Sinopse: A cidade de Metrópolis é dividida em duas: de um lado estão os operários, vivendo na miséria e explorados por máquinas. Do outro, estão os políticos, que desfrutam de um jardim idílico. Uma história de amor surge entre os dois extremos da cidade.
Comentário: Considerado um dos mais famosos nomes da escola do expressionismo alemão, Fritz Lang nasceu em Viena, na Áustria, filho de um engenheiro civil, que desejava que ele seguisse a mesma carreira. Aos 21 anos mudou-se para Munique, onde estudou pintura e escultura. Participou na Primeira Guerra Mundial e foi gravemente ferido em um dos olhos. No hospital, onde permaneceu por longo tempo, começou a escrever roteiros para Joe May, os quais eram dotados de um forte grafismo, no campo do fantástico e do demoníaco. A efervescência cultural, política e social da Berlim do pós-guerra se reflete nas suas primeiras obras. Em 1919, estreou na direção com um filme chamado "Halbblut", que hoje se perdeu e acerca do qual se sabe muito pouco. Alcançou o primeiro sucesso com "Os Espiões", do mesmo ano. Em 1921, casou-se com a roteirista Thea Von Harbou, que escreveu os argumentos de quase todos os filmes da primeira fase de sua carreira. As películas que Lang dirigiu ainda na fase do cinema mudo ficariam para a história como alguns dos maiores expoentes do expressionismo alemão. A critica, que unanimemente tinha enaltecido os seus filmes alemães, era agora também quase unânime a subvalorizar as obras que realizava nos Estados Unidos, argumentando que Lang teria se subjugado aos produtores norte-americanos, desperdiçando talento em filmes comerciais. Só na década de 1950 se percebeu a injustiça, quando uma boa parte dessa crítica começou a reconhecer a grande qualidade da maioria dos filmes dirigidos pelo cineasta alemão em Hollywood. Ele foi um dos primeiros cineastas a dirigir Marilyn Monroe no filme "Só a Mulher Peca" de 1952. Atuou ainda no filme "O Desprezo" (1963), de Jean-Luc Godard. Logo voltaria para os Estados Unidos, onde morreu.
Assisti dele as obras-primas "Dr. Mabuse – Partes 1 e 2” (1922) e "M, O Vampiro de Dusseldorf" (1931), os ótimos "Vive-se Só Uma Vez" (1937) e "Quando Desceram as Trevas" (1944) e o mediano "O Segredo da Porta Fechada" (1947). "Metrópolis" (1927) é o sétimo filme que vejo dele.
Em 2014 o SESC organizou uma mostra de cinema expressionista chamada "Sombras que Assombram" e publicou o seguinte texto - que contém spoilers - no catálogo da mostra: "'Metrópolis' é sempre lembrado como um filme conciliador, uma obra que busca um mundo harmônico entre empregados e patrões. Apesar dessa crítica ainda ser coerente, o que mais marcou esse trabalho visionário e ousado de Fritz Lang foi o seu apuro visual, traço típico da estética expressionista. A magnitude visual de 'Metrópolis', produzido em 1927, é assustadora, até para os olhos do século 21. Fritz Lang havia visitado Nova York e ficara impressionado com o cosmopolitismo e os prédios modernos e altos. A maquiagem também merece destaque, as faces dos ricos destacam-se pela limpidez e retidão, as dos operários salienta a dureza de suas vidas. Por sua vez, o cientista, com seu cabelo desgrenhado, explicita sua personalidade volúvel, pronto a ser seduzido pelo poderoso dono da cidade. A fotografia do mestre Karl Freund colabora na concepção de Lang desse mundo belo na superficie, mas triste em suas profundezas. Freund lança mão de tomadas de cenas realizadas em mosaico, com a projeção de vários olhos, rostos e elementos da modernidade que tão bem espelham a sensação vertiginosa impressa na narração de Lang, efeito que também utilizou em 'A Última Gargalhada', de Murnau. Em alguns momentos do filme, a alucinação das imagens parece dar a imprecisão necessária para a sequência continuar. A história se passa no século 21, numa grande cidade governada com mão de ferro por um poderoso empresário. Seus colaboradores são de classe alta e vivem em um lindo jardim, tal como Freder, único herdeiro do líder de Metrópolis. Já os trabalhadores são escravizados pelas máquinas, e condenados a trabalhar e viver em galerias no subsolo da cidade. Entre os operários, destaca-se a jovem Maria, que conclama os trabalhadores a reivindicar seus direitos. 'Metrópolis' demonstra uma preocupação crítica com a mecanização da vida industrial nos grandes centros urbanos, questionando a importância do sentimento humano, perdido no processo. Como pano de fundo, a valorização da cultura, expressa no filme pela tecnologia e, principalmente, pela arquitetura. Em 'Metrópolis' há uma opção clara de Lang pelo espetáculo, antes de tudo, um espetáculo visual, incontestavelmente imagético. O filme não se sustenta propriamente no desenvolvimento dos personagens. Mas, o que está realmente em jogo é o desequilíbrio entre as classes. Lang prefere assumir um discurso social, coletivo. O diretor vê o mundo como um lugar de extremos inconciliáveis: patrão contra operários; a humanização contrastada à robotização; o patrão humano e o desumano; solo e subsolo; o pai e o filho; Maria humana e Maria robô. Apesar desses deslizes ideológicos, 'Metrópolis' se afirma ainda hoje como uma obra visualmente muito bem-acabada, uma produção ousada e que ratificou o nome de Fritz Lang como um cineasta importante para os estudiosos do cinema. Poucos anos depois, Lang viria a realizar 'M, o Vampiro de Dusseldorf', uma obra magnífica, que muitos apontam como premonitória do nazismo, que já estava batendo à porta da Alemanha”.O que disse a crítica: Rodrigo Ghedin disse que o filme "'Metrópolis' definiu um gênero e deixou outras marcas dignas de nota. Foi o filme de maior orçamento feito até então (...), palco de novas técnicas de filmagem como o processo Schüfftan e um dos pontos altos do expressionismo alemão. É um filme mudo, característica que, àquela altura, estava há poucos anos de ser suplantada pela introdução do áudio na cinematografia. (...) A ambientação é um show à parte. Ela se inspira em movimentos artísticos como Art Deco e Bauhaus, e dita um tom que ainda hoje se vê em personagens, filmes e jogos, na cultura pop em geral. A cidade, feita à imagem da Nova York dos anos 1920 que teria impressionado sobremaneira Fritz Lang, é competentemente futurista. Até os engarrafamentos intermináveis estão ali, em meio a monotrilhos e arranha-céus a perder de vista".
O que eu achei: Se você for procurar onde estão as marcas do expressionismo, é fácil encontrá-las nos cenários cheios de linhas retas e com um artificialismo modernista exagerado, onde tudo é construído. No tocante ao fantástico estão lá as intervenções e criações científicas, como o robô construído à imagem e semelhança da líder operária Maria. Com relação à interpretação dos atores, podemos observar os gestos bruscos, expressando a dureza, a frieza e a angústia. O enredo se passa no futuro, instaurando uma profecia sombria de uma mecanização social exacerbada, de um mundo dividido, rachado, onde poucos se divertem enquanto a maioria trabalha como máquina para sustentar os poucos privilegiados. Curioso saber que Hitler admirava tanto o diretor que convidou Lang para ser o cineasta oficial do nazismo. Felizmente, o cineasta não aceitou, ele simplesmente arrumou suas malas e partiu para Hollywood, onde faria uma bela carreira. O mesmo não aconteceu com sua esposa Thea Von Harbou que preferiu ficar e aderir ao projeto de Hitler. Um clássico, uma obra-prima, um filme para ver e rever.
