25.5.26

“Perdidos na Noite” - John Schlesinger (EUA, 1969)

Sinopse:
Joe Buck (Jon Voight) é um simplório jovem texano, que decide abandonar seu passado conturbado e se muda para Nova York onde tentará ganhar a vida como garoto de programa para mulheres ricas. Mas sua excessiva ingenuidade o impedirá de ganhar dinheiro se prostituindo. Em uma de suas caminhadas, encontra Ratso (Dustin Hoffman), um aleijado que sobrevive de pequenos golpes e furtos e com quem terá um laço de amizade.
Comentário: John Schlesinger (1926-2003) foi um cineasta inglês. Seu interesse por cinema começou aos 11 anos, quando ganhou uma câmera de 9,5mm de presente. Enquanto servia no Corpo de Engenheiros Reais durante a Segunda Guerra Mundial, fez um filme amador, “Horrors”, e atuou como mágico na Unidade de Entretenimento das Forças Armadas. Ao retomar os estudos em 1945, mergulhou no teatro e, posteriormente, no cinema. São dele “Adoradores do Diabo” (1987), “Madame Sousatzka” (1988), os thrillers “Morando com o Perigo” (1990), “O Inocente” (1993) e “Olho Por Olho” (1995). “Perdidos na Noite” (1969) é o primeiro filme que vejo dele.
Koraljka Suton do site Cinephilia Beyond publicou: “Embora altamente controverso na época, o ousado, não convencional, mas principalmente profundamente comovente e honesto filme ‘Perdidos na Noite" (Midnight Cowboy), do diretor britânico John Schlesinger, conseguiu chegar ao topo em 1969, apesar de todas as adversidades.
Depois de ter feito o sucesso ‘Darling – A Que Amou Demais’ em 1965, que foi indicado a três Oscars, rendendo ao diretor sua primeira indicação e dando a estatueta dourada a Julie Christie, Schlesinger, nascido em Londres, estava determinado a fazer um filme nos Estados Unidos. Apesar do sucesso, ele era inerentemente um duplo forasteiro em seu país, visto que era judeu e gay. E como um inglês gay que veio para os Estados Unidos e de repente quis fazer um filme sobre Nova York, esse status não mudou.
Enquanto trabalhava em ‘Darling’, Schlesinger leu ‘Perdidos na Noite’, um romance que incluía algumas cenas de sexo entre homens, escrito por James Leo Herlihy. Tendo gostado do livro, o diretor queria adaptá-lo para o cinema em colaboração com seu produtor, Joe Janni, mas este perguntou a Schlesinger se ele estava louco, proclamando que o material original era ‘coisa de viado’ e que certamente destruiria sua carreira. Embora desanimado, Schlesinger não queria desistir da ideia de transformar o romance em filme, então ligou para o produtor e amigo Jerome Hellman, cujo projeto para a produtora United Artists ele havia abandonado anteriormente. Hellman achou o material ótimo, mas estava preocupado com a execução.
‘Eu achava que a relação entre os dois caras tinha potencial para funcionar. Mas que, se houvesse qualquer indício de homossexualidade, seria uma catástrofe. Fiquei um pouco constrangido em dizer isso, porque quando conheci o John, ele ainda mantinha essa farsa de ser hétero. Na casinha na Rua Peel, ele tinha um cara morando no sótão, mas nunca me deixou conhecê-lo. Ele me disse que eu não devia saber que tinha um cara entrando e saindo. Então eu sabia que ele era gay, mas ele concordou plenamente comigo [sobre Midnight Cowboy]. Eu disse: 'OK, olha, vai ser muito difícil conseguir dinheiro para isso - vamos ter que trabalhar de graça -, mas eu adoraria tentar fazer com você.'’ – declarou Jerome Hellman.
E eles tentaram. O renomado autor Gore Vidal foi convidado a escrever o roteiro, mas respondeu que o romance era péssimo e queria persuadir Hellman e Schlesinger a optarem por uma de suas histórias. A dupla recusou e encontrou temporariamente um substituto adequado no dramaturgo Jack Gelber, mas seus dois primeiros rascunhos do roteiro não os agradaram. Felizmente, logo contrataram um candidato mais do que adequado para o trabalho, o talentoso autor Waldo Salt , que se viu obrigado a trabalhar na televisão sob pseudônimo por ter sido incluído em uma lista negra por suas ‘ligações comunistas’ na década de 1950 – ‘Perdidos na Noite’ foi o impulso que ele esperava. O que Salt conseguiu foi uma adaptação fiel, retirando as cenas mais memoráveis ​​do filme diretamente do romance - incluindo os diálogos. Mas o mais importante que ele acertou foi colocar a relação entre os dois personagens principais, Joe Buck e ‘Ratso’ Rizzo, em primeiro plano, o que transformou o roteiro, e consequentemente o filme, em um comentário social genuinamente emocional e baseado em relacionamentos sobre comunidades marginalizadas.
Joe Buck, um ingênuo fã de cowboys loiro e de olhos arregalados do Texas, decide largar o emprego de lavador de pratos e, vestido como seus ídolos de infância, tentar a sorte em Nova York, satisfazendo mulheres solitárias e ricas em troca de dinheiro. Seus sonhos de trabalhar como garoto de programa e a alegria com que encara a jornada - tanto literal quanto metafórica - lembram os de aspirantes a atores e cantores, que se esforçam para capitalizar seus talentos e se tornarem estrelas, reconhecidas e adoradas por todos. Para Buck, ouvir um programa de rádio a caminho de Nova York, no qual mulheres descrevem o tipo de homem que procuram, só alimenta suas fantasias sobre a sorte e a prosperidade que o aguardam na Big Apple, onde seu único talento – ‘amar’ - será apreciado e utilizado da melhor forma. Jamais lhe ocorre que a vida de garoto de programa nas ruas de Nova York não é tudo aquilo que se imagina, e que não há tantas mulheres dispostas a ir para a cama e pagar depois, especialmente por alguém vestido de cowboy.
Outra coisa que não lhe ocorre é que, dada a sua profissão, homens gays seriam clientes muito mais adequados e dispostos. Nova York logo se revela uma amante volúvel, que o acolhe de braços abertos, apenas para o destruir e cuspir fora depois de ter feito o que quis com ele. Um desses encontros acaba sendo bastante fortuito: ao conhecer ‘Ratso’ Rizzo, um vigarista sem-teto e manco que sonha em se mudar para a Flórida, Joe começa a acreditar que sua sorte mudou e que talvez tenha encontrado seu ‘empresário’, apenas para se enganar em breve. (...)
Essa profunda empatia que temos o privilégio de vivenciar, expandindo assim nossos próprios mundos interiores e capacidades emocionais, não é apenas resultado do roteiro fantástico que Waldo nos presenteou, mas também das interpretações magníficas dos atores, que deram vida a esses dois seres humanos com os quais nos identificamos. O papel do cowboy titular foi inicialmente oferecido ao ator Michael Sarrazin, mas, felizmente para Jon Voight, os produtores decidiram escolhê-lo, afinal, porque Sarrazin supostamente queria receber um salário maior. Voight, por outro lado, concordou em receber o salário-mínimo – estabelecido pelo Sindicato dos Atores de Cinema - porque desejava muito estar no filme. Conta-se que os produtores queriam assistir aos testes de elenco de Voight e Sarrazin em sequência para tomar a decisão final. A diretora de elenco Marion Dougherty teria afirmado que Voight era claramente o melhor ator, e Dustin Hoffman, que já havia sido escalado como Rizzo, aparentemente disse o seguinte após ver os testes: ‘Quando assisto à minha cena com Michael Sarrazin, vejo a mim mesmo; quando assisto à minha cena com Jon Voight, vejo Jon’."
Em termos de premiações o filme foi indicado a sete Oscars e ganhou três: Melhor Filme, Melhor Diretor (John Schlesinger) e Melhor Roteiro Adaptado (Waldo Salt). No Globo de Ouro recebeu sete indicações e venceu uma: Melhor Revelação Masculina (Jon Voight). No BAFTA recebeu 6 prêmios: Melhor Filme, Melhor Diretor (John Schlesinger), Melhor Roteiro, Melhor Ator (Dustin Hoffman), Melhor Ator Estreante (Jon Voight) e Melhor Edição. E no Festival de Berlim recebeu o Prêmio OCIC (John Schlesinger).
O que disse a crítica 1: Pablo Villaça do Cinema em Cena avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: “’Perdidos na Noite’ foi o único filme considerado X-rated [proibido para menores de 18 anos] pela censura americana que já ganhou este prêmio. Mas isto em 69. Hoje em dia, provavelmente seria considerado como ‘censura 14 anos’. Mas ‘Perdidos’ não é um filme sobre sexo. É antes um mergulho nos recantos mais sombrios das grandes cidades: o obscuro universo da pobreza e da mendicância. (...) Ambas as interpretações são pequenas obras-de-arte. (...) O problema é que, em alguns poucos momentos, a narrativa fica um pouco lenta. Em outros, ligeiramente confusa (como os flashbacks que revelam um pouco do passado de Buck). Fora isso, ‘Perdidos na Noite’ é um filme exemplar que deve ser visto por todos aqueles que apreciam o bom cinema”.
O que disse a crítica 2: Ritter Fan do Plano Crítico avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: “A marcação de momentos de quebra de paradigma é sempre perigosa, mas ‘Perdidos na Noite’ foi o choque de realidade que Hollywood precisava explicitamente reconhecer em suas premiações para ajudar a abrir de vez suas portas para uma nova e desafiadora abordagem por pelo menos a década seguinte. Grandes obras e grandes personagens como os que vemos aqui podem e devem ter esse efeito e a amizade de Joe e Ratso, com toda sua dor e tragédia, é inesquecível”.
O que eu achei: Baseado no romance “Midnight Cowboy” de James Leo Herlihy de 1965, o conto sombrio de solidão, sexualidade e sobrevivência em Nova York transposto para o cinema não é tão fiel ao livro, mas o resultado é perfeito. Em primeiro lugar há a trilha sonora. Todas as músicas são incríveis, porém destaco ‘Everybody’s Talkin’’ na voz de Harry Nilsson e a instrumental ‘Midnight Cowboy’ de John Barry: escolhas perfeitas que batem forte direto na alma. Em segundo lugar há a dupla de atores protagonistas. Dustin Hoffman interpreta o debilitado Rizzo, que sofre de uma perna paralítica e tuberculose. Sua atuação exige uma postura, um jeito de andar, uma maneira de caminhar, um sotaque. Ele entrega tudo e mais um pouco. Jon Voight interpreta Joe Buck, um inocente moço do interior, aspirante a vigarista sem experiência que acaba falido e desesperado em Nova York, formando um laço improvável com Rizzo. O cara nasceu pra fazer esse papel. O terceiro ponto é a edição primorosa, que justapõe flashbacks, realidade e fantasia para insinuar as motivações que movem seus protagonistas. Como o longa contém cenas explícitas de prostituição e uso de drogas, ele recebeu a classificação X, o que o deixava, em 1969, automaticamente associado à pornografia, mesmo passando muito longe desse perfil. Com isso o sucesso comercial poderia estar comprometido já que muitos cinemas se recusavam a exibir filmes com essa classificação, enquanto muitos jornais e emissoras de TV se recusavam a veicular anúncios. Porém o filme se tornou um sucesso de público inesperado, recebendo sete indicações ao Oscar no ano seguinte e ganhando três, tornando-se o primeiro e único filme com classificação X a fazê-lo. É daquelas obras-primas do tipo não morra sem ver. Vale cada minuto. Imperdível.