Sinopse: O filme se passa na África onde o caçador Sam Mercer (John Wayne) lidera um grupo que tem como objetivo capturar animais selvagens e vendê-los para os zoológicos do mundo inteiro. Para completar ele ainda precisa se preocupar com a fotógrafa italiana Dallas (Elsa Martinelli) que resolve acolher filhotes de elefante no acampamento.
Comentário: Howard Hawks (1896-1977) foi um diretor de cinema, produtor e roteirista americano da era clássica de Hollywood. Conhecido por sua versatilidade, Hawks explorou muitos gêneros, como comédias, dramas, thriller policial, ficção científica, noir, filmes de guerra e faroestes. "Hatari!" (1962) é o primeiro filme que vejo dele.
"Hatari!" coloca a África fora da civilização ocidental, não por qualquer acidente. Hawks parte para o filme – que originalmente trataria da amizade de Ernest Hemingway e do fotógrafo Robert Kapa, dois amigos do cineasta falecidos havia pouco tempo, nos quais ele identificava uma visão de mundo similar à sua – com a intenção de fazer uma elegia para seu mundo. É aquele tipo de filme no qual o diretor procura arranjar espaço para inserir dentro dos seus longos 160 minutos cada coisa que acha importante na vida.
É um filme leve e alegre, porque seu diretor, sempre estóico e pragmático, fazia questão que assim fosse. É um funeral para a velha Hollywood pois Hawks declarara, à época, acreditar que a forma clássica do cinema americano havia chegado num limite. Existe ali uma ideia muito interessante sobre o homem no mundo e os problemas do casal contemporâneo.
Wayne, que personifica Sean Mercer, reúne os homens na planície para a caçada. Dallas os reúne em casa em torno do piano. A mulher identifica-se com a natureza – o elefantinho que segue Dallas, ao som de Henry Mancini, como se ela fosse sua mãe.
A palavra hatari, significa “perigo” no dialeto africano Swahili.
O que eu achei: Em "Hatari!" (1962), Howard Hawks transforma uma premissa aparentemente simples - a captura de animais selvagens na África para zoológicos e reservas - em um filme de aventura cheio de charme, ritmo e humanidade. Longe de buscar tensão constante ou grandiloquência épica, Hawks aposta no convívio entre personagens, no humor casual e na sensação de um cotidiano vivido em meio ao perigo. John Wayne, em um papel menos rígido do que seus heróis habituais, lidera um grupo heterogêneo cuja dinâmica lembra uma família improvisada, marcada por camaradagem, pequenas rivalidades e afeto sincero. A aventura existe, mas é quase sempre atravessada por leveza e descontração, marcas claras do cinema do diretor. O que torna "Hatari!" especialmente cativante é a maneira como Hawks filma o trabalho em equipe e o prazer da ação bem executada. As longas sequências de captura de animais são empolgantes sem apelar para a violência gratuita, revelando um olhar quase lúdico sobre o risco e a destreza física. Ao mesmo tempo, o filme sabe desacelerar para investir em diálogos espirituosos, no romance gradual entre os personagens e em momentos de pura convivência, reforçados pela trilha inconfundível de Henry Mancini. O resultado é um filme que não pretende ser profundo ou solene, mas que conquista justamente por sua confiança no entretenimento clássico: um cinema adulto, relaxado e extremamente seguro de si, que envelheceu com uma elegância surpreendente.
