
Comentário: Michelangelo Antonioni (1912-2007) foi um diretor de cinema italiano. Assisti dele a obra-prima "Blow Up - Depois Daquele Beijo" (1966), o excelente "Zabriskie Point" (1970) e o bom “A Dama sem Camélias” (1953), além de “A Aventura” (1960) e “Deserto Vermelho” (1964). Desta vez vou conferir “Profissão Repórter” (1975).
O site CPC-UMES publicou: “O filme conta a história de David Locke (Jack Nicholson), um jornalista em crise, tentando finalizar um documentário sobre a guerra civil no Chade, mas faz pouco progresso na história. Após ser abandonado pelo seu guia, ele entra em crise, se vendo cansado do trabalho, do casamento e da vida. Locke consegue voltar ao hotel e procura por David Robertson (Charles Mulvehill), que estranhamente é muito parecido fisicamente com ele. Robertson conta um pouco de sua vida, fascinando Locke ao se mostrar como um viajante despreocupado com a vida. Repentinamente Robertson morre no hotel. Buscando livrar-se dos seus problemas e mudar de vida, Locke resolve assumir a identidade do falecido na espera de levar uma vida mais interessante.
Porém, ele logo descobre que o homem era traficante de armas, levando Locke a situações perigosas.
Ajudado por uma bela mulher (Maria Schneider), Locke tenta evitar que a polícia e os criminosos o procurem.
Antonioni considerava ‘Profissão: Repórter’ o seu filme ‘estilisticamente mais maduro’ e também ‘um filme político’, pois foca ‘a integração dramática do indivíduo na sociedade atual’.
‘Profissão: Repórter’ (1975) foi o último filme do contrato de três filmes de Antonioni com o produtor Carlo Ponti, depois de ‘Blow-Up: Depois Daquele Beijo’ (1966) e ‘Zabriskie Point’ (1970).
Durante o lançamento do filme, ele concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes”.
O que disse a crítica 1: Marcos Strecker da Folha SP avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “O final do filme tem uma das passagens mais famosas da história do cinema, um plano-sequência de sete minutos com uma câmera móvel que acompanha e depois abandona o personagem num ambiente de perplexidade e desolação. Tudo é mínimo, o tom emocional é de calculada indiferença. A frieza de olhar leva até a cenas registrando a morte de um prisioneiro africano, executado diante de um pelotão de fuzilamento. É uma impressionante imagem verídica, que dura segundos intermináveis. Antonioni considera este, com razão, seu filme mais político. Não à toa Hitchcock soltava palavrões quando via a riqueza de temas e a economia formal dos clássicos de Antonioni. Esta foi sua última grande obra antes do acidente vascular que o deixaria mudo e parcialmente sem movimento”.
O que disse a crítica 2: Fernando Campos do Plano Crítico avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Um dos grandes acertos de Antonioni está na escolha dos cenários, optando por cidades com arquitetura cativante ou paisagens vastas, como a Barcelona arquitetada por Gaudi, a imensidão do deserto da Argélia ou os belos campos do interior da Espanha. Para valorizar os cenários que possui, o diretor prioriza planos abertos (...) visando justamente construir imagens repletas de significados. Quando vemos David passeando entre os prédios peculiares e cheios de curvaturas em Barcelona, fica evidente o momento de transformação e redescobrimento do personagem. Antonioni ainda faz algumas transições em plano sequência, ou seja, sem cortes, que transmitem fluidez e a sensação da rápida passagem do tempo da vida”.
O que eu achei: “Profissão Repórter” (1975) não é um filme sobre a rotina ou a técnica do jornalismo, mas sim um estudo existencial sobre identidade, alienação e a busca por uma fuga de si mesmo. A obra acompanha o jornalista David Locke (Jack Nicholson), um correspondente de guerra frustrado e em crise com a profissão, o casamento e a vida de uma maneira geral. Durante uma viagem ao deserto para fazer mais uma de suas matérias, ao deparar-se com o cadáver de um homem que se hospedava no mesmo hotel que ele, Locke toma uma decisão radical: ele falsifica a identidade do homem morto e assume a sua vida. O que ele não sabia era que esse cara trabalhava como traficante de armas. Ao invés de recuar, ele decide continuar com a farsa, assumindo os compromissos do traficante morto. Se num primeiro momento David Locke queria fugir de sua própria vida e existência, agora sua rotina se transforma numa fuga de agentes do governo, de sua própria esposa e dos colegas de trabalho. Está todo mundo atrás dele seja para prendê-lo, seja para tentar entender o que aconteceu. O título em inglês - “The Passenger” (O Passageiro) - define melhor a condição existencial de Locke, esse homem que viaja no banco do carona da vida de outro homem e não comanda mais o próprio destino. Como um passageiro, Locke assiste aos eventos que acontecem ao seu redor sem agir muito. Ele aceita o perigo e os rumos de sua escolha de forma totalmente passiva, com o foco do filme sendo a jornada de isolamento do personagem e não sua profissão inicial, abandonada na troca de identidades. É um filme onde se pode observar muito do estilo Antonioni de filmar: há a crise existencial do personagem e o tédio, há o deserto como cenário psicológico do vazio, do isolamento e da solidão que Locke sente por dentro, há o movimento de câmera que segue o protagonista, mas por vezes o ignora para focar em uma parede ou em um detalhe da arquitetura, mostrando que o indivíduo não é o centro do universo e há, por fim, a presença de personagens sem nome que surgem do nada, como é o caso da personagem da Maria Schneider que surge sem grandes explicações sobre seu passado, reforçando a ideia de que a identidade humana é fluida, misteriosa e frágil. Atenção ao lendário plano sequência final, uma cena de aproximadamente sete minutos na qual a câmera realiza um movimento contínuo e praticamente impossível para a época, começando dentro de um quarto de hotel, passando por uma janela com grades de ferro muito estreitas, flutuando pelo pátio do lado de fora e depois girando 180 graus para nos mostrar o quarto visto de fora. Para realizar esse feito genial, o diretor de fotografia Luciano Tovoli e a equipe técnica usaram uma câmera canadense experimental muito leve (de 16mm) equipada com um sistema inovador de giroscópios (mecanismos que mantêm o equilíbrio e evitam tremores) que Antonioni havia descoberto. Ele mandou modificar completamente a física dessa câmera para que ela pudesse usar um filme de 35mm, que era o padrão do cinema profissional da época.
O site CPC-UMES publicou: “O filme conta a história de David Locke (Jack Nicholson), um jornalista em crise, tentando finalizar um documentário sobre a guerra civil no Chade, mas faz pouco progresso na história. Após ser abandonado pelo seu guia, ele entra em crise, se vendo cansado do trabalho, do casamento e da vida. Locke consegue voltar ao hotel e procura por David Robertson (Charles Mulvehill), que estranhamente é muito parecido fisicamente com ele. Robertson conta um pouco de sua vida, fascinando Locke ao se mostrar como um viajante despreocupado com a vida. Repentinamente Robertson morre no hotel. Buscando livrar-se dos seus problemas e mudar de vida, Locke resolve assumir a identidade do falecido na espera de levar uma vida mais interessante.
Porém, ele logo descobre que o homem era traficante de armas, levando Locke a situações perigosas.
Ajudado por uma bela mulher (Maria Schneider), Locke tenta evitar que a polícia e os criminosos o procurem.
Antonioni considerava ‘Profissão: Repórter’ o seu filme ‘estilisticamente mais maduro’ e também ‘um filme político’, pois foca ‘a integração dramática do indivíduo na sociedade atual’.
‘Profissão: Repórter’ (1975) foi o último filme do contrato de três filmes de Antonioni com o produtor Carlo Ponti, depois de ‘Blow-Up: Depois Daquele Beijo’ (1966) e ‘Zabriskie Point’ (1970).
Durante o lançamento do filme, ele concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes”.
O que disse a crítica 1: Marcos Strecker da Folha SP avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “O final do filme tem uma das passagens mais famosas da história do cinema, um plano-sequência de sete minutos com uma câmera móvel que acompanha e depois abandona o personagem num ambiente de perplexidade e desolação. Tudo é mínimo, o tom emocional é de calculada indiferença. A frieza de olhar leva até a cenas registrando a morte de um prisioneiro africano, executado diante de um pelotão de fuzilamento. É uma impressionante imagem verídica, que dura segundos intermináveis. Antonioni considera este, com razão, seu filme mais político. Não à toa Hitchcock soltava palavrões quando via a riqueza de temas e a economia formal dos clássicos de Antonioni. Esta foi sua última grande obra antes do acidente vascular que o deixaria mudo e parcialmente sem movimento”.
O que disse a crítica 2: Fernando Campos do Plano Crítico avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Um dos grandes acertos de Antonioni está na escolha dos cenários, optando por cidades com arquitetura cativante ou paisagens vastas, como a Barcelona arquitetada por Gaudi, a imensidão do deserto da Argélia ou os belos campos do interior da Espanha. Para valorizar os cenários que possui, o diretor prioriza planos abertos (...) visando justamente construir imagens repletas de significados. Quando vemos David passeando entre os prédios peculiares e cheios de curvaturas em Barcelona, fica evidente o momento de transformação e redescobrimento do personagem. Antonioni ainda faz algumas transições em plano sequência, ou seja, sem cortes, que transmitem fluidez e a sensação da rápida passagem do tempo da vida”.
O que eu achei: “Profissão Repórter” (1975) não é um filme sobre a rotina ou a técnica do jornalismo, mas sim um estudo existencial sobre identidade, alienação e a busca por uma fuga de si mesmo. A obra acompanha o jornalista David Locke (Jack Nicholson), um correspondente de guerra frustrado e em crise com a profissão, o casamento e a vida de uma maneira geral. Durante uma viagem ao deserto para fazer mais uma de suas matérias, ao deparar-se com o cadáver de um homem que se hospedava no mesmo hotel que ele, Locke toma uma decisão radical: ele falsifica a identidade do homem morto e assume a sua vida. O que ele não sabia era que esse cara trabalhava como traficante de armas. Ao invés de recuar, ele decide continuar com a farsa, assumindo os compromissos do traficante morto. Se num primeiro momento David Locke queria fugir de sua própria vida e existência, agora sua rotina se transforma numa fuga de agentes do governo, de sua própria esposa e dos colegas de trabalho. Está todo mundo atrás dele seja para prendê-lo, seja para tentar entender o que aconteceu. O título em inglês - “The Passenger” (O Passageiro) - define melhor a condição existencial de Locke, esse homem que viaja no banco do carona da vida de outro homem e não comanda mais o próprio destino. Como um passageiro, Locke assiste aos eventos que acontecem ao seu redor sem agir muito. Ele aceita o perigo e os rumos de sua escolha de forma totalmente passiva, com o foco do filme sendo a jornada de isolamento do personagem e não sua profissão inicial, abandonada na troca de identidades. É um filme onde se pode observar muito do estilo Antonioni de filmar: há a crise existencial do personagem e o tédio, há o deserto como cenário psicológico do vazio, do isolamento e da solidão que Locke sente por dentro, há o movimento de câmera que segue o protagonista, mas por vezes o ignora para focar em uma parede ou em um detalhe da arquitetura, mostrando que o indivíduo não é o centro do universo e há, por fim, a presença de personagens sem nome que surgem do nada, como é o caso da personagem da Maria Schneider que surge sem grandes explicações sobre seu passado, reforçando a ideia de que a identidade humana é fluida, misteriosa e frágil. Atenção ao lendário plano sequência final, uma cena de aproximadamente sete minutos na qual a câmera realiza um movimento contínuo e praticamente impossível para a época, começando dentro de um quarto de hotel, passando por uma janela com grades de ferro muito estreitas, flutuando pelo pátio do lado de fora e depois girando 180 graus para nos mostrar o quarto visto de fora. Para realizar esse feito genial, o diretor de fotografia Luciano Tovoli e a equipe técnica usaram uma câmera canadense experimental muito leve (de 16mm) equipada com um sistema inovador de giroscópios (mecanismos que mantêm o equilíbrio e evitam tremores) que Antonioni havia descoberto. Ele mandou modificar completamente a física dessa câmera para que ela pudesse usar um filme de 35mm, que era o padrão do cinema profissional da época.