19.9.16

"Francofonia - O Louvre Sob Ocupação" - Aleksandr Sokurov (Holanda, 2015)

Sinopse: Dois homens extraordinários: Jacques Jaujard, diretor do Louvre, e o Conde Wolff-Metternich, general da ocupação nazista em Paris, inimigos e posteriormente colaboradores, formaram uma aliança que seria a força por trás da preservação de tesouros do museu francês. Explorando as relações entre arte e poder, o filme mostra o Museu do Louvre como um exemplo vivo da nossa civilização.
Comentário: Aleksandr Sokurov (1951) é um cineasta russo. Assisti dele a obra-prima "Arca Russa" (2002) e os ótimos "Moloch" (1999) e "Fausto" (2011). Desta vez vou conferir "Francofonia - O Louvre Sob Ocupação" (2015), uma mistura de documentário com ficção.
Juliano dos Santos Bravo do site GEPPIC nos conta que "O filme 'Francofonia', dirigido pelo russo Alexander Sokurov, evidencia como objeto central o museu francês sob a ocupação nazista em plena Segunda Guerra Mundial. O Louvre, destacado em sua história, importância e contemplação da arte humana, revela-se por meio de um dos períodos históricos mais sangrentos da Europa, e, através desse cenário internacional, a trama se desenvolve em múltiplos níveis de análise. Como a difícil relação entre o diretor do museu, o francês Jacques Jaujard, e o general nazista Wolff-Metternich; algumas introduções ficcionais como Napoleão Bonaparte e a liberdade conduzindo o povo, ambos como história viva no interior do museu; o belo encantamento, em profundo silêncio, de algumas obras; bem como, a narração do próprio Sokurov. O filme é pouco dinâmico, muito contemplativo, ficcional e real, político e diplomático, capaz de produzir reflexões humanísticas e um prisma distinto sobre relações de poder e arte em meio a uma grande guerra.
As mais intensas relações diplomáticas e de poder são exploradas nos encontros entre Jacques Jaujard e o general Metternich. As suas histórias se aproximam nos pontos em que são apaixonados pela beleza e importância das artes, pelo fato de terem lutado na Primeira Guerra Mundial (em lados opostos), e se distanciam no pensamento político, evidentemente. Esse intrincado relacionamento expõe os difíceis aspectos cotidianos de uma ocupação estrangeira e como esse modus operandi vai articular a capacidade de preservar o seio da cultura europeia contido no Louvre.
Os devaneios contemplativos do acervo do museu, muitas vezes sobrepostos ante um estarrecedor silencio, revelando uma beleza artística ímpar e, simultaneamente, uma pertinente ironia frente aos bárbaros conflitos da guerra, tocam sobremaneira o observador ante essa múltipla realidade. Além do mais, o diretor produz questionamentos carregados de refinado sarcasmo ao indagar, por exemplo, o que seria da Rússia ou da França sem o Hermitage e o Louvre. O papel do museu e das artes como bastião dos resquícios de elevação humana, em radical oposição a conjuntura bélica, unem delicadamente um republicano democrata e um general nazista, por mais estranho que possa parecer. Este sentimento, muitas vezes difuso, atinge o espectador em inúmeras passagens, o distinto prisma das relações de poder com que o filme apresenta os personagens e, sobretudo, o valor da arte e do Louvre são grandiloquentes para a percepção dos temas contidos.
O poder das artes se transparece na sua posse, pois, acima de tudo, o general alemão está sob as ordens do próprio Füher para preservar o acervo que seria incorporado à nação alemã após o conflito. Outro exemplo de poder da arte está na atuação do ficcional Napoleão Bonaparte que a todo o momento frisa e orgulha-se da conquista de muitos itens contidos no museu, oriundos de guerras e conquistas belicosas. Um breve exame sobre o poder da cultura está, como mencionado, na ação alemã de preservação em oposição à lógica da destruição do inimigo.
Através do pensamento contido na potencialidade da cultura como recurso de poder, revelam-se os aspectos tangíveis e intangíveis do poder nas relações internacionais, ponto muito debatido em alguns conceitos do teórico Joseph Nye, como o Soft Power. Da beleza inspiradora do filme podem-se extrair inúmeros temas para análise de política internacional, especialmente sobre relações de poder, recursos de poder e diplomacia cultural".
O que disse a crítica 1: Segundo o Chicago Sun-Times, "Sokurov examina a história do Louvre e nos dá um tour virtual do museu magnífico. Ele faz pontuações exatas sobre a importância vital da arte ao longo da história humana. Este é um dos mais belos filmes do ano".
O que disse a crítica 2: Para O Estado de São Paulo, "na linha fina do filme, trata-se sempre de evocar a cultura, a arte, como possíveis antídotos à desumanização, barragens erguidas pela espécie contra as forças da morte e do obscurantismo". 
O que disse a crítica 3: O Zero Hora disse "'Francofonia' é um filme carregado de beleza e simbolismo. Sokurov oferece uma experiência cada vez mais rara de se encontrar na sala de cinema. Assina um monumento digno de figurar no museu que homenageia". 
O que eu achei: "Francofonia - O Louvre Sob Ocupação" (2015) é uma obra singular que dissolve as fronteiras entre documentário e ficção, criando uma experiência cinematográfica ao mesmo tempo reflexiva e profundamente estética. O filme não se limita a contar fatos históricos: ele encena diálogos imaginários, mistura imagens de arquivo, reconstituições e momentos ensaísticos, formando um mosaico que convida o espectador a pensar sobre a arte, a história e a própria humanidade. O ponto central é o Museu do Louvre durante a ocupação nazista, mas Sokurov amplia o olhar para além do episódio histórico, explorando o papel da cultura em tempos de guerra e a fragilidade do patrimônio diante das catástrofes humanas. Com sua abordagem poética, o diretor transforma o museu em um personagem vivo, um guardião silencioso da memória europeia. Há algo de teatral na forma como ele constrói as cenas, como se o passado e o presente dialogassem constantemente diante das obras-primas ali preservadas. A direção de Sokurov é elegante, contemplativa e ousada, resultando em uma obra que fascina tanto pelo conteúdo quanto pela forma. Para quem aprecia cinema que desafia classificações e propõe novas maneiras de olhar para o passado, "Francofonia" é uma experiência admirável. Cinco estrelas como tudo o que o diretor faz.