26.1.26

"O Agente Secreto" - Kleber Mendonça Filho (Brasil/França/Países Baixos/Alemanha, 2025)

Sinopse:
No Brasil de 1977, Marcelo (Wagner Moura) é um professor de tecnologia cuja pesquisa interessa aos militares. Ameaçado de morte em decorrência de seu trabalho, busca abrigo em um condomínio de refugiados políticos no Recife, mas percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que procura.
Comentário: Kleber Mendonça Filho (1968) é um diretor, produtor, roteirista e crítico de cinema brasileiro. Já assisti dele os ótimos “O Som ao Redor” (2012), "Aquarius" (2016) e “Bacurau” (2019), além do documentário “Retratos Fantasmas” (2023). Desta vez vou conferir "O Agente Secreto" (2025).
Tais Zago do site Café História publicou: "Há filmes que não apenas contam uma história - eles a pressentem, como se o ar estivesse impregnado de lembranças. 'O Agente Secreto', novo longa do diretor e roteirista Kleber Mendonça Filho, é um desses. Em vez de seguir o caminho padrão do espetáculo ou da denúncia óbvia, o diretor pernambucano prefere o som abafado das portas que rangem, dos passos ecoando pelos corredores de uma cidade onde o tempo parece nunca passar por completo. O filme respira a atmosfera de um Brasil de 1977, mas fala diretamente ao presente, transformando o Recife em palco e, também, personagem de um thriller político sobre vigilância, medo, culpa e esquecimento.
Depois das obras excelentes 'Aquarius' (2016) e 'Bacurau' (2019) (...) Kleber mergulha agora no terreno mais denso dos segredos. Inspirado por pesquisas sobre o período da ditadura militar e por ecos de filmes de espionagem e paranoia dos anos 1970, Kleber nos oferece um protagonista dividido: Marcelo (Wagner Moura), aparentemente um técnico de som que retorna à sua cidade natal durante o Carnaval, acaba enredado em uma teia de vigilância, crimes e memórias abafadas ainda sob a mão da ditadura brasileira.
O diretor escreve o roteiro e dirige com o mesmo pulso firme de quem documenta um sonho febril. 'O Agente Secreto', filme que nos é apresentado como um mosaico incompleto de lembranças, silêncios e suspeitas, é executado com uma precisão que só quem conhece o cheiro, a cor e o ritmo de Recife poderia alcançar.
KMF constrói uma narrativa e nos apresenta em três movimentos, alternando tempos, espaços e tonalidades de luz como recurso para reforçar as diferentes épocas abordadas. O que começa como um reencontro pessoal entre pai e filho se transforma em investigação histórica e termina como fábula política sobre o custo da busca pela verdade.
Aqui entramos de corpo e alma na cultura pernambucana. A fotografia de Evgenia Alexandrova é pura contenção. As lentes anamórficas, populares nos anos 50 – buscando o efeito widescreen na pós-produção – comprimem o quadro, achatam e acentuam a sensação de confinamento. Os filtros em tons ocre e metálicos dominam a tela, sugerindo um país visto sob uma eterna penumbra.
Os interiores são iluminados como memórias — uma estética amarelada que lembra tanto os arquivos esquecidos quanto as lembranças que preferimos não reabrir. Kleber filma o Recife como quem descobre ruínas vivas, uma cidade feita de becos, vozes, rádios e ecos do passado.
Já a trilha sonora de Mateus e Tomaz Alves, que já foram parceiros de KMF em outros de seus filmes, costura o som ambiente com músicas populares e gravações originais de época. É uma colagem sonora que mistura frevo, ruídos e silêncios. O som de uma fita cassete em um gravador antigo pode valer mais que qualquer outra expressão verbal - aqui, o barulho é memória.
O também diretor e ator Wagner Moura nos entrega uma atuação de contenção impressionante. Seu personagem Marcelo é um homem dividido entre a culpa, o amor pelo filho e a necessidade de entender o próprio passado na busca pela identidade da mãe. Sua presença é magnética mesmo (ou principalmente) quando nada diz. Moura faz de seu corpo um campo de batalha: os olhos são cansados, o andar é hesitante, a voz que se quebra ao tentar explicar o inexplicável. Há algo de profundamente humano e melancólico nesse personagem que parece carregar os ruídos do país dentro da cabeça e o peso do mundo em seus ombros.
Ao redor dele, personagens como Elza, interpretada pela sempre competente Maria Fernanda Cândido, surgem como uma figura de lembrança e resistência de um passado recente. Temos aqui a construção do elo entre o afeto e o trauma. Gabriel Leone, Hermila Guedes, Tânia Maria – excepcional como dona Sebastiana – e o ator alemão Udo Kier completam um elenco que parece surgir de diferentes fantasmas do tempo, todos orbitando em torno de questões como o que ainda é possível redimir, o que perdoar e como seguir em frente.
'O Agente Secreto' é menos um filme padrão sobre espionagem e mais um filme sobre o próprio ato de (se) esconder. Kleber Mendonça não oferece respostas fáceis e diretas - ele filma a ditadura como uma névoa que ainda paira sobre a cidade e sobre nós mesmo em sua fase de enfraquecimento durante o governo Geisel. Há uma coragem em fazer cinema político sem precisar de slogans diretos e KMF optou pela tensão das esquinas, o olhar atravessado, o som distante de uma fita que é rebobinada e volta a rodar.
O roteiro, escrito por ele mesmo, tem a delicadeza de quem entende que a verdade não se revela em explosões, mas, muitas vezes, em silêncios. A cada corte, a cada pausa, há uma história maior sendo contada além da imagem. O que importa aqui não é o fato histórico em si ou um intrincado arco entre espiões, mas o que o esquecimento (ou a negação) faz conosco. (...)
Com distribuição internacional pela Neon (...) 'O Agente Secreto' já figura entre os títulos mais elogiados do ano. E Wagner Moura aparece encabeçando listas de indicações pela sua atuação. Há quem diga que é o filme mais contido e, ao mesmo tempo, o mais devastador de Kleber — e há uma certa verdade nisso.
No fim, percebemos que 'O Agente Secreto' é sobre o peso do que não se diz. Sobre o país que arquiva seus papéis amarelados ou enterra os esqueletos de suas dores, mas que continua a ouvi-las ressoando no fundo do peito. Kleber Mendonça Filho faz cinema como quem abre um diário empoeirado e, ao reler, descobre que as páginas ainda sangram verdades. E nesse ponto preciso avisar, o longa de duas horas e meia de duração, não é um filme marcado por grandes explosões ou cenas impactantes de ação, mas, sim, de pequenas rachaduras e infiltrações. E são essas rachaduras que deixam escapar a luz - a mesma que ilumina Wagner Moura caminhando pelas ruas vibrantes de Recife entre seus fantasmas, segredos e memórias".
O longa estreou no Festival de Cannes, foi recebido com entusiasmo e prêmios pela crítica e público - inclusive o de Melhor Ator para Wagner Moura e o Prêmio Especial de Direção para Kleber Mendonça Filho. No Globo de Ouro ganhou Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Wagner Moura levou o prêmio de Melhor Ator de Drama. E agora está concorrendo em quatro categorias ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator para Wagner Moura e Melhor Direção de Elenco.
O que disse a crítica 1: Diego Almeida do site Observatório do Cinema avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Disse: "A direção aposta em um ritmo deliberadamente lento, o que pode afastar quem busca um thriller mais tradicional. Mas é justamente essa cadência que permite ao filme mergulhar na sensação de paranoia que dominava o país durante a ditadura militar. Kleber não entrega respostas fáceis, preferindo deixar o público desconfortável e, no processo, refletindo sobre a natureza do medo coletivo".
O que disse a crítica 2: Pablo Villaça do site Cinema em Cena avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Escreveu: "Amarrando a narrativa de modo emocionante ao refletir como um dos legados mais tristes daquela época 'cheia de pirraça' foi a destruição de núcleos familiares e a interrupção de vidas e histórias que tinham muito a contribuir com o país, o filme ecoa neste aspecto obras como o recente 'Ainda Estou Aqui' e ressalta como a preservação da memória (individual e coletiva) é algo fundamental – um tópico que, entre outras coisas, justifica estruturalmente as duas linhas narrativas cronológicas que o longa estabelece".
O que eu achei: Escrever sobre “O Agente Secreto” (2025) é uma tarefa desafiadora, e isso se deve à explosão de qualidade em praticamente todos os seus processos. Kleber Mendonça Filho entrega aqui um filme realmente imenso, daqueles que fazem a gente sair da sessão com a sensação rara de ter visto algo único. O 'agente secreto' do título não está apenas no filme no qual Jean-Paul Belmondo aparece projetado por um instante na tela do cinema São Luiz. Ele é, sobretudo, algo simbólico: o fantasma dos tempos tenebrosos da ditadura, uma presença difusa que contamina o cotidiano, age nas sombras e transforma qualquer gesto banal em potencial ameaça. Embora não seja uma história real, o filme retrata situações surreais verossímeis, comuns para quem viveu no Brasil de 1977. É uma aula de história do Brasil e de quebra, ainda nos apresenta à célebre Perna Cabeluda, alegoria pernambucana explorada pela imprensa da época para driblar a censura e noticiar certos horrores. O roteiro é impecavelmente inteligente: exige atenção e não deixa pontas soltas. As quase 2h40 de duração não pesam, ao contrário, são plenamente compensadas pela densidade dramática e pela riqueza de camadas que se revelam aos poucos. A fotografia é arrebatadora, a trilha sonora é incrível e a edição e a montagem são criativas, inventivas, sempre em diálogo com a instabilidade emocional e política daquele período. As atuações também são um espetáculo à parte. Wagner Moura está em estado de graça, numa composição que justifica plenamente os elogios e a corrida ao Oscar. Mas é impossível não destacar Tânia Maria, como a dona da pensão onde vive um gato com duas caras, figura tão simbólica quanto memorável. Ela faz por merecer cada elogio que vem recebendo. Mais do que um thriller político ou um drama histórico, “O Agente Secreto” fala sobre essa máquina infernal que existia no passado e que ainda nos assombra. Kleber Mendonça Filho demonstra uma maturidade artística impressionante, combinando rigor formal, potência simbólica e um domínio absoluto da linguagem cinematográfica. É, sem exagero, uma obra-prima absoluta, um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. Veja sem hesitação.