Sinopse: A família Vance se muda para Ohio na esperança de viver longe da pobreza em um período pós-guerra. Quando J.D. (Gabriel Basso), o membro mais jovem da família, cresce e se torna um estudante de direito na universidade de Yale, suas chances de se dar bem na vida começam a aparecer. Entretanto, por conta de uma crise familiar, ele terá que retornar e se deparar com a dura realidade da família que ficou para trás.
Comentário: Trata-se de uma adaptação do livro autobiográfico “Hillbilly Elegy” (Elegia Caipira) do escritor J. D. Vance. Uma breve pesquisa nos mostra que o escritor cresceu numa família relativamente pobre no Kentucky, mas conseguiu entrar na Escola de Direito de Yale e hoje é advogado de uma empresa de investimentos no Vale do Silício. E é esta a história que será contada e que, no Brasil, teve seu título trocado de "Elegia Caipira" para "Era uma Vez um Sonho". Segundo Robledo Milani do site Papo de Cinema, "O espectador que decidir [assistir ao filme] (...) fará melhor se permanecer atento ao nome real (...). Uma explicação sobre o termo ‘elegia’, de pouco uso na língua portuguesa, também se faz necessária: ode, enaltecimento, de caráter melancólico ou nostálgico, segundo o dicionário. Bem o que é possível encontrar no drama conduzido com mão pesada por Ron Howard: personagens deprimentes, feitos violentos e agressivos, uma absoluta ignorância em relação ao mundo e uma total falta de empatia em relação ao próximo vinda daqueles que demonstram orgulho pelo tamanho de suas desgraças. Esse poderia ser um retrato interessante, sociologicamente falando, ainda mais em um mundo cada vez mais dividido politicamente, ainda ressentido dos efeitos provocados por homens como Donald Trump e Jair Bolsonaro, que valorizam justamente o pior do ser humano. Mas esse viés crítico e distanciado, tão urgente ao se abordar questões como as que aqui são ressaltadas, é meticulosamente deixado de lado, substituído por uma proximidade que pouco tem a oferecer ao conjunto para aumentar o interesse do espectador em relação ao que se desenrola em cena". Se eu particularmente olhar para trás e pensar nos filmes que já assisti do Ron Howard - "O Jornal" (1994), "Ed TV" (1999), "O Código Da Vinci" (2006), "Anjos e Demônios" (2009), "No Coração do Mar" (2015) - nenhum deles tocou meu coração profundamente ou me fez refletir sobre a vida. Talvez "Uma Mente Brilhante" (2001), que ganhou os Oscars de Melhor Filme e Direção, tenha sido um que, de alguma forma, me chamou atenção para o diretor. Milani nos lembra que tanto "Uma Mente Brilhante" quanto "Frost/Nixon" (2008) que lhe rendeu indicações ao prêmio, possuem em comum, "o fato de terem sido baseados em histórias reais, assim como 'Era uma vez um sonho'. Nesse último, no entanto, deixa de lado a sobriedade e o discernimento percebido em alguns dos seus trabalhos de maior destaque para abraçar uma causa que se antevê perdida desde os primeiros instantes. Ao invés de propor um olhar mais detalhado a respeito dessa importante parcela da população norte-americana - e, como bem se sabe, mundial - da qual a família Vance pertence, o que o cineasta demonstra é uma preocupação primária em enaltecer uma coletividade de alcance restrito, valorizando os esforços individuais de um ou outro, ao mesmo tempo em que se esforça em reconhecer os valores daqueles que acabam ficando pelo caminho, na maioria das vezes por visões simplistas, como uma gravidez surgida antes do tempo, um pai que bebia demais ou a falta do marido ideal. Em nenhum momento, no entanto, entram em cena questionamentos a respeito do papel do governo ou da própria sociedade em relação a como cada um pode, enfim, fazer diferença ao todo, e não apenas no que diz respeito ao seu limitado campo de atuação. Assim, diante de uma narrativa que se esforça em alcançar uma identificação vazia, ao invés de estimular um debate que envolva causas e consequências, o que se verifica é o desperdício de duas atrizes que já tiveram dias muito melhores": Amy Adams e a excelente Glenn Close que concorreu ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por esse filme. Como disse o jornal El País, "E assim transcorre uma sucessão de pinceladas com brocha que busca conciliar os dois Estados Unidos com um todo-o-mundo-é-bom, em cuja impostada indulgência é difícil de acreditar". Bem mediano.
