10.8.10

"Dogville" - Lars von Trier (Dinamarca/ Suécia/ França/ Noruega/ Holanda/ Finlândia/ Alemanha/ Itália/ Japão, 2003)

Sinopse: A trama acontece em um único local, uma cidade pequena dos Estados Unidos chamada Dogville, situada no fim de uma estrada que vai até as Montanhas Rochosas, na época da Grande Depressão. Grace (Nicole Kidman) chega foragida, com um grupo de mafiosos no seu encalço. Tom (Paul Bettany), decide acolhê-la e parte numa campanha para convencer o resto dos moradores de sua ideia. Como moeda de troca, ele sugere que ela os ajude. Ela aceita o trabalho e em pouco tempo a cidade e seus cidadãos melhoram visivelmente seu estilo de vida. Mas com o tempo, o sonho de liberdade de Grace acaba se tornando um pesadelo.
Comentário: Trata-se do filme 88 da lista dos 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: "Quando 'Dogville' estreou em 2003, dois aspectos ganharam destaque. O primeiro, formal, é introduzido desde a primeira cena. Em um cenário composto de pouquíssimos elementos, 'Dogville', uma cidade fictícia do Colorado, é mostrada de cima. Em vez de casas, portas, muros e árvores, divisões estilizadas e simbólicas indicam que se trata de uma cidade. Os limites entre as residências são traçados no chão e apontamentos feitos com giz apresentam outros elementos da narrativa. Assim, por exemplo, sabe-se que há um cão porque a palavra 'dog' está escrita e não porque o animal aparece. A fala de um narrador reitera o tempo todo que se trata de uma encenação. Sob essa estrutura formal, ecoam as propostas desmistificadoras do chamado teatro épico formulado pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht. E a certeza de que o cinema de Von Trier não seguia mais com rigidez o Dogma 95, movimento fundado por ele e Thomas Vinterberg que se pautava por mandamentos como proibir filmagens em cenários, uso de efeitos óticos e trilha sonora. O segundo foco foi a discussão do retrato alegórico da sociedade norte-americana (que o diretor já havia iniciado em seu trabalho anterior, 'Dançando no Escuro', de 2000). No filme, a chegada de Grace (Nicole Kidman) perturba o suposto equilíbrio da pequena cidade. As tensões causadas pela entrada da forasteira são exploradas de modo a evidenciar os hábitos, os valores e, em particular, a mentalidade norte-americana. Para o diretor dinamarquês, trata-se de uma sociedade moldada pela crueldade e a dominação do mais forte".
O que eu achei: Se formos procurar no filme referências visuais e influências de produção herdadas do movimento Dogma 95 vamos encontrar a ausência de trilha sonora, a câmera na mão e a falta de deslocamentos temporais ou geográficos. Entretanto aqui há a presença de gruas, iluminação artificial e cenografia, itens que eram proibidos no Manifesto. Além disso, há visíveis influências teatrais já que todo o filme é rodado como se fosse um teatro. Há muito do teatro de Bertolt Brecht, que costumava colocar avisos de "atenção, não se emocione, isso é ficção" em suas peças; do teatro caixa preta, realizado em um único cenário com as paredes todas pretas, e finalmente do teatro do absurdo, onde os atores improvisam e criam situações na qual interagem com objetos imaginários. Outra coisa que chama a atenção é o foco humanista no tratamento dos personagens, o que sugere influência de escolas de filosofia, especialmente as gregas. Por duas vezes citam-se nos diálogos os ensinamentos dos estoicistas, uma escola que pregava o abandono da emoção para vivermos sem dor. E muito da moral da história gira em torno da diferença entre o altruísmo - dar sem esperar nada - e o quid pro quo - que exige uma compensação equivalente para cada ação. O filme é dividido em 10 partes, sendo 1 prólogo e 9 capítulos, e faz parte da trilogia "E.U.A. - Terra de Oportunidades" tendo como sequência "Manderlay" (2005) e "Wasington", que não tem data prevista. Imperdível. Uma obra-prima.