7.6.26

"Levados Pelas Marés" - Jia Zhangke (China/França/Japão, 2024)

Sinopse:
China, início dos anos 2000. Qiaoqiao (Tao Zhao) e Guo Bin (Zhubin Li) têm um caso de amor apaixonado, mas frágil. Quando Bin desaparece para tentar a sorte noutra província, Qiaoqiao decide partir em busca dele.
Comentário: Jia Zhangke (1970) é um cineasta chinês pouco conhecido pelo grande público. Responsável pelos premiados “Em Busca da Vida” (2006) e “Um Toque de Pecado” (2013), seus filmes, na maioria das vezes, ficam restritos ao circuito de festivais, sendo que vários deles não foram exibidos comercialmente no Brasil. Em 2014 o cineasta Walter Salles dirigiu um documentário chamado “Jia Zhangke, um Homem de Fenyang” que conta um pouco de sua trajetória. "Levados Pelas Marés" (2024) é o primeiro filme que vejo dele.
O site do IMS publicou: “A duradoura e frágil história de amor de Qiaoqiao e Bin, ambientada na China do início dos anos 2000 até os dias atuais. Ligados um ao outro, eles aproveitaram tudo o que a cidade de Datong tinha a oferecer. Até que um dia Bin decide tentar a sorte em um lugar maior. Sem qualquer aviso, o rapaz vai embora. Depois de um tempo, Qiaoqiao parte em uma jornada para encontrá-lo.
Jia Zhangke percorre todos os seus trabalhos anteriores e oferece um olhar épico sobre o destino romântico de sua eterna heroína, Qiaoqiao. Abrangendo 21 anos de um país em profunda transformação, o filme oferece uma nova perspectiva para enxergarmos a China contemporânea, bem como as experiências individuais, sob turbulentas mudanças emocionais e sociais.
‘Este filme abrange os primeiros 21 anos do novo século. Colaborei novamente com o compositor taiwanês Lim Giong, que já havia trabalhado comigo em ‘O Mundo’ (2004), ‘Em Busca da Vida’ (2006) e ‘Um Toque de Pecado’ (2013). Sua música eletrônica traz um tom poético e melancólico à jornada do filme. Além disso, escolhi 19 músicas para o filme, incluindo alguns rocks chineses de diferentes períodos’, comenta o diretor em entrevista a Tony Rayns divulgada com o material de imprensa do filme.
‘O filme cobre um bom número de anos, e você pode encará-lo como uma espécie de revisão da China contemporânea. Só quando olhamos para trás percebemos o quanto foi esquecido nos últimos 20 anos − e os sons, em especial, foram os que mais se apagaram. Se quisermos imaginar a Dinastia Tang, de mais de mil anos atrás, podemos observar seus edifícios e pinturas remanescentes, as montanhas, os rios, os lagos e os mares que permanecem inalterados, e visualizar como viviam os antigos naquela época. Mas é difícil imaginar o som da Dinastia Tang’.
‘A música, no entanto, agora pode ser transmitida. Canções de diferentes épocas podem nos transportar de volta ao seu tempo, como um código ou chave para destrancar o passado. Minhas próprias memórias são frequentemente ativadas pela música. Pegue, por exemplo, a canção pop ‘Genghis Khan’, que me leva de volta aos anos 1980, quando a China iniciou suas reformas econômicas; muitos artistas chineses fizeram versões dessa música alemã naquela época. Na terceira parte do filme, uma celebridade da internet, agora com mais de 70 anos, dança ao som dessa música, e conseguimos imaginar sua juventude como um cantor e dançarino apaixonado, forte e expressivo’.
‘A música das bandas de rock chinesas, em especial, expressa as emoções e os sentimentos daqueles que a ouviam. Essas bandas romperam tabus sociais com sua música, dando voz aos sentimentos e às aspirações de uma maioria silenciosa. No filme, às vezes elas soam como a voz interior de Qiaoqiao’.
‘Levados pelas Marés’ teve sua estreia na competição oficial do Festival de Cannes em 2024”.
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “Uma obra intrigante, ainda que desigual. Revisitando a si próprio e criando novas cenas, Jia Zhangke busca traçar, numa única obra, a evolução de gerações, entre a China regida pelo princípio da coletividade, e aquela dominada pelo princípio do prazer. Demonstra certa nostalgia pelos tempos antigos, ainda que não o idealize. Sublinha, em especial, a maneira como abandonamos experiências concretas, fraternas e solidárias em prol de uma existência virtual. Os trechos esparsos de ficções, no interior deste panorama, não são dos mais convincentes, mesmo assim, refletem o olhar externo e crítico do diretor. O cineasta talvez mire em tempos e espaços em excesso, porém, ainda sabe muito bem como interpretá-los”.
O que disse a crítica 2: Mattheus Goto da Veja SP também avaliou com 4 estrelas. Escreveu: “É, de fato, um trabalho magnífico do cineasta, que tem um gostinho especial por ter referências a longas anteriores e soar como o projeto de uma vida. Ele juntou ficção e imagens de arquivo de duas décadas, incluindo algumas usadas em seus outros trabalhos, e criou uma nova narrativa. (...) A aventura épica [da protagonista] se entrelaça com os caminhos do próprio país, com as reflexões do cineasta sobre memória, tempo e modernidade. Há um quê esotérico, mas que revela um belo e profundo olhar sobre a vida chinesa contemporânea”.
O que eu achei: Recheado de música chinesa da atualidade, “Levados pelas Marés” (2024) é quase um documentário disfarçado de romance, sendo mais uma obra que mostra a acelerada transformação pela qual passou a China nas últimas décadas do que propriamente uma história de amor. O filme começa no ano 2000 e segue até a pandemia de covid em 2022. A modelo e dançarina Qiaoqiao, enamorada de Guo Bin, vê seu amor desaparecer quando este, sem mais nem menos, resolve partir para outra província em busca de uma vida melhor sem se despedir dela. Eles residem em Datong, no norte da província de Shanxi, que é onde o filme basicamente começa. Com o desaparecimento de Guo Bin, Qiaoqiao resolve viajar para tentar encontrá-lo, percorrendo lugares como o Rio Yangtzé e Fengjie - região das Três Gargantas, área que foi drasticamente alterada pela construção de uma enorme barragem, com milhares de cidades submersas e milhões de pessoas deslocadas – e Chongqing - uma grande metrópole no sudoeste da China. O título em português "Levados Pelas Marés" usa uma metáfora para explicar a jornada dos personagens, com a palavra ‘marés’ simbolizando algo que te arrasta como as rápidas transformações econômicas e sociais da China moderna. O título original em chinês é “Feng Liu Yi Dai” que significa "Uma Geração Romântica" ou "Geração Flutuante", reforçando a ideia de pessoas levadas pelo tempo. No longa o diretor Jia Zhangke utilizou sobras de filmagens que ele já tinha como materiais não utilizados e erros de gravação de seus filmes anteriores. É fácil observar como as imagens mudam de qualidade visual à medida que o tempo passa. Elas transitam de fitas de vídeo de baixa resolução (comuns nos anos 2000) até o formato de alta definição moderno. Os atores principais, Tao Zhao e Zhubin Li, trabalham para o diretor interpretando os mesmos personagens há 20 anos. Em vez de usar maquiagem ou efeitos digitais de rejuvenescimento para mostrar o passado, vemos o envelhecimento real dos atores na tela. Há também gravações recentes - incluindo o período da pandemia de Covid-19 - para dar um desfecho atual à história de amor do casal e amarrar todo o material antigo. O longa foi fortemente aclamado pela crítica. Jia Zhangke é um cineasta chinês pouco conhecido pelo grande público. Seus filmes ficam mais restritos ao circuito de festivais, sendo que vários deles não foram exibidos comercialmente no Brasil. Li que o Walter Salles, fã do cineasta, dirigiu um documentário chamado “Jia Zhangke, um Homem de Fenyang” (2014) que conta um pouco de sua trajetória. Sua importância se deve ao fato dele ter inaugurado a chamada Sexta Geração do Cinema Chinês, focando no realismo urbano e underground. Seus primeiros filmes foram feitos de forma independente, sem autorização do governo, usando atores amadores e capturando a China real, crua e sem maquiagem. Ele é famoso pelo seu estilo marcado por planos longos estáticos (planos-sequência) que observam os personagens em seus ambientes reais enquanto o tempo passa, para que o espectador sinta o tédio, a melancolia. Ele também é hábil em mostrar os cenários, transformando espaços geográficos em estados psicológicos. Outra coisa é que nenhum outro cineasta no mundo misturou ficção e documentário de forma tão persistente. Ele filma a destruição física real de cidades, transformando seus filmes de ficção em arquivos históricos inestimáveis de uma China que não existe mais. E tudo isso sem ser panfletário. Por ser diferente, o filme vai parecer estranho para alguns, mas vale ver para conhecer o trabalho desse cineasta inovador e único.