29.5.16

"Os Famosos e os Duendes da Morte" - Esmir Filho (Brasil/França, 2009)

Sinopse: Um garoto de 16 anos (Henrique Larré), fã de Bob Dylan, tem acesso ao restante do mundo apenas por meio da internet, enquanto vê os dias passarem em uma pequena cidade rural de colonização alemã no sul do Brasil. Até que uma figura misteriosa o faz mergulhar em lembranças e num mundo além da realidade.
Comentário: Esmir Filho (1982) é um cineasta brasileiro. São dele os curtas "Alguma Coisa Assim" (2006), que ganhou o prêmio de Melhor Roteiro em Cannes, "Saliva" (2007), indicado para representar o Brasil no Oscar e a obra multimídia "Kollwitzstrasse 52", exibida no MIS de São Paulo, que combina cinema e teatro. "Os Famosos e os Duendes da Morte" (2009) é seu primeiro longa e o primeiro filme que vejo dele.
A trama gira em torno de um adolescente de 16 anos, apelidado de “Mr. Tambourine Man” (referência à canção do Bob Dylan), que vive em uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, em uma comunidade de colonização alemã. Esse jovem passa grande parte do tempo conectado à internet, usando chats e sites para escapar da monotonia local. Ele se fascina por uma figura feminina misteriosa que aparece em vídeos e fotografias online, conhecida como “Jingle Jangle”, e desenvolve uma espécie de obsessão por esse mundo virtual. Outro elemento simbólico muito forte no filme é uma ponte de ferro, presente no cenário da cidade, associada a suicídios locais. Para além da solidão do protagonista, há questões existenciais profundas: pertencimento, a tensão entre o real e o virtual, e o desejo de “ir embora”, simbolizado por um suposto show de Dylan.
O filme é inspirado em um romance homônimo de Ismael Caneppele. No entanto, a relação entre livro e filme é bastante interessante: segundo fontes, não é uma adaptação comum. Caneppele e Esmir Filho trabalharam juntos no roteiro enquanto o livro ainda estava sendo finalizado. Ou seja, o livro e o filme se desenvolveram “em paralelo”: parte da narrativa e das ideias do filme influenciou o romance, e vice-versa. Essa abordagem colaborativa reflete uma criação “em rede”: não é só uma adaptação literal, mas uma obra dialogando entre literatura, cinema, internet, fotografia e música. 
Há uma inspiração real para alguns elementos: segundo entrevistas, Ismael Caneppele se inspirou em relatos de suicídios entre jovens na sua cidade natal - Lajeado (RS) - particularmente em uma ponte de ferro local onde ocorriam “quedas” que muitos relatavam como suicídios. Caneppele afirma que essas histórias são pessoais, mas o livro (e consequentemente o filme) não é estritamente biográfico. Há, portanto, um componente simbólico e realista: a “ponte da morte” funciona como metáfora, mas está ancorada em relatos verídicos da comunidade local. 
No elenco, além de Henrique Larré, temos a presença do próprio autor do livro - Ismael Caneppele - no papel de Julian e de Tuane Eggers que interpreta a misteriosa “Jingle Jangle”.
A fotografia é de Mauro Pinheiro Jr. e a edição de Caroline Leone.
O filme venceu o Festival do Rio de 2009, recebendo o prêmio de Melhor Filme. Também conquistou o prêmio da FIPRESCI (crítica internacional) no mesmo festival. Segundo o SESC, o filme ainda ganhou prêmios de Melhor Direção e Crítica em festivais como Havana, Valdivia, Gramado e Guadalajara. Ele também foi selecionado para a Berlinale (na mostra Geração) e para o Festival de Locarno. No Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, foi indicado para Melhor Roteiro Adaptado em 2011.
O que disse a crítica: Paulo Santos Lima do site Cinética) não gostou. Disse: "Essa situação (esteticamente diferenciada, meio vídeo texturizado, emulando bastante as inserções que Van Sant faz em 'Paranoid Park') é a roldana que faz girar a história do filme e que, saberemos no meio da história, é afinado a uma ideia de mistério a ser desvendado. E isso é um tremendo problema ao filme. Porque essa questão sobre o que são aqueles dois 'fantasmas' toma um corpo que acaba disputando o fundo do funil com aquela que inicialmente parecia ser a questão orbital do filme: o universo do jovem protagonista, sua vida e sua relação com aquele lugar".
O que eu achei: "Os Famosos e os Duendes da Morte" (2009) é um filme que aposta em atmosfera, sensações e subjetividade, construindo um retrato melancólico da adolescência numa cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul. Esmir Filho trabalha com uma linguagem visual fragmentada, contemplativa e carregada de simbolismos, especialmente a ponte, a relação com a internet e o fascínio do protagonista por uma figura misteriosa. Mas justamente essa aposta estética, que muitos espectadores consideram poética, pode tornar o filme pouco envolvente para outros. E foi o meu caso: apesar de reconhecer seus méritos, não consegui me conectar com a narrativa, e o filme acabou não prendendo minha atenção. A história do adolescente solitário que busca refúgio no mundo virtual, que se encanta por vídeos e imagens de uma garota distante e que vive sob a sombra de suicídios que assombram a cidade, tem uma força temática inegável. Há ali questões profundas - isolamento, pertencimento, o desejo de fuga e a descoberta da própria sensibilidade - mas a maneira como tudo isso é apresentado é lenta, rarefeita e deliberadamente opaca. Em vez de uma trama que se desenvolve, o filme prefere trabalhar sensações dispersas, num fluxo quase onírico. Para quem busca uma narrativa mais coesa ou emocionalmente direta, esse estilo pode soar excessivamente vago. A direção de Esmir Filho experimenta com a estética digital, misturando planos granulados, internet, fotografia e lembranças em um mosaico moderno. É interessante como proposta, mas a execução nem sempre sustenta o interesse dramático. Há momentos que parecem mais exercícios de linguagem do que partes de uma história que avança. O protagonista, interpretado por Henrique Larré, é construído como alguém introspectivo quase ao extremo e isso, embora coerente com o tema, dificulta o envolvimento afetivo. A própria presença da garota “Jingle Jangle” e os elementos de mistério em torno dela, que poderiam acender a narrativa, acabam se dissolvendo na abstração. Mesmo reconhecendo a beleza da fotografia, a sensibilidade do diretor e o desempenho sólido do elenco, senti que o filme parecia me pedir uma paciência emocional que ele não recompensava. Há obras contemplativas que nos capturam pela atmosfera; aqui, porém, a atmosfera se sobrepõe tanto à narrativa que se torna difícil permanecer investido. A sensação final é de um filme que se admira mais do que se oferece, que constrói um mundo particular, mas não necessariamente convida o espectador para dentro dele.