Sinopse: O biólogo Henri Laborit (Henri Laborit) comprova sua teoria sobre a interferência do ambiente na formação da personalidade através de três pessoas: René (Gérard Depardieu), ansioso funcionário de uma empresa têxtil; Janine (Nicole Garcia), atriz e estilista que se sensibiliza com a doença da esposa de seu amante e Jean (Roger Pierre), um político com aspirações literárias.
Comentário: Alain Resnais (1922-2014) foi um realizador, roteirista e montador francês. Ele dirigiu diversos filmes ao longo da vida, dentre eles "Hiroshima Meu Amor" (1959), "O Ano Passado em Marienbad" (1961) e "Medos Privados em Lugares Públicos" (2007), dentre outros. Assisti dele "Amar, Beber e Cantar" (2014). Desta vez vou conferir "Meu Tio da América" (1980).
Henri Laborit realmente existiu. Ele nasceu em Hanói, capital do Vietnã, em 1914 e faleceu em 1995. Foi médico, biólogo e pesquisador do comportamento humano.
Segundo o Jornal do Brasil, "o enredo buscou inspiração em teorias do professor Henri Laborit (...) sobre como o ambiente interfere na formação da personalidade das pessoas. Em vez de ratos de laboratórios, os personagens são dois homens e uma mulher de diferentes cidades francesas, com origens sociais e familiares distintas.
São eles, no presente, um gerente de empresa em crise, uma atriz que abriu mão da carreira artística e um político com ambições literárias. 'Eles terão suas vidas cruzadas em situações de escolhas complicadas que poderão trazer mudanças importantes (...).
As decisões dos personagens ilustram teorias psicobiológicas (behavioristas) de Laborit - que também participa do filme comentando a ação. Para ele, há fatores inconscientes nas decisões das pessoas, mas não se trataria do mesmo Inconsciente Dinâmico de Freud', explica o psicanalista da SBPRJ Luiz Fernando Gallego".
O longa venceu o Grande Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes, seis Césares e foi nomeado para o Oscar de Melhor Argumento Original.
O que eu achei: Em "Meu Tio da América" (1980), Alain Resnais propõe um experimento narrativo que divide facilmente o espectador. O filme funde documentário com ficção: de um lado ocorre a história dos personagens com seus dramas pessoais, se fosse só isso seria um bom filme. Porém, essa história é interrompida vez ou outra pelos comentários do professor Laborit, quebrando o ritmo e prolongando a duração da trama. A intenção é clara: relacionar comportamentos humanos às teorias biológicas e científicas, mas nem sempre essa costura funciona de forma fluida. A presença constante do discurso teórico acaba esfriando o envolvimento emocional com os personagens, que parecem mais exemplos de um estudo do que figuras plenamente desenvolvidas. Ainda assim, há interesse na maneira como Resnais articula essas camadas, alternando cenas de ficção com imagens de arquivo e observações quase didáticas, o que reforça seu gosto pela experimentação e pela quebra das convenções narrativas tradicionais. O resultado final não chega a ser propriamente bom nem ruim, mas certamente é singular. "Meu Tio da América" vale pela curiosidade e pelo desafio que propõe ao espectador, especialmente para quem se interessa por cinema que arrisca formatos e ideias pouco usuais. Mesmo irregular, é um filme que desperta reflexão e ajuda a entender melhor o espírito inquieto de um cineasta que nunca se acomodou.
