Sinopse: Jorge (Zózimo Bulbul), um poeta negro, é amante de uma mulher mais velha (Élida Palmas), empresária, branca e rica. Mas em uma reunião de um círculo de intelectuais ele conhece Cristina (Reneé de Vielmond), outra moça branca de família rica, e se apaixona. O relacionamento deles enfrenta preconceitos de todos os lados e Jorge se vê perturbado pelas duas famílias e no dia a dia, por toda a sociedade, enquanto a ex-amante ainda o procura.
Comentário: Antunes Filho (1929-2019) foi um diretor de teatro brasileiro que fez parte da primeira geração de encenadores dissidentes do Teatro Brasileiro de Comédia, onde começou como assistente de direção em 1952. Anos depois, ele montou o Centro de Pesquisa Teatral (CPT), o qual funciona até hoje dentro do Sesc Consolação. Após a morte de Antunes, o SESC resolveu disponibilizar on line muitas de suas peças e também seu único filme de cinema "Compasso de Espera" rodado em 1969 mas lançado apenas em 1973 devido à censura.
O filme foi baseado em uma história original escrita pelo próprio diretor e é hoje lembrado como uma das obras mais importantes do cinema brasileiro a abordar de forma direta as questões raciais e as barreiras sociais enfrentadas pela população negra em um país que frequentemente se apresentava como uma “democracia racial”.
No papel principal está Zózimo Bulbul, o primeiro galã negro do cinema, militante do movimento negro no Rio.
A trama acompanha Jorge, um intelectual negro de classe média que trabalha como publicitário em São Paulo. Bem-sucedido profissionalmente, ele mantém um relacionamento amoroso com uma jovem branca de família rica, mas passa a enfrentar preconceitos velados e explícitos tanto em sua vida pessoal quanto profissional. O filme explora como o racismo se manifesta em ambientes que se consideram modernos e progressistas, revelando tensões frequentemente ocultadas pela sociedade brasileira da época.
O elenco reúne nomes conhecidos do cinema e da televisão brasileira, incluindo Renée de Vielmond, que interpreta a namorada de Jorge, além de Lélia Abramo e Miriam Mehler.
As filmagens ocorreram principalmente na cidade de São Paulo, utilizando locações urbanas que ajudam a retratar a ascensão da classe média brasileira no final dos anos 1960. O longa foi produzido durante o período da ditadura militar, contexto que torna ainda mais significativa sua abordagem de temas sociais sensíveis.
Ao longo dos anos o longa passou a ser reconhecido como um marco na representação de protagonistas negros no cinema brasileiro, especialmente por colocar no centro da narrativa um personagem negro instruído, complexo e socialmente ascendente, algo relativamente raro na produção nacional daquele período. Embora não tenha obtido o mesmo reconhecimento internacional de obras do Cinema Novo, o filme ganhou importância histórica e acadêmica por seu pioneirismo ao discutir racismo estrutural, identidade e mobilidade social no Brasil urbano dos anos 1960.
O que eu achei: Assistir a “Compasso de Espera” (1969) hoje é mais do que conhecer um filme pouco lembrado do cinema brasileiro; é ter a rara oportunidade de entrar em contato com a única experiência de Antunes Filho na direção de longas-metragens. Conhecido principalmente por sua trajetória revolucionária no teatro, Antunes realizou apenas este filme para o cinema, o que por si só já lhe confere um interesse histórico especial. Mas a relevância de “Compasso de Espera” não se resume à curiosidade cinéfila. Realizado em 1969, o longa aborda de forma frontal questões raciais em uma época em que o mito da democracia racial brasileira ainda era amplamente aceito e pouco questionado. O protagonista Jorge, interpretado por Zózimo Bulbul, é um homem negro instruído, profissionalmente bem-sucedido e inserido na classe média urbana. Ainda assim, encontra barreiras invisíveis e preconceitos persistentes que revelam os limites da suposta integração racial do país. O que mais chama atenção é como muitos dos temas discutidos continuam atuais. Embora a linguagem e algumas escolhas formais revelem a época em que foi produzido, o filme preserva uma capacidade surpreendente de provocar reflexão. Não se trata apenas de um documento histórico, mas de uma obra que ainda dialoga com debates contemporâneos sobre racismo, pertencimento e mobilidade social. Também é interessante observar como Antunes Filho transporta para o cinema parte da sensibilidade que o tornaria um dos maiores nomes do teatro brasileiro. Há uma preocupação evidente com os diálogos, com a construção dos personagens e com os conflitos humanos que atravessam a narrativa. Talvez “Compasso de Espera” não possua o mesmo refinamento formal de alguns dos grandes clássicos do cinema brasileiro de sua geração, mas sua importância cultural e histórica é inegável. Ver esse filme é testemunhar um encontro raro entre duas artes: o único momento em que um dos maiores diretores teatrais do Brasil decidiu se expressar através do cinema. Só por isso já valeria a sessão. Felizmente, há muito mais do que isso para descobrir aqui.
As filmagens ocorreram principalmente na cidade de São Paulo, utilizando locações urbanas que ajudam a retratar a ascensão da classe média brasileira no final dos anos 1960. O longa foi produzido durante o período da ditadura militar, contexto que torna ainda mais significativa sua abordagem de temas sociais sensíveis.
Ao longo dos anos o longa passou a ser reconhecido como um marco na representação de protagonistas negros no cinema brasileiro, especialmente por colocar no centro da narrativa um personagem negro instruído, complexo e socialmente ascendente, algo relativamente raro na produção nacional daquele período. Embora não tenha obtido o mesmo reconhecimento internacional de obras do Cinema Novo, o filme ganhou importância histórica e acadêmica por seu pioneirismo ao discutir racismo estrutural, identidade e mobilidade social no Brasil urbano dos anos 1960.
O que eu achei: Assistir a “Compasso de Espera” (1969) hoje é mais do que conhecer um filme pouco lembrado do cinema brasileiro; é ter a rara oportunidade de entrar em contato com a única experiência de Antunes Filho na direção de longas-metragens. Conhecido principalmente por sua trajetória revolucionária no teatro, Antunes realizou apenas este filme para o cinema, o que por si só já lhe confere um interesse histórico especial. Mas a relevância de “Compasso de Espera” não se resume à curiosidade cinéfila. Realizado em 1969, o longa aborda de forma frontal questões raciais em uma época em que o mito da democracia racial brasileira ainda era amplamente aceito e pouco questionado. O protagonista Jorge, interpretado por Zózimo Bulbul, é um homem negro instruído, profissionalmente bem-sucedido e inserido na classe média urbana. Ainda assim, encontra barreiras invisíveis e preconceitos persistentes que revelam os limites da suposta integração racial do país. O que mais chama atenção é como muitos dos temas discutidos continuam atuais. Embora a linguagem e algumas escolhas formais revelem a época em que foi produzido, o filme preserva uma capacidade surpreendente de provocar reflexão. Não se trata apenas de um documento histórico, mas de uma obra que ainda dialoga com debates contemporâneos sobre racismo, pertencimento e mobilidade social. Também é interessante observar como Antunes Filho transporta para o cinema parte da sensibilidade que o tornaria um dos maiores nomes do teatro brasileiro. Há uma preocupação evidente com os diálogos, com a construção dos personagens e com os conflitos humanos que atravessam a narrativa. Talvez “Compasso de Espera” não possua o mesmo refinamento formal de alguns dos grandes clássicos do cinema brasileiro de sua geração, mas sua importância cultural e histórica é inegável. Ver esse filme é testemunhar um encontro raro entre duas artes: o único momento em que um dos maiores diretores teatrais do Brasil decidiu se expressar através do cinema. Só por isso já valeria a sessão. Felizmente, há muito mais do que isso para descobrir aqui.
