9.10.22

“Deserto Particular” - Aly Muritiba (Brasil/Portugal, 2021)

Sinopse:
 
Daniel (Antonio Saboia) é um policial que recentemente se envolveu em um caso de agressão que foi parar nas reportagens televisivas. Ele mantém um namoro pela internet, que parou de responder às suas mensagens assim que viu seu affair nos noticiários. Consumido pela ansiedade em conhecer Sara (Pedro Fasanaro) pessoalmente, Daniel decide largar tudo e procurar o amor no norte do país.
Comentário: Aly Muritiba (1979) é um cineasta brasileiro. "Deserto Particular" (2021) é o primeiro filme que vejo dele.
Trata-se de um filme de drama com roteiro original co-assinado pelo próprio Muritiba e por Henrique dos Santos. A produção é fruto de uma parceria entre Brasil e Portugal e acompanha a jornada de Daniel, um policial curitibano afastado do trabalho após um erro que coloca sua carreira em risco. Angustiado e em crise pessoal, ele passa a trocar mensagens com Sara por meio de um aplicativo de encontros - uma relação que acontece sobretudo no virtual. Quando as respostas de Sara param de chegar, Daniel decide atravessar o país em busca dela, partindo de Curitiba rumo ao sertão baiano e embarcando, ao longo da viagem, em um processo de autodescoberta e reflexão sobre seus próprios afetos e identidade.
O filme foi exibido pela primeira vez no Festival de Cinema de Veneza, na mostra paralela Giornate degli Autori, onde foi ovacionado pelo público e recebeu o Prêmio do Público BNL - um reconhecimento significativo em um dos principais festivais internacionais de cinema. Posteriormente, "Deserto Particular" foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na corrida pela indicação ao Oscar na categoria de Melhor Filme Internacional em 2022, embora não tenha sido incluído na lista final dos indicados.
Além dessa seleção para o Oscar, o longa agregou uma série de prêmios e reconhecimentos ao longo de sua trajetória em festivais e mostras. Entre eles estão distinções em eventos internacionais e nacionais, como prêmios em festivais com foco em cinema LGBTQIA+, Melhor Filme e Melhor Atuação em festivais brasileiros - reflexo da repercussão que a obra teve ao abordar, de forma sensível e humana, temas relacionados a amor, identidade e transformação pessoal.
Uma curiosidade sobre a produção é que o desenvolvimento do roteiro levou vários anos, com a colaboração de Muritiba e Henrique dos Santos desde oficinas de roteiro até a concretização do projeto. As filmagens aconteceram em diferentes regiões do Brasil, como Curitiba e locais no interior da Bahia, e o filme foi pensado para explorar não apenas a jornada física de Daniel, mas também questões amplas sobre masculinidade, vulnerabilidade e afetos em um contexto social contemporâneo.
O que disse a crítica: Marcelo Hessell do site Omelete diz, “É evidentemente forte e simbólica essa premissa porque, à parte os motivos íntimos do cineasta, o Brasil cindido de 2021 necessita urgentemente de reparação nas suas diferenças: o Sul e o Norte, o masculino e o feminino, o conservador e o progressista, o velho e o novo. Nascido na Bahia e residente no Paraná, Muritiba faz no filme o movimento inverso ao que realizara fora das telas, e, ao traçar esse percurso de Curitiba até Juazeiro, ‘Deserto Particular’ se filia a uma tradição importante do road movie no Brasil, ao mesmo tempo em que atende a esse chamado da pacificação nacional”. 
O que eu achei: De um lado temos Daniel (Antonio Saboia), um policial cisgênero meio bruto de Curitiba que acabou afastado do trabalho por conta de um episódio de agressão. Do outro temos Sara (Pedro Fasanaro), sua namorada virtual gay que mora em Sobradinho, na Bahia. Daniel fala muito desse Brasil da extrema direita. Sara fala muito desse Brasil da esquerda. Interessante como Muritiba parece querer apaziguar esses dois extremos. Ao começar, a impressão que fica é que o filme não vai decolar, mais para o meio esse ritmo melhora, entretanto, apesar de ’Deserto Particular’ não abrir mão dos conflitos, nem de resoluções de impacto, [ele] parece um filme que está sempre no limite de fazer suas escolhas pautado pelas boas intenções. Quando trata de situações de enfrentamento - que podem render conclusões várias, entre elas a violenta - muitas vezes a saída é apaziguada no constrangimento, no silêncio apartado, no mal-entendido, o que tira uma certa força do filme. O resultado, mesmo assim, é digno. Atenção à trilha sonora que faz o romance ganhar uma dose extra de emoção com “Total Eclipse of the Heart” da cantora Bonnie Tyler.