
Comentário: Haifaa Al-Mansour (1974) é uma cineasta da Arábia Saudita. Ela é uma das mais conhecidas e controversas diretoras de cinema e a primeira mulher saudita a tornar-se cineasta. Filha do poeta Abdul Rahman Mansour, que introduziu a ela os filmes através de vídeos – já que não havia salas de cinema na Arábia Saudita entre 1983 e 2018 - ela estudou Literatura Comparada na Universidade Americana do Cairo e concluiu um Mestrado em Estudos de Cinema pela Universidade de Sydney, na Austrália. “O Sonho de Wadjda” (2012) é o primeiro filme que vejo dela.
Margarida Ataíde do site Centro Loyola de BH publicou: “Primeiro filme realizado por uma mulher na história do cinema da Arábia Saudita, ‘O Sonho de Wadjda’ é uma proposta atraente para um Ocidente com vasta criação cinematográfica no feminino. (...)
Inevitavelmente, a história de Wadjda tem algo de biográfico, não obstante a rara sorte da realizadora em ter um pai e uma mãe atentos aos sonhos das filhas, os primeiros a encorajá-las a estudar e a perseguir a sua vontade, sem ceder à pressão do meio cultural em que cresceram, o que lhes custaria algum isolamento.
Precisamente por ter experimentado a constrição humana da condição feminina no seu país, ditada por um rígido normativo cultural, mas também a possibilidade de dilatação, a personagem criada por Haifaa, igual a tantas meninas cheias de potencial que sabe existirem, pelo menos, na sua cidade natal, surge como porta de esperança, consistentemente aberta, para uma Arábia Saudita mais justa e igualitária. E para um mundo, desperto pelo cinema, mais atento a esta realidade.
Bom mote para o diálogo inter-religioso, ‘O Sonho de Wadjda’ ganha pelo sentido positivo que prevalece no tratamento de uma realidade certamente trágica para as mulheres que ousem desafiar o código moral sob o qual nasceram, pela integridade da protagonista e pela justa combinação de vigor e elegância na construção narrativa”.
O que disse a crítica 1: Jorge Mourinha do site Público PT avaliou com 2 estrelas, ou seja, fraco. Disse: “A história da menina inquieta que não se aquieta para garantir que vai conseguir a bicicleta com que sonha podia ser tirada de um dos modernos filmes iranianos sobre a infância (Kiarostami ou Ghobadi vêm à cabeça). Mas é contada pela saudita Haifaa al-Mansour de modo bem menos sisudo, com o charme irresistível da jovem heroína Waad Mohammed que lhe empresta muito charme. Mas isso não chega para fazer de ‘O Sonho de Wadjda’, fábula amável e simpática, o grande filme que o seu estatuto de obra dirigida por uma mulher num país fundamentalistamente patriarcal parece convocar. É fita honesta e modesta, mas (...) que não consegue sustentar o ‘peso’ contextual que lhe é colocado em cima”.
O que disse a crítica 2: Bernard Boo do site Way to Índia avaliou com 4,4 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Com a bicicleta simbolizando sonhos e desejos supremos, o filme parece talhado na mesma essência da obra-prima de Vittorio de Sica, ‘Ladrões de Bicicletas’, mas com uma essência esperançosa oposta. Esperançosa, isto é, para aqueles com uma mentalidade liberal; a visão conservadora na Arábia Saudita é que andar de bicicleta compromete a virtude de uma garota, o que torna o sonho de Wadjda de percorrer as ruas de Riad controverso. Mas para as jovens que se identificam com alguém como Wadjda, o filme será inestimável; como a bicicleta verde com franjas coloridas deslizando ao longo da muralha empoeirada da cidade, Wadjda pode ser um farol de inspiração”.
O que eu achei: Dirigido por Haifaa Al-Mansour, considerada a primeira mulher a assinar um longa-metragem na Arábia Saudita, "O Sonho de Wadjda" (2012) utiliza a aparente simplicidade de uma fábula infantil para desarmar o conservadorismo de uma sociedade patriarcal. Acompanhar Wadjda, uma menina determinada de 10 anos que deseja uma bicicleta verde para apostar corrida com seu amigo Abdullah, transborda sensibilidade, adotando uma abordagem realista para expor as micro agressões e a segregação cotidiana vivida pelas mulheres sauditas. Assistir à obra hoje confere a ela um caráter de documento histórico. Na época das filmagens, a própria Al-Mansour precisou dirigir várias cenas externas escondida dentro de uma van, comunicando-se com os atores via walkie-talkie para não desafiar a rígida separação de gêneros nas ruas. Além disso, o filme não pôde ser exibido comercialmente em sua terra natal no ano de lançamento, pois as salas de cinema eram proibidas no país, restrição essa que só caiu em 2018. Felizmente, parte da realidade de Wadjda mudou na última década. Impulsionada pelo plano estratégico Saudi Vision 2030, a Arábia Saudita promoveu reformas nos direitos femininos. Em 2013, o governo liberou oficialmente o uso de bicicletas por mulheres para fins de lazer. Em 2018, as mulheres conquistaram o direito de dirigir carros. A autonomia de locomoção expandiu-se com a permissão para que viajem de forma independente e obtenham passaportes sem o aval de um tutor. No mercado de trabalho, a participação feminina saltou de 17% para mais de 34%, com mulheres ocupando cargos públicos e liderando empresas. Embora o sistema de tutela masculina ainda resista em questões de casamento e divórcio, o avanço é inegável. O longa triunfa ao provar que o desejo de liberdade não nasce de influências externas, mas sim do anseio humano intrínseco de avançar. Muito bom.
Margarida Ataíde do site Centro Loyola de BH publicou: “Primeiro filme realizado por uma mulher na história do cinema da Arábia Saudita, ‘O Sonho de Wadjda’ é uma proposta atraente para um Ocidente com vasta criação cinematográfica no feminino. (...)
Inevitavelmente, a história de Wadjda tem algo de biográfico, não obstante a rara sorte da realizadora em ter um pai e uma mãe atentos aos sonhos das filhas, os primeiros a encorajá-las a estudar e a perseguir a sua vontade, sem ceder à pressão do meio cultural em que cresceram, o que lhes custaria algum isolamento.
Precisamente por ter experimentado a constrição humana da condição feminina no seu país, ditada por um rígido normativo cultural, mas também a possibilidade de dilatação, a personagem criada por Haifaa, igual a tantas meninas cheias de potencial que sabe existirem, pelo menos, na sua cidade natal, surge como porta de esperança, consistentemente aberta, para uma Arábia Saudita mais justa e igualitária. E para um mundo, desperto pelo cinema, mais atento a esta realidade.
Bom mote para o diálogo inter-religioso, ‘O Sonho de Wadjda’ ganha pelo sentido positivo que prevalece no tratamento de uma realidade certamente trágica para as mulheres que ousem desafiar o código moral sob o qual nasceram, pela integridade da protagonista e pela justa combinação de vigor e elegância na construção narrativa”.
O que disse a crítica 1: Jorge Mourinha do site Público PT avaliou com 2 estrelas, ou seja, fraco. Disse: “A história da menina inquieta que não se aquieta para garantir que vai conseguir a bicicleta com que sonha podia ser tirada de um dos modernos filmes iranianos sobre a infância (Kiarostami ou Ghobadi vêm à cabeça). Mas é contada pela saudita Haifaa al-Mansour de modo bem menos sisudo, com o charme irresistível da jovem heroína Waad Mohammed que lhe empresta muito charme. Mas isso não chega para fazer de ‘O Sonho de Wadjda’, fábula amável e simpática, o grande filme que o seu estatuto de obra dirigida por uma mulher num país fundamentalistamente patriarcal parece convocar. É fita honesta e modesta, mas (...) que não consegue sustentar o ‘peso’ contextual que lhe é colocado em cima”.
O que disse a crítica 2: Bernard Boo do site Way to Índia avaliou com 4,4 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Com a bicicleta simbolizando sonhos e desejos supremos, o filme parece talhado na mesma essência da obra-prima de Vittorio de Sica, ‘Ladrões de Bicicletas’, mas com uma essência esperançosa oposta. Esperançosa, isto é, para aqueles com uma mentalidade liberal; a visão conservadora na Arábia Saudita é que andar de bicicleta compromete a virtude de uma garota, o que torna o sonho de Wadjda de percorrer as ruas de Riad controverso. Mas para as jovens que se identificam com alguém como Wadjda, o filme será inestimável; como a bicicleta verde com franjas coloridas deslizando ao longo da muralha empoeirada da cidade, Wadjda pode ser um farol de inspiração”.
O que eu achei: Dirigido por Haifaa Al-Mansour, considerada a primeira mulher a assinar um longa-metragem na Arábia Saudita, "O Sonho de Wadjda" (2012) utiliza a aparente simplicidade de uma fábula infantil para desarmar o conservadorismo de uma sociedade patriarcal. Acompanhar Wadjda, uma menina determinada de 10 anos que deseja uma bicicleta verde para apostar corrida com seu amigo Abdullah, transborda sensibilidade, adotando uma abordagem realista para expor as micro agressões e a segregação cotidiana vivida pelas mulheres sauditas. Assistir à obra hoje confere a ela um caráter de documento histórico. Na época das filmagens, a própria Al-Mansour precisou dirigir várias cenas externas escondida dentro de uma van, comunicando-se com os atores via walkie-talkie para não desafiar a rígida separação de gêneros nas ruas. Além disso, o filme não pôde ser exibido comercialmente em sua terra natal no ano de lançamento, pois as salas de cinema eram proibidas no país, restrição essa que só caiu em 2018. Felizmente, parte da realidade de Wadjda mudou na última década. Impulsionada pelo plano estratégico Saudi Vision 2030, a Arábia Saudita promoveu reformas nos direitos femininos. Em 2013, o governo liberou oficialmente o uso de bicicletas por mulheres para fins de lazer. Em 2018, as mulheres conquistaram o direito de dirigir carros. A autonomia de locomoção expandiu-se com a permissão para que viajem de forma independente e obtenham passaportes sem o aval de um tutor. No mercado de trabalho, a participação feminina saltou de 17% para mais de 34%, com mulheres ocupando cargos públicos e liderando empresas. Embora o sistema de tutela masculina ainda resista em questões de casamento e divórcio, o avanço é inegável. O longa triunfa ao provar que o desejo de liberdade não nasce de influências externas, mas sim do anseio humano intrínseco de avançar. Muito bom.