5.6.26

"A Batalha da Rua Maria Antônia" - Vera Egito (Brasil, 2023)

Sinopse:
Outubro de 1968. Durante a ditadura brasileira, estudantes e professores do Movimento Estudantil da Universidade de São Paulo (USP) enfrentam ataques do Comando de Caça Comunista vindos do outro lado da rua, da Universidade Mackenzie, num evento que ficou conhecido como "A Batalha dos Estudantes".
Comentário: Vera Egito (1982) é roteirista e diretora. Graduou-se na Escola de Cinema da Universidade de São Paulo e estudou roteiro em Cuba. Realizou os curtas-metragens “Espalhadas pelo Ar” (2007) e “Elo” (2008), ambos exibidos na Semana da Crítica do Festival de Cannes. Também dirigiu o longa-metragem “Amores Urbanos” (2016). “A Batalha da Rua Maria Antônia” é seu segundo longa e o primeiro filme que vejo dela.
O longa-metragem retrata um conflito ocorrido nos dias 2 e 3 de outubro de 1968 entre estudantes da Universidade de São Paulo (USP), que lutavam pela democracia, e estudantes do Mackenzie com pessoas ligadas ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que eram a favor da ditadura.
Fabio Previdelli do site Aventuras na História nos conta que "O Golpe de 1964 polarizou o país. Apesar de muitas pessoas apoiarem a derrubada do presidente João Goulart, elas esperavam que os generais não demorassem muito para reestabelecer a democracia. Não foi o que aconteceu.
Assim, cada vez mais, ganhavam espaços manifestações populares contrárias ao regime, que passava a se tornar mais autoritário e violento. Quatro anos após o golpe, o movimento estudantil se tornou ainda mais ferrenho apoiador do reestabelecimento da democracia.
Em março daquele ano (1964), um ato no centro do Rio de Janeiro culminou com a morte do secundarista Edson Luís, de apenas 18 anos. Sua perda serviu como estopim para grandes manifestações populares, como a Passeata dos Cem Mil. Mas a insatisfação contra o governo passou a ser repudiada. Em 2 de outubro de 1968, por exemplo, ocorreu a chamada Batalha da Rua Maria Antônia, quando se enfrentaram estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP) e da Universidade Presbiteriana Mackenzie. As instituições ficavam na Rua Maria Antônia, na região central de São Paulo.
'O movimento estudantil era e é o ambiente onde muitos de nossos quadros políticos são forjados', explica Vera Egito, diretora do filme ‘A Batalha da Rua Maria Antônia’, em entrevista ao site Aventuras na História. 'Acho que durante a ditadura e até hoje os estudantes representam a fé de que a estrutura social pode mudar, pode evoluir. Sinto que o tempo traz um cinismo a todos nós. O movimento estudantil com sua juventude acredita e luta por mudança como nenhum outro setor social faz'.
A Batalha da Maria Antônia começou quando os alunos da USP e secundaristas fizeram um ‘pedágio’ para arrecadar dinheiro e organizar o Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes). O ato irritou os estudantes do Mackenzie - muitos eram membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) -, que fecharam a rua para impedir a passagem de automóveis e também começaram a atirar pedras, ovos e outros objetos nos manifestantes. Apesar do episódio colocar frente-a-frente grupos estudantis com divergências em suas opiniões políticas, Vera Egito aponta que é difícil afirmar que havia consenso na visão de que a USP era palco da ‘esquerda’ e o Mackenzie da ‘direita’.
'Imagino que nunca há [consenso], pelo menos não absoluto. Mas a escola de filosofia estava ocupada pelos estudantes já havia tempo. Ali aconteciam as reuniões da UNE, já clandestina naquele momento. Havia muitos estudantes de esquerda no Mackenzie também, como há até hoje. A batalha se deu contra membros do CCC, o comando de caça aos comunistas, composto por agentes da ditadura treinados e infiltrados entre os estudantes mackenzistas', contextualiza. A diretora acredita que a USP ‘abraçou’ os movimentos estudantis, pelo fato das universidades públicas, naturalmente, serem a casa do livre pensar. 'É onde o país gesta suas melhores mentes, ou ao menos deveria ser, livre do compromisso com marcas ou interesses privados. No ensino superior público, a prioridade são os interesses da nação, do povo, da sociedade contribuinte. Historicamente, quem se dedica a reflexão, estudo e pensamento social, majoritariamente, desenvolve uma postura de esquerda. E isso não é à toa, obviamente. A maioria das pessoas que se aprofunda na lógica que rege a sociedade percebe o quão injusta e violenta ela é e se coloca em direção à mudança'.
Durante dois dias, a Batalha da Rua Maria Antônia ficou marcada por agressões, ataques com paus, pedras, coquetéis molotovs e bombas. Durante os atos, o secundarista José Carlos Guimarães, de apenas 20 anos, foi atingido na cabeça por um tiro vindo do Mackenzie e acabou morrendo. O conflito se estendeu até a Praça da Sé, onde estudantes incendiaram um carro do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Enquanto isso, a polícia interveio de forma truculenta e prendeu mais de 30 estudantes. O prédio da USP foi incendiado e depredado, o que motivou sua transferência para a cidade universitária no Butantã - cuja obra já estava em andamento. A mudança desagregou o núcleo do movimento estudantil e desestabilizou o local, que também abrigava outros movimentos contrários à ditadura.
'O AI-5 foi decretado logo após a batalha', explica Vera Egito. 'O Brasil inteiro mudou e caiu nos anos de chumbo. O prédio da filosofia foi fechado. As escolas foram deslocadas para o campus do Butantã, longe do centro urbano, longe das atividades sociais. Os movimentos foram desmembrados e desestruturados com desaparecimentos, mortes e torturas. Tudo mudou depois da Rua Maria Antônia'.
A diretora aponta que o conflito foi o último respiro de institucionalidade que vivemos durante o período. 'O AI-5 foi o golpe dentro do golpe. Até ali ainda havia uma crença nos mecanismos institucionais, no devido processo legal. Depois, a definitiva noite se instalou e demorou mais de uma década para terminar'."
O que disse a crítica 1: Vinicius Olieira do site Oxente Pipoca avaliou com 2 estrelas, ou seja, algo como fraco ou ruim. Disse: "Não ajuda o fato de que, mesmo com todo esse apelo com que o filme quer nos atrair através da imagem, o seu texto cai em lugares-comuns de obras ambientadas na ditadura que chega a ser vergonhoso. As atuações em gerais mecânicas do elenco prejudicam ainda mais a entrega do texto, de modo que, ainda que o objetivo geral do longa seja nos fazer simpatizar pelos estudantes da USP, há pouco pelo que simpatizar aqui, já que parte deles são repetições de estereótipos já batidos".
O que disse a crítica 2: Francisco Carbone do site Cenas de Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: "Egito intercala nos capítulos diferentes investigações, dando ênfase ao espírito do tempo (...) de um lado, e do outro se aprofundando nas relações pessoais entre aqueles personagens, alunos ou professores que se integram em um momento partido. Assim como se sobressai a obviedade lírica do ‘Roda Viva’ circular, também enche a tela que a câmera nervosa de William Etchebehere siga seus personagens por esquinas que constituem cada curva do cenário, ininterruptamente descobrindo novas paredes ou novas paixões. Aliás, esse é um elemento que sobra a 'A Batalha da Rua Maria Antônia': paixão. Tesão. Está nos olhos de cada célula arrepiada de ação, está na pele dos muitos amantes, está na maior parte dos frames desse filme especialíssimo, que denuncia tanto quanto fascina. É a mensagem lado a lado com o maravilhamento deslocado enfim do foco real, e saltando com energia na nossa direção".
O que eu achei: Se você espera ver um documentário sobre os acontecimentos do conflito ocorrido nos dias 2 e 3 de outubro de 1968 entre estudantes da USP, que lutavam pela democracia, e estudantes do Mackenzie com pessoas ligadas ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que eram a favor da ditadura, esquece. O filme de Vera Egito é uma ficção que retrata o relacionamento entre a estudante de filosofia Lilian (Pâmela Germano) e sua melhor amiga Angela (Isamara Castilho). Enquanto Lilian se mantém afastada das tensões políticas da época, Angela é peça chave no movimento estudantil da universidade cujo líder é Benjamin (Caio Horowicz), personagem inspirado no político José Dirceu, que na vida real era o presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP) quando a batalha se deu. Além de José Dirceu, Angela Davies é referenciada através da personagem Maria Elena (Julianna Gerais), já que em 1968 Davies já despontava como um dos maiores símbolos mundiais da luta antirracista, do feminismo negro e do pensamento crítico. Também não espere ver a locação real da batalha que foi a rua Maria Antônia, em São Paulo. A prefeitura não autorizou o fechamento da rua pelo tempo que a equipe necessitava e houve grande dificuldade para obter permissões de filmagem com o Mackenzie. Com isso as gravações acabaram acontecendo nos arredores do Pátio do Colégio, nas ruas Floriano Peixoto e Roberto Simonsen, com o prédio da USP sendo representado pelo Palácio dos Campos Elíseos, onde hoje funciona o Museu das Favelas. O pano de fundo dessa história fictícia é que é a batalha. Ela foi toda filmada em P&B de 16mm, em 21 planos-sequência, cuja numeração aparece na tela em contagem regressiva. Aí sim há diversas passagens fiéis aos acontecimentos reais como a cronologia dos fatos, começando no amanhecer do dia 02/OUT/1968 até a manhã seguinte, respeitando a escalada real da violência; o uso de pedras, tijolos, coquetéis molotovs e rojões disparados de um lado para o outro da rua; os detalhes cotidianos da militância da USP daquela semana, como o roubo das urnas de um plebiscito estudantil que estava ocorrendo naquele momento; o desfecho trágico mostrando a presença da polícia cercando o prédio e o anúncio da morte de um estudante alvejado por um tiro vindo do lado do Mackenzie; além da atuação do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) que operava de forma paramilitar infiltrado no Mackenzie, funcionando como um braço armado e violento da ditadura. Após o término da batalha o prédio da USP se apresentou destruído. Li que num primeiro momento ele foi fechado e ocupado pelas forças policiais. Como estratégia da ditadura militar para descentralizar o movimento estudantil e esvaziar o polo de militância do centro da cidade, todos os cursos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) foram transferidos às pressas e permanentemente para a Cidade Universitária. Sem utilidade acadêmica, o conjunto de edifícios foi vendido pela universidade para a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, abrigando repartições burocráticas e ligadas ao sistema prisional. Em 1985 o prédio foi oficialmente tombado pelo CONDEPHAAT por seu imenso valor e significado como patrimônio histórico e cultural da resistência política em São Paulo. Em 1993, com a redemocratização, o prédio foi devolvido à USP, abrigando o que é hoje Centro Universitário Maria Antônia. Com o filme se configurando como um mix entre ficção e realidade, alguns críticos não gostaram. Eu particularmente achei válido pois nunca é demais mostrar os estragos provocados pela ditadura militar, especialmente num ano eleitoral. Então creio que vale ver: é bem feito, bem fiel à batalha em si, funciona como memória e é bastante elucidativo. Boa pedida.