7.12.20

"O Sacrifício" - Andrei Tarkovski (Suécia/França, 1986)

Sinopse:
 
Na noite de seu aniversário, Alexander (Erland Josephson) vê suas maiores preocupações sobre a humanidade se concretizarem quando finalmente eclode a Terceira Guerra Mundial. O homem, um antigo jornalista e poeta, decide realizar uma imersão máxima na espiritualidade e planeja oferecer um sacrifício para que Deus impeça a Guerra de acontecer.
Comentário: Andrei Tarkovski (1932-1986) é um cineasta russo, filho do poeta russo Arseny Alexandrovich Tarkovski e da atriz Maria Ivanova Vishnyakova. Após se formar em cinema ele dirigiu, ainda na União Soviética, sete longas-metragens e três curtas. Conta-se que sua convivência com as autoridades soviéticas nunca foi pacífica, tendo alguns dos seus filmes encontrado sérios problemas de distribuição interna. Por conta disso, depois que ele rodou “Stalker” (1979), Tarkovski optou por passar os seus derradeiros anos no Ocidente o que explica porquê seus dois últimos filmes foram rodados fora: “Nostalgia” (1983) ele fez na Itália com a chancela da RAI e “O Sacrifício” (1986) ele rodou na Suécia. Assisti dele as obras-primas "A Infância de Ivan" (1962), "Stalker" (1979), "Solaris" (1972) e "Andrei Rublev" (1966) além do bom "O Espelho" (1975). Desta vez vou conferir "O Sacrifício" (1986).
Trata-se do filme número 49 da lista dos 100 Essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: "São raros os cineastas que chegam ao fim da vida a ponto de fazerem do último trabalho o seu melhor. Andrei Tarkovski conseguiu isso. O diretor russo já sofria com um câncer terminal no pulmão quando filmou a sua última obra-prima, em 1986. Como padeceu a vida inteira com problemas de censura, produção e distribuição precária de seus filmes na então União Soviética, mudara-se poucos anos antes para a Europa ocidental. Na Itália rodou 'Nostalgia' (1983). Fez 'O Sacrifício' na Suécia, com a ajuda de vários colaboradores habituais de outro gênio, o sueco Ingmar Bergman (que o considerava o maior diretor do mundo, entre seus contemporâneos), como o ator Erland Josephson, o diretor de fotografia Sven Nykvist e o figurinista Inger Pehrsson. O jornalista e ator Alexander (Josephson) faz aniversário e convida os amigos mais próximos para comemorar em sua casa de campo, isolada da cidade. Enquanto o pequeno grupo comemora, a televisão dá a notícia de uma tragédia nuclear de dimensões catastróficas, que provocará a Terceira Guerra Mundial. A iminência do fim do mundo leva cada um dos convidados de Alexander a ter uma reação: de desespero, sono, ou mesmo, resignação. É o professor, entretanto, que tem a reação mais interessante. Um típico existencialista, ele até então ignorava com tranquilidade a existência de Deus, crendo apenas no homem e em suas escolhas. Mas em um momento de angústia, até o mais ateu se preocupa, e o personagem entra em crise de fé, tentando entender os motivos do fim. Visita a empregada, uma suposta feiticeira, por acreditar que ao fazer amor com ela seja capaz de salvar o planeta. Depois, rende-se, ajoelha-se e reza. É a maneira do diretor reiterar sua notória espiritualidade e fé. Além da profundidade filosófica do tratamento, a beleza de 'O Sacrifício' deve-se também à presença da música de Johann Sebastian Bach e da exuberante fotografia de Nykvist, que ganhou o prêmio de Melhor Contribuição Artística em Cannes pelo trabalho. O incêndio da casa no final, que dura seis minutos, revela o capricho do diretor de fotografia. Aliás, quando a cena terminou de ser filmada, descobriu-se que a câmera teve um defeito e outra casa precisou ser construída para ser queimada".
O que eu achei: “O Sacrifício” (1986) é um daqueles filmes que parecem ultrapassar os limites do próprio cinema para se tornar experiência espiritual. Nos seus 149 minutos, Tarkovski constrói uma narrativa lenta e contemplativa, exigindo do espectador entrega total e disposição para mergulhar em um universo de silêncio, angústia e transcendência. A influência bergmaniana se faz sentir, mas sempre filtrada pela sensibilidade única de Tarkovski, que transforma cada plano em um gesto poético e cada silêncio em espaço para reflexão. É uma obra-prima que convida à contemplação e à meditação sobre fé, sacrifício e a busca de sentido em meio à iminência da destruição. Visualmente, o filme é deslumbrante. A fotografia, com sua luz suave e composição rigorosa, dialoga com o espírito da pintura nórdica e transforma a paisagem em parte essencial da narrativa. Tarkovski trabalha com planos-sequência longos e movimentos de câmera fluidos que criam uma atmosfera de suspensão, como se o tempo fosse estendido para além de sua duração real. O resultado é uma estética de rara beleza, capaz de prender o espectador num estado de hipnose. “O Sacrifício” é imperdível porque representa o testamento artístico de Tarkovski, feito já no exílio, mas com a mesma convicção estética e espiritual que atravessa toda a sua obra. É um filme que exige sair da zona de conforto, mas oferece em troca uma experiência inigualável: a sensação de ter participado de um ritual cinematográfico que transcende a simples narrativa. Uma despedida à altura de um dos maiores poetas do cinema.