
Comentário: Joachim Trier (1974) é um cineasta dinamarquês-norueguês. Ele é neto do diretor, roteirista e músico Erik Løchen e primo distante do diretor Lars von Trier. São dele filmes como "Oslo, 31 de Agosto" (2014), "Mais Forte Que Bombas" (2016) e "Thelma" (2017). Assisti dele o longa "A Pior Pessoa do Mundo" (2021). Desta vez vou conferir "Valor Sentimental" (2025).
Cesar Soto do site G1 publicou: "'Valor Sentimental' é daqueles filmes raros, que espalham por conta própria inúmeras armadilhas apenas para desviar delas – e que, no processo de evitar um melodrama barato, encontra beleza na humanidade real por trás de complicações familiares.
Ou pode ser que seja o contrário, e que a obra norueguesa (...) tenha encontrado tal beleza e então evitado o melodrama. É difícil dizer. Seja como for, é fácil ver como um dos favoritos ao Oscar de Melhor Filme Internacional (...) se apresenta como uma evolução natural do trabalho e da sensibilidade do cineasta dinamarquês Joachim Trier.
No filme, ele se reencontra com a atriz Renate Reinsve para expandir a exploração que fizeram sobre o lado humano de tragédias corriqueiras no incrível 'A Pior Pessoa do Mundo' (2022).
Com o trabalho sutil e doído em 'Valor Sentimental', a norueguesa se eleva de vez à elite da atuação mundial – apoiada por interpretações impecáveis de um elenco que mistura nomes conhecidos, como Stellan Skarsgård e Elle Fanning, e revelações, como Inga Ibsdotter Lilleaas.
O roteiro escrito por Trier e Eskil Vogt, parceiro do diretor durante toda a sua carreira, à primeira vista conta a história de um diretor veterano egocêntrico (Skarsgård) que escala uma estrela americana (Fanning) para protagonizar seu novo – e provável último – filme, após sua filha atriz (Reinsve) rejeitar o papel. Este é o resumo mais sexy e comercial. Aos poucos, 'Valor Sentimental' se desdobra no efeito cascata de traumas familiares que definem suas diferentes gerações. Ao adotar diferentes pontos de vista, a obra destrincha relações e momentos definidores de cada um – e faz com que episódios particulares de seus personagens ressoem particularmente universais.
O mais notável, contudo, é que o faz sem apelar para o melodrama. Graças em especial ao elenco, o filme comove ao mesmo tempo em que sustenta uma leveza surreal. Menos operático do que o indicado ao Oscar 'A Pior Pessoa do Mundo', 'Valor Sentimental' depende quase que integralmente do peso de suas atuações. Reinsve já tinha provado possuir um talento único para dar vida a pessoas cheias de defeitos mas profundamente magnéticas no trabalho anterior de Trier, que a lançou para o mundo. Ao invés de ficar presa, a atriz se apoia no estereótipo para superar um desafio ainda maior – e equilibrar uma balança que conta com Skarsgård do outro lado.
Aos 74 anos, o sueco líder do clã Skarsgård (ele é pai dos também atores Alexander, Bill e Gustaf) tem tudo para ganhar o Oscar em sua primeira indicação – o que, por si só, já é inacreditável. Um reconhecimento tardio, mas mais que justo para alguém que apresenta excelência há décadas. No lugar de se apequenar ao lado da dupla, a norueguesa Lilleaas se aproveita. Com calma e frieza, ela se esgueira pelo tamanho dos personagens e das atuações dos companheiros para se esconder em plena vista e se tornar a responsável pela maior pancada da trama – e apresentar a verdadeira história ao público. Porque se os conflitos de um grande diretor com o próprio ego e com a filha com medo de compromissos é a narrativa mais sexy, ela carrega de forma troiana a relação entre duas irmãs que precisaram contar uma com a outra a vida inteira. Em especial, com a distância do pai narcisista e com a compreensão do motivo pelo qual ele é como é".
O longa recebeu diversas indicações e já ganhou inúmeros prêmios, dentre eles: o Grande Prêmio do Júri em Cannes. No Globo de Ouro, Stellan Skarsgård ganhou o Prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. No Oscar o longa irá concorrer em 8 categorias: Filme, Direção (Joachim Trier), Atriz (Renata Reinsve), Ator Coadjuvante (Stellan Skarsgård), Atriz Coadjuvante (Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning), Roteiro Original, Filme Internacional e Edição.
O que disse a crítica 1: Daniel Oliveira do site Cinematório avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: "O veterano Skarsgård entrega a melhor performance de sua carreira (...). Reinsve (...) captura com perfeição a dualidade de uma protagonista que consegue dominar e expressar todas as emoções no palco, mas é incapaz de lidar com as suas próprias fora dele (...). Mas o grande destaque e revelação é Ibsdotter Lilleaas como Agnes, a única integrante do clã disfuncional (...) que não buscou afogar suas mágoas na arte, optando por enfrentar a vida sem subterfúgios, com todos os seus problemas e imperfeições. É com ela que Trier mostra que, se um artista deve ser admirado pela coragem de explorar suas tretas pessoais em suas obras, quem tem coragem de resolvê-las de verdade é que faz o mundo girar e andar pra frente".
O que disse a crítica 2: Inácio Araújo da Folha SP avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Não é perguntar se a existência faz sentido, o fim deste filme. É afirmar o quanto a existência pode ser amarga, embora esse sabor também possa ser transitório. Isso faz lembrar outro grande cineasta, o japonês Ozu, que quase ao fim da vida concluiu que 'a vida é um pouco decepcionante'. Perto da visada bergmaniana (que Trier, em parte, retoma), a vida não é apenas muito decepcionante. É espécie de catástrofe incontornável".
O que eu achei: Aqui está um filme que, assim como os do Bergman, vai fazer psicólogos, psicanalistas e psiquiatras se deleitarem. Se como eu você, além de psicólogo, for cinéfilo, aí o deleite ficará completo, pois o filme aborda, de forma muito sensível, os perrengues da vida através das tretas familiares. Mas aqui, ao invés delas serem resolvidas no divã, elas se elaboram através da arte, mais especificamente, do fazer cinematográfico. A casa centenária da família em Oslo é, talvez, o personagem principal. Ela vem sendo ocupada há gerações pelo mesmo clã. Lá residiram os avós das irmãs Nora e Agnes; foi lá que nasceu o pai delas, Gustav, que se casou e ali permaneceu; e foi lá que as meninas nasceram e passaram a infância. Como Gustav se separou da mãe delas e desapareceu por muitos anos, foi uma surpresa ele ressurgir justamente no dia em que as filhas organizam uma reunião de luto na antiga casa, após o falecimento da mãe. Como lidar agora com esse homem tão importante, mas que deixou um buraco imenso, gerando traumas aparentemente intransponíveis, especialmente para a filha mais velha? A casa, assim como a relação entre eles, possui uma rachadura que vem se formando ao longo dos anos, exigindo reformas profundas para não desmoronar. É aí que o filme, ao meu ver, toca numa questão crucial que o emocional nem sempre nos deixa enxergar: o que levou nossos antepassados a serem tão ausentes, cruéis ou problemáticos? Em que contexto social e político suas personalidades se formaram? No filme, a avó - mãe de Gustav - foi uma antinazista torturada. Gustav, por sua vez, perdeu a mãe de forma inesperada dentro da casa. Já Nora e Agnes cresceram com um pai ausente vítima dos que vieram antes dele. E assim olhamos para os nossos e nos perguntamos: teriam sido eles frutos de uma guerra mundial, de um nazismo, de uma ditadura militar, de uma sexualidade reprimida? É nesse ponto que percebemos a importância não só do cuidado com a saúde mental, mas também da preservação da memória histórica. Afinal, nem todo mundo é filho de cineasta. A nós mortais restam os filmes - especialmente os bons, como "Valor Sentimental" - um longa que equilibra a ficção com algo profundamente pessoal mostrando como a criatividade pode se tornar um mecanismo de enfrentamento quando a comunicação normal falha. Excelente.
Cesar Soto do site G1 publicou: "'Valor Sentimental' é daqueles filmes raros, que espalham por conta própria inúmeras armadilhas apenas para desviar delas – e que, no processo de evitar um melodrama barato, encontra beleza na humanidade real por trás de complicações familiares.
Ou pode ser que seja o contrário, e que a obra norueguesa (...) tenha encontrado tal beleza e então evitado o melodrama. É difícil dizer. Seja como for, é fácil ver como um dos favoritos ao Oscar de Melhor Filme Internacional (...) se apresenta como uma evolução natural do trabalho e da sensibilidade do cineasta dinamarquês Joachim Trier.
No filme, ele se reencontra com a atriz Renate Reinsve para expandir a exploração que fizeram sobre o lado humano de tragédias corriqueiras no incrível 'A Pior Pessoa do Mundo' (2022).
Com o trabalho sutil e doído em 'Valor Sentimental', a norueguesa se eleva de vez à elite da atuação mundial – apoiada por interpretações impecáveis de um elenco que mistura nomes conhecidos, como Stellan Skarsgård e Elle Fanning, e revelações, como Inga Ibsdotter Lilleaas.
O roteiro escrito por Trier e Eskil Vogt, parceiro do diretor durante toda a sua carreira, à primeira vista conta a história de um diretor veterano egocêntrico (Skarsgård) que escala uma estrela americana (Fanning) para protagonizar seu novo – e provável último – filme, após sua filha atriz (Reinsve) rejeitar o papel. Este é o resumo mais sexy e comercial. Aos poucos, 'Valor Sentimental' se desdobra no efeito cascata de traumas familiares que definem suas diferentes gerações. Ao adotar diferentes pontos de vista, a obra destrincha relações e momentos definidores de cada um – e faz com que episódios particulares de seus personagens ressoem particularmente universais.
O mais notável, contudo, é que o faz sem apelar para o melodrama. Graças em especial ao elenco, o filme comove ao mesmo tempo em que sustenta uma leveza surreal. Menos operático do que o indicado ao Oscar 'A Pior Pessoa do Mundo', 'Valor Sentimental' depende quase que integralmente do peso de suas atuações. Reinsve já tinha provado possuir um talento único para dar vida a pessoas cheias de defeitos mas profundamente magnéticas no trabalho anterior de Trier, que a lançou para o mundo. Ao invés de ficar presa, a atriz se apoia no estereótipo para superar um desafio ainda maior – e equilibrar uma balança que conta com Skarsgård do outro lado.
Aos 74 anos, o sueco líder do clã Skarsgård (ele é pai dos também atores Alexander, Bill e Gustaf) tem tudo para ganhar o Oscar em sua primeira indicação – o que, por si só, já é inacreditável. Um reconhecimento tardio, mas mais que justo para alguém que apresenta excelência há décadas. No lugar de se apequenar ao lado da dupla, a norueguesa Lilleaas se aproveita. Com calma e frieza, ela se esgueira pelo tamanho dos personagens e das atuações dos companheiros para se esconder em plena vista e se tornar a responsável pela maior pancada da trama – e apresentar a verdadeira história ao público. Porque se os conflitos de um grande diretor com o próprio ego e com a filha com medo de compromissos é a narrativa mais sexy, ela carrega de forma troiana a relação entre duas irmãs que precisaram contar uma com a outra a vida inteira. Em especial, com a distância do pai narcisista e com a compreensão do motivo pelo qual ele é como é".
O longa recebeu diversas indicações e já ganhou inúmeros prêmios, dentre eles: o Grande Prêmio do Júri em Cannes. No Globo de Ouro, Stellan Skarsgård ganhou o Prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. No Oscar o longa irá concorrer em 8 categorias: Filme, Direção (Joachim Trier), Atriz (Renata Reinsve), Ator Coadjuvante (Stellan Skarsgård), Atriz Coadjuvante (Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning), Roteiro Original, Filme Internacional e Edição.
O que disse a crítica 1: Daniel Oliveira do site Cinematório avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Disse: "O veterano Skarsgård entrega a melhor performance de sua carreira (...). Reinsve (...) captura com perfeição a dualidade de uma protagonista que consegue dominar e expressar todas as emoções no palco, mas é incapaz de lidar com as suas próprias fora dele (...). Mas o grande destaque e revelação é Ibsdotter Lilleaas como Agnes, a única integrante do clã disfuncional (...) que não buscou afogar suas mágoas na arte, optando por enfrentar a vida sem subterfúgios, com todos os seus problemas e imperfeições. É com ela que Trier mostra que, se um artista deve ser admirado pela coragem de explorar suas tretas pessoais em suas obras, quem tem coragem de resolvê-las de verdade é que faz o mundo girar e andar pra frente".
O que disse a crítica 2: Inácio Araújo da Folha SP avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Não é perguntar se a existência faz sentido, o fim deste filme. É afirmar o quanto a existência pode ser amarga, embora esse sabor também possa ser transitório. Isso faz lembrar outro grande cineasta, o japonês Ozu, que quase ao fim da vida concluiu que 'a vida é um pouco decepcionante'. Perto da visada bergmaniana (que Trier, em parte, retoma), a vida não é apenas muito decepcionante. É espécie de catástrofe incontornável".
O que eu achei: Aqui está um filme que, assim como os do Bergman, vai fazer psicólogos, psicanalistas e psiquiatras se deleitarem. Se como eu você, além de psicólogo, for cinéfilo, aí o deleite ficará completo, pois o filme aborda, de forma muito sensível, os perrengues da vida através das tretas familiares. Mas aqui, ao invés delas serem resolvidas no divã, elas se elaboram através da arte, mais especificamente, do fazer cinematográfico. A casa centenária da família em Oslo é, talvez, o personagem principal. Ela vem sendo ocupada há gerações pelo mesmo clã. Lá residiram os avós das irmãs Nora e Agnes; foi lá que nasceu o pai delas, Gustav, que se casou e ali permaneceu; e foi lá que as meninas nasceram e passaram a infância. Como Gustav se separou da mãe delas e desapareceu por muitos anos, foi uma surpresa ele ressurgir justamente no dia em que as filhas organizam uma reunião de luto na antiga casa, após o falecimento da mãe. Como lidar agora com esse homem tão importante, mas que deixou um buraco imenso, gerando traumas aparentemente intransponíveis, especialmente para a filha mais velha? A casa, assim como a relação entre eles, possui uma rachadura que vem se formando ao longo dos anos, exigindo reformas profundas para não desmoronar. É aí que o filme, ao meu ver, toca numa questão crucial que o emocional nem sempre nos deixa enxergar: o que levou nossos antepassados a serem tão ausentes, cruéis ou problemáticos? Em que contexto social e político suas personalidades se formaram? No filme, a avó - mãe de Gustav - foi uma antinazista torturada. Gustav, por sua vez, perdeu a mãe de forma inesperada dentro da casa. Já Nora e Agnes cresceram com um pai ausente vítima dos que vieram antes dele. E assim olhamos para os nossos e nos perguntamos: teriam sido eles frutos de uma guerra mundial, de um nazismo, de uma ditadura militar, de uma sexualidade reprimida? É nesse ponto que percebemos a importância não só do cuidado com a saúde mental, mas também da preservação da memória histórica. Afinal, nem todo mundo é filho de cineasta. A nós mortais restam os filmes - especialmente os bons, como "Valor Sentimental" - um longa que equilibra a ficção com algo profundamente pessoal mostrando como a criatividade pode se tornar um mecanismo de enfrentamento quando a comunicação normal falha. Excelente.