Sinopse: Na Chicago dos anos 20, um gângster (Paul Muni) mata um rival do seu chefe e rapidamente ganha destaque dentro da quadrilha. Ele espera o momento exato para assassinar seu chefe e se tornar o novo líder do bando, mas o fato de sua irmã (Ann Dvorak), por quem ele sente uma paixão incestuosa, estar envolvida com seu homem de confiança (George Raft) o deixa totalmente abalado. Este fato gerará trágicas conseqüências.
Comentário: Howard Hawks (1896-1977) foi um diretor de cinema, produtor e roteirista americano da era clássica de Hollywood. Conhecido por sua versatilidade, Hawks explorou muitos gêneros, como comédias, dramas, thriller policial, ficção científica, noir, filmes de guerra e faroestes. Assisti dele os ótimos "Jejum de Amor" (1940) e "Hatari!" (1962) e os bons "Levada da Breca" (1938) e "Bola de Fogo" (1941). Desta vez vou conferir "Scarface - A Vergonha de uma Nação" (1932).
Como assistir este filme sem compará-lo ao "Scarface" de 1983, do diretor Brian de Palma com o Al Pacino no papel de gângster? Nesta versão, em P&B, como disse Inácio Araújo na Folha de São Paulo, vemos um filme muito mais "próximo do cinema mudo" com "uma máfia fundada sobre bebidas" que "hoje soa até inverossímil", mas era época da Lei Seca e, à época, aquilo fazia sentido. "O mais novo é evidentemente mais próximo de nós: as cores, a referência a Miami, certas cafonices que nos aparecem como tal, a violência, a máfia fundada nas drogas". Porém "o original é sempre o original" e vale a pena ser visto até pelo grande diretor que Howard Hawks é. Melhor ainda: veja os dois e tire suas próprias conclusões.
O que eu achei: "Scarface – A Vergonha de uma Nação" (1932) é um dos grandes filmes do ciclo pré-Código de Hollywood e um marco inicial do cinema de gângsteres, ainda que hoje seja mais admirável por sua importância histórica do que por impacto emocional imediato. Howard Hawks constrói a ascensão e queda de Tony Camonte com energia brutal e ritmo direto, explorando a violência como espetáculo e crítica ao mesmo tempo. Paul Muni imprime intensidade ao personagem, mas sua atuação por vezes beira o exagero, algo típico da época e que pode criar certa distância para o espectador contemporâneo. Ainda assim, o filme impressiona pela frontalidade com que aborda crime, ambição e poder, sem o verniz moralizante que dominaria o gênero nos anos seguintes. O olhar de Hawks é funcional e seco, interessado menos na psicologia profunda do que no movimento e nas consequências inevitáveis da escalada criminosa. Sequências icônicas, como o uso recorrente do símbolo do “X” anunciando a morte, revelam uma sofisticação visual surpreendente para o início dos anos 1930. Ao mesmo tempo, a relação incômoda entre Tony e sua irmã introduz um subtexto perturbador que reforça a decadência moral do protagonista, embora nem sempre seja plenamente desenvolvido. "Scarface" é um filme bom, sólido e influente, cuja força reside mais na fundação de uma linguagem e de um imaginário do que em sua complexidade dramática.
