8.6.26

“Profissão Repórter” - Michelangelo Antonioni (Itália/França, 1975)

Sinopse:
David Locke (Jack Nicholson) é um jornalista em crise tentando finalizar um documentário sobre a guerra civil no Chade. Para escapar da situação em que se encontra, ele acaba assumindo a identidade de um homem que morreu. Mas a nova vida acaba tomando um rumo inesperado quando Locke descobre que esse homem que ele finge ser era um traficante de armas envolvido em negócios com os combatentes rebeldes do Chade.
Comentário: Michelangelo Antonioni (1912-2007) foi um diretor de cinema italiano. Assisti dele a obra-prima "Blow Up - Depois Daquele Beijo" (1966), o excelente "Zabriskie Point" (1970) e o bom “A Dama sem Camélias” (1953), além de “A Aventura” (1960) e “Deserto Vermelho” (1964). Desta vez vou conferir “Profissão Repórter” (1975).
O site CPC-UMES publicou: “O filme conta a história de David Locke (Jack Nicholson), um jornalista em crise, tentando finalizar um documentário sobre a guerra civil no Chade, mas faz pouco progresso na história. Após ser abandonado pelo seu guia, ele entra em crise, se vendo cansado do trabalho, do casamento e da vida. Locke consegue voltar ao hotel e procura por David Robertson (Charles Mulvehill), que estranhamente é muito parecido fisicamente com ele. Robertson conta um pouco de sua vida, fascinando Locke ao se mostrar como um viajante despreocupado com a vida. Repentinamente Robertson morre no hotel. Buscando livrar-se dos seus problemas e mudar de vida, Locke resolve assumir a identidade do falecido na espera de levar uma vida mais interessante.
Porém, ele logo descobre que o homem era traficante de armas, levando Locke a situações perigosas.
Ajudado por uma bela mulher (Maria Schneider), Locke tenta evitar que a polícia e os criminosos o procurem.
Antonioni considerava ‘Profissão: Repórter’ o seu filme ‘estilisticamente mais maduro’ e também ‘um filme político’, pois foca ‘a integração dramática do indivíduo na sociedade atual’.
‘Profissão: Repórter’ (1975) foi o último filme do contrato de três filmes de Antonioni com o produtor Carlo Ponti, depois de ‘Blow-Up: Depois Daquele Beijo’ (1966) e ‘Zabriskie Point’ (1970).
Durante o lançamento do filme, ele concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes”.
O que disse a crítica 1: Marcos Strecker da Folha SP avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “O final do filme tem uma das passagens mais famosas da história do cinema, um plano-sequência de sete minutos com uma câmera móvel que acompanha e depois abandona o personagem num ambiente de perplexidade e desolação. Tudo é mínimo, o tom emocional é de calculada indiferença. A frieza de olhar leva até a cenas registrando a morte de um prisioneiro africano, executado diante de um pelotão de fuzilamento. É uma impressionante imagem verídica, que dura segundos intermináveis. Antonioni considera este, com razão, seu filme mais político. Não à toa Hitchcock soltava palavrões quando via a riqueza de temas e a economia formal dos clássicos de Antonioni. Esta foi sua última grande obra antes do acidente vascular que o deixaria mudo e parcialmente sem movimento”.
O que disse a crítica 2: Fernando Campos do Plano Crítico avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: “Um dos grandes acertos de Antonioni está na escolha dos cenários, optando por cidades com arquitetura cativante ou paisagens vastas, como a Barcelona arquitetada por Gaudi, a imensidão do deserto da Argélia ou os belos campos do interior da Espanha. Para valorizar os cenários que possui, o diretor prioriza planos abertos (...) visando justamente construir imagens repletas de significados. Quando vemos David passeando entre os prédios peculiares e cheios de curvaturas em Barcelona, fica evidente o momento de transformação e redescobrimento do personagem. Antonioni ainda faz algumas transições em plano sequência, ou seja, sem cortes, que transmitem fluidez e a sensação da rápida passagem do tempo da vida”.
O que eu achei: “Profissão Repórter” (1975) não é um filme sobre a rotina ou a técnica do jornalismo, mas sim um estudo existencial sobre identidade, alienação e a busca por uma fuga de si mesmo. A obra acompanha o jornalista David Locke (Jack Nicholson), um correspondente de guerra frustrado e em crise com a profissão, o casamento e a vida de uma maneira geral. Durante uma viagem ao deserto para fazer mais uma de suas matérias, ao deparar-se com o cadáver de um homem que se hospedava no mesmo hotel que ele, Locke toma uma decisão radical: ele falsifica a identidade do homem morto e assume a sua vida. O que ele não sabia era que esse cara trabalhava como traficante de armas. Ao invés de recuar, ele decide continuar com a farsa, assumindo os compromissos do traficante morto. Se num primeiro momento David Locke queria fugir de sua própria vida e existência, agora sua rotina se transforma numa fuga de agentes do governo, de sua própria esposa e dos colegas de trabalho. Está todo mundo atrás dele seja para prendê-lo, seja para tentar entender o que aconteceu. O título em inglês - “The Passenger” (O Passageiro) - define melhor a condição existencial de Locke, esse homem que viaja no banco do carona da vida de outro homem e não comanda mais o próprio destino. Como um passageiro, Locke assiste aos eventos que acontecem ao seu redor sem agir muito. Ele aceita o perigo e os rumos de sua escolha de forma totalmente passiva, com o foco do filme sendo a jornada de isolamento do personagem e não sua profissão inicial, abandonada na troca de identidades. É um filme onde se pode observar muito do estilo Antonioni de filmar: há a crise existencial do personagem e o tédio, há o deserto como cenário psicológico do vazio, do isolamento e da solidão que Locke sente por dentro, há o movimento de câmera que segue o protagonista, mas por vezes o ignora para focar em uma parede ou em um detalhe da arquitetura, mostrando que o indivíduo não é o centro do universo e há, por fim, a presença de personagens sem nome que surgem do nada, como é o caso da personagem da Maria Schneider que surge sem grandes explicações sobre seu passado, reforçando a ideia de que a identidade humana é fluida, misteriosa e frágil. Atenção ao lendário plano sequência final, uma cena de aproximadamente sete minutos na qual a câmera realiza um movimento contínuo e praticamente impossível para a época, começando dentro de um quarto de hotel, passando por uma janela com grades de ferro muito estreitas, flutuando pelo pátio do lado de fora e depois girando 180 graus para nos mostrar o quarto visto de fora. Para realizar esse feito genial, o diretor de fotografia Luciano Tovoli e a equipe técnica usaram uma câmera canadense experimental muito leve (de 16mm) equipada com um sistema inovador de giroscópios (mecanismos que mantêm o equilíbrio e evitam tremores) que Antonioni havia descoberto. Ele mandou modificar completamente a física dessa câmera para que ela pudesse usar um filme de 35mm, que era o padrão do cinema profissional da época.