taxi Driver’, principalmente por duas cenas: LaMotta batendo a cabeça na parede da prisão e chorando, e a homenagem, numa fala, a Marlon Brando em ‘Sindicato de Ladrões’ (1954). Além do desempenho, o ator engordou quase 30 quilos para interpretar os anos de decadência do personagem e teve aulas por 14 meses com o verdadeiro pugilista. O título ainda recebeu oito indicações ao Oscar. Na seleção de maiores de todos os tempos publicada pela prestigiosa revista inglesa Sight & Sound, ‘Touro Indomável’ foi eleito o melhor da década de 1980”.
O que eu achei: “Touro Indomável” (1980) transforma a trajetória do boxeador Jake LaMotta em um retrato devastador de autodestruição. Longe de ser apenas um filme esportivo, a obra mergulha na mente de um homem consumido por ciúmes, insegurança e violência. No centro de tudo está Robert De Niro, em uma atuação monumental. Sua transformação física e emocional é impressionante, mas o que realmente marca é a forma como ele expõe as contradições de LaMotta: um lutador feroz no ringue e, fora dele, alguém incapaz de lidar com suas próprias fragilidades. É uma interpretação crua, sem qualquer tentativa de suavizar o personagem. A escolha do preto e branco é fundamental para a atmosfera do filme. Scorsese filma as lutas como se fossem batalhas íntimas, com enquadramentos e movimentos de câmera que colocam o espectador dentro do ringue, sentindo cada golpe. A violência é física, mas também emocional e talvez ainda mais dolorosa fora das cordas. O roteiro, coescrito por Paul Schrader, constrói uma narrativa fragmentada, que acompanha a ascensão e a queda de LaMotta sem buscar redenção fácil. Ao contrário, o filme insiste em mostrar um homem que sabota a si mesmo repetidamente, incapaz de escapar de seus próprios impulsos. Excelente em todos os aspectos, o longa é uma obra poderosa e desconfortável, que transforma uma história real em uma reflexão profunda sobre masculinidade, culpa e autodestruição. Um filme que não busca agradar, mas impactar e consegue isso com uma força impressionante. Independentemente de você se interessar por boxe, o foco nas emoções dos personagens gera empatia imediata. É filme para ver e rever.