
Comentário: Shih-Ching Tsou é uma produtora cinematográfica taiwanesa-americana, colaboradora de longa data de Sean Baker. "A Garota Canhota" (2025) é seu primeiro longa como diretora, onde ela também fica responsável pela produção e pelo roteiro. Sean Baker entra como corroteirista, produtor e editor.
Edipo Pereira do site Cosmo Nerd nos conta que "O cinema de Shih-Ching Tsou retorna com força em 'A Garota Canhota' (2025), longa que marca sua estreia solo na direção após anos de colaboração com Sean Baker - vencedor do Oscar por 'Anora'. O novo filme, coescrito por ambos, estreou em festivais internacionais e chega (...) apresentando uma história sobre sobrevivência, afeto e resiliência feminina ambientada nas ruas de Taipei.
A trama acompanha Shu-Fen (Janel Tsai) e suas filhas, I-Ann (Shih-Yuan Ma) e I-Jing (Nina Yeh), enquanto tentam recomeçar a vida na capital taiwanesa. Após se mudar para Taipei, Shu-Fen abre uma barraca de macarrão em um movimentado mercado noturno, mas enfrenta as dificuldades de sustentar duas filhas sozinha e de lidar com os próprios pais, que vivem próximos.
A filha mais velha, I-Ann, abandonou a escola e trabalha vendendo noz de betel, em um ambiente hostil e machista. Já a pequena I-Jing, curiosa e imaginativa, tenta compreender o mundo ao seu redor e desafia as superstições do avô, que considera sua canhotice um sinal negativo.
A rotina dessas três mulheres é atravessada por questões de classe, tradição e independência - temas que Shih-Ching Tsou retrata com sensibilidade e naturalismo.
Desde 'Take Out' (2004), seu primeiro trabalho em parceria com Sean Baker, Tsou vem explorando personagens à margem, retratando a solidariedade e o calor humano que emergem mesmo nas condições mais duras. Em 'A Garota Canhota', essa abordagem reaparece com força. Cada personagem enfrenta obstáculos pessoais, mas a diretora mostra como pequenos gestos de bondade e amor tornam possível suportar as adversidades.
O roteiro alterna as perspectivas das três protagonistas (...), permitindo que cada jornada ganhe peso próprio. Shu-Fen representa a exaustão materna diante da pressão econômica; I-Ann vive o conflito entre liberdade e responsabilidade; e I-Jing, com seu olhar infantil, traduz o espírito de descoberta que permeia o filme. Essa estrutura reforça a ideia de que, apesar das gerações e das diferenças, todas compartilham o mesmo desejo de encontrar um lugar no mundo.
Filmado com iPhone, o longa se destaca pelo impacto visual. Tsou utiliza as luzes de néon de Taipei e as cores vibrantes dos mercados noturnos para compor uma estética que combina realismo e lirismo. A cidade surge como um personagem vivo, repleta de sons, cheiros e movimento, refletindo tanto o caos urbano quanto a ternura dos vínculos familiares".
O que disse a crítica 1: Francisco Carbone do Cenas de Cinema avaliou com 1,5 estrelas, ou seja, sofrível. Segundo ele, tirando o fato da atriz mirim Nina Ye, de 9 anos, ser uma imensa atriz, o filme é basicamente um remake da obra "Projeto Flórida" do Sean Baker. Além disso ele achou "a construção dos personagens adultos carregada de incômodos, estereótipos e idiotices que nos fazem afastar de qualquer maior contato com a obra, por mais saborosa que seja sua forma. Em vários momentos, tudo não se distancia de um dramalhão mexicano dos anos 90, incluindo vários acessos de orgulho inexplicável, e uma condução de maternidade que nunca avança para além do questionável. Egoísmo em doses cavalares não são características pouco ricas para preencher um personagem, mas quando tais amarrações fazem perder o sentido do todo, é que já passou do momento onde a coerência pode ser dispensada. Mais um valor que o filme não consegue abrir mão são dos valores ocidentais de molde cinematográfico, a começar pelo uso estridente de trilha sonora".
O que disse a crítica 1: Giancarlo Galdino da Revista Bula avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "As agruras das três [mãe e filhas] ganham tintas mais ou menos sombrias, que ficam mais evidentes depois que Shu-Fen [recebe uma notícia bombástica sobre seu ex-marido]. As reações da mãe e da filha mais velha I-Ann são diametralmente opostas, ideia que Tsou faz crescer numa cena tão despretensiosa quanto vívida, dando a Janel Tsai e Ma Shih-yuan farto material para garantir o excelente padrão até o desfecho".
O que eu achei: Trata-se de um longa dirigido pela cineasta taiwanesa-americana Shih-Ching Tsou, colaboradora de longa data de Sean Baker que entra aqui como corroteirista, produtor e editor. Há muito de Sean Baker no filme. Em primeiro lugar ele foi filmado com um iPhone, assim como ele fez em Tangerine (2015). Outra semelhança diz respeito à trama que lembra muito seu filme “Projeto Flórida” (2017) no qual uma garotinha de seis anos vive com a mãe numa hospedagem de beira de estrada e as duas contam com a proteção do gerente desse hotel na batalha diária pela sobrevivência com poucos recursos. Neste temos uma garotinha de nove anos que se muda para Taipei com sua mãe e irmã. A mãe abre uma barraca de macarrão no mercado noturno, enquanto a irmã consegue um emprego como vendedora de nozes. Quem vai ajudá-las nessa luta pela sobrevivência é o vizinho de barraca da mãe. Ocorre que a garotinha de nove anos é canhota, algo mal-visto pelo seu avô que logo explicita a superstição de que canhotos carregam a 'mão do diabo'. Uma breve pesquisa mostrou que, de fato, essa superstição existe. Começou no ocidente mas logo foi absorvida por sociedades tradicionais asiáticas. A própria diretora revelou em entrevistas que a cena do avô repreendendo a neta foi baseada em sua própria experiência real de infância já que quando tinha 14 anos seu avô a censurou rigidamente ao vê-la segurar uma faca com a mão esquerda, repetindo o mito de que aquela era a mão do demônio. Claro que essa crença afeta profundamente a criança, que passa a enxergar sua própria mão esquerda como responsável por impulsos que ela não controla, como executar pequenos furtos ou ser responsável pela morte acidental de seu animal de estimação. A menina chega a amarrar a mão com um pano, tentando evitar que ela 'aja sozinha'. Apesar da premissa interessante o filme não consegue desenvolver de forma satisfatória os conflitos que apresenta. A ideia de uma criança que internaliza uma superstição a ponto de atribuir à própria mão esquerda uma espécie de vontade maligna abre espaço para uma investigação psicológica rica, mas o roteiro prefere apenas sugerir essas questões sem aprofundá-las. Também falta unidade narrativa. O filme alterna entre a história da garota, as dificuldades financeiras da mãe, a adaptação da família à vida em Taipei e os problemas da irmã mais velha, mas raramente consegue integrar esses elementos em um conjunto coeso. O resultado é um filme simpático, mas que acaba parecendo uma versão menos inspirada dos trabalhos que claramente o influenciaram.
Edipo Pereira do site Cosmo Nerd nos conta que "O cinema de Shih-Ching Tsou retorna com força em 'A Garota Canhota' (2025), longa que marca sua estreia solo na direção após anos de colaboração com Sean Baker - vencedor do Oscar por 'Anora'. O novo filme, coescrito por ambos, estreou em festivais internacionais e chega (...) apresentando uma história sobre sobrevivência, afeto e resiliência feminina ambientada nas ruas de Taipei.
A trama acompanha Shu-Fen (Janel Tsai) e suas filhas, I-Ann (Shih-Yuan Ma) e I-Jing (Nina Yeh), enquanto tentam recomeçar a vida na capital taiwanesa. Após se mudar para Taipei, Shu-Fen abre uma barraca de macarrão em um movimentado mercado noturno, mas enfrenta as dificuldades de sustentar duas filhas sozinha e de lidar com os próprios pais, que vivem próximos.
A filha mais velha, I-Ann, abandonou a escola e trabalha vendendo noz de betel, em um ambiente hostil e machista. Já a pequena I-Jing, curiosa e imaginativa, tenta compreender o mundo ao seu redor e desafia as superstições do avô, que considera sua canhotice um sinal negativo.
A rotina dessas três mulheres é atravessada por questões de classe, tradição e independência - temas que Shih-Ching Tsou retrata com sensibilidade e naturalismo.
Desde 'Take Out' (2004), seu primeiro trabalho em parceria com Sean Baker, Tsou vem explorando personagens à margem, retratando a solidariedade e o calor humano que emergem mesmo nas condições mais duras. Em 'A Garota Canhota', essa abordagem reaparece com força. Cada personagem enfrenta obstáculos pessoais, mas a diretora mostra como pequenos gestos de bondade e amor tornam possível suportar as adversidades.
O roteiro alterna as perspectivas das três protagonistas (...), permitindo que cada jornada ganhe peso próprio. Shu-Fen representa a exaustão materna diante da pressão econômica; I-Ann vive o conflito entre liberdade e responsabilidade; e I-Jing, com seu olhar infantil, traduz o espírito de descoberta que permeia o filme. Essa estrutura reforça a ideia de que, apesar das gerações e das diferenças, todas compartilham o mesmo desejo de encontrar um lugar no mundo.
Filmado com iPhone, o longa se destaca pelo impacto visual. Tsou utiliza as luzes de néon de Taipei e as cores vibrantes dos mercados noturnos para compor uma estética que combina realismo e lirismo. A cidade surge como um personagem vivo, repleta de sons, cheiros e movimento, refletindo tanto o caos urbano quanto a ternura dos vínculos familiares".
O que disse a crítica 1: Francisco Carbone do Cenas de Cinema avaliou com 1,5 estrelas, ou seja, sofrível. Segundo ele, tirando o fato da atriz mirim Nina Ye, de 9 anos, ser uma imensa atriz, o filme é basicamente um remake da obra "Projeto Flórida" do Sean Baker. Além disso ele achou "a construção dos personagens adultos carregada de incômodos, estereótipos e idiotices que nos fazem afastar de qualquer maior contato com a obra, por mais saborosa que seja sua forma. Em vários momentos, tudo não se distancia de um dramalhão mexicano dos anos 90, incluindo vários acessos de orgulho inexplicável, e uma condução de maternidade que nunca avança para além do questionável. Egoísmo em doses cavalares não são características pouco ricas para preencher um personagem, mas quando tais amarrações fazem perder o sentido do todo, é que já passou do momento onde a coerência pode ser dispensada. Mais um valor que o filme não consegue abrir mão são dos valores ocidentais de molde cinematográfico, a começar pelo uso estridente de trilha sonora".
O que disse a crítica 1: Giancarlo Galdino da Revista Bula avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Escreveu: "As agruras das três [mãe e filhas] ganham tintas mais ou menos sombrias, que ficam mais evidentes depois que Shu-Fen [recebe uma notícia bombástica sobre seu ex-marido]. As reações da mãe e da filha mais velha I-Ann são diametralmente opostas, ideia que Tsou faz crescer numa cena tão despretensiosa quanto vívida, dando a Janel Tsai e Ma Shih-yuan farto material para garantir o excelente padrão até o desfecho".
O que eu achei: Trata-se de um longa dirigido pela cineasta taiwanesa-americana Shih-Ching Tsou, colaboradora de longa data de Sean Baker que entra aqui como corroteirista, produtor e editor. Há muito de Sean Baker no filme. Em primeiro lugar ele foi filmado com um iPhone, assim como ele fez em Tangerine (2015). Outra semelhança diz respeito à trama que lembra muito seu filme “Projeto Flórida” (2017) no qual uma garotinha de seis anos vive com a mãe numa hospedagem de beira de estrada e as duas contam com a proteção do gerente desse hotel na batalha diária pela sobrevivência com poucos recursos. Neste temos uma garotinha de nove anos que se muda para Taipei com sua mãe e irmã. A mãe abre uma barraca de macarrão no mercado noturno, enquanto a irmã consegue um emprego como vendedora de nozes. Quem vai ajudá-las nessa luta pela sobrevivência é o vizinho de barraca da mãe. Ocorre que a garotinha de nove anos é canhota, algo mal-visto pelo seu avô que logo explicita a superstição de que canhotos carregam a 'mão do diabo'. Uma breve pesquisa mostrou que, de fato, essa superstição existe. Começou no ocidente mas logo foi absorvida por sociedades tradicionais asiáticas. A própria diretora revelou em entrevistas que a cena do avô repreendendo a neta foi baseada em sua própria experiência real de infância já que quando tinha 14 anos seu avô a censurou rigidamente ao vê-la segurar uma faca com a mão esquerda, repetindo o mito de que aquela era a mão do demônio. Claro que essa crença afeta profundamente a criança, que passa a enxergar sua própria mão esquerda como responsável por impulsos que ela não controla, como executar pequenos furtos ou ser responsável pela morte acidental de seu animal de estimação. A menina chega a amarrar a mão com um pano, tentando evitar que ela 'aja sozinha'. Apesar da premissa interessante o filme não consegue desenvolver de forma satisfatória os conflitos que apresenta. A ideia de uma criança que internaliza uma superstição a ponto de atribuir à própria mão esquerda uma espécie de vontade maligna abre espaço para uma investigação psicológica rica, mas o roteiro prefere apenas sugerir essas questões sem aprofundá-las. Também falta unidade narrativa. O filme alterna entre a história da garota, as dificuldades financeiras da mãe, a adaptação da família à vida em Taipei e os problemas da irmã mais velha, mas raramente consegue integrar esses elementos em um conjunto coeso. O resultado é um filme simpático, mas que acaba parecendo uma versão menos inspirada dos trabalhos que claramente o influenciaram.