
Comentário: João Moreira (1980) é natural de Coimbra, é um humorista, roteirista e apresentador de televisão português. Pedro Santo (1980) também é roteirista e é o co-criador, juntamente com João Moreira, do famoso personagem português Bruno Aleixo, um ewok (uma criatura da franquia "Star Wars" que para não ter problemas de direitos autorais com a Lucasfilm se transformou numa mistura de urso de pelúcia e cachorro) ranzinza que apresenta o talk-show "O Programa do Aleixo" (2008-2012), juntamente com seus amigos o Homem do Bussaco, Busto (um busto de Napoleão), o réptil Renato Alexandre, Dr. Ribeiro e o porteiro Nelson. Assisti deles "O Filme do Bruno Aleixo" (2019).
O site Risi Flm Brasil publicou a seguinte "nota de intenções" dos autores: "É nossa pretensão partir-se aqui do celebrado arquétipo do 'Conto de Natal' de Dickens, tantas vezes adaptado nos mais diversos formatos artísticos, agora com Bruno Aleixo assumindo o papel de Ebenezer Scrooge [personagem principal desse conto datado de 1843, um rico, ganancioso e avarento homem que odeia o natal]. Instalando-se quase de imediato o conflito-base (na medida em que é estabelecida desde logo a existência de uma relação profundamente antagônica entre o personagem e o período natalício), serão, neste cenário, os sonhos de um Aleixo aparentemente em coma a guiarem-nos através de diversos Natais. E, aqui, será então esta dinâmica onírica que assumirá a função que habitualmente está consagrada aos três espíritos canônicos que visitam Scrooge.
Todavia, serão seis, e não três, os Natais visitados por Aleixo nos seus sonhos, com particular relevância para as consoadas passadas (na figura da infância, pré-adolescência e duas fases distintas da idade adulta), não deixando ainda assim de expor as também clássicas versões 'presente' e 'futura'. Esta viagem espelhará a evolução do vínculo do personagem Bruno Aleixo com o Natal, pretendendo-se refletir também sobre a própria transformação que as celebrações e costumes natalícios foram sofrendo ao longo dos anos. Deixando-se ainda a premonição do que poderão vir a ser os Natais futuros se determinadas circunstâncias se mantiverem. Os Natais de Aleixo, sim, mas, mais uma vez, nunca apenas de Aleixo.
Posto isto, é nosso propósito que Aleixo, fiel às idiossincrasias ou traços de personalidade que o personagem tem desenvolvido desde que foi criado em 2008, represente aqui algo mais do que a evolução da sua própria persona e da sua própria relação com o Natal. A proposta é que Aleixo, sendo sempre Aleixo, acabe por simbolizar também em larga medida um país e uma Portugalidade, inclusive uma Portugalidade que, em dado momento, estará mesmo para além das fronteiras físicas do país. E isto sem nunca deixar de, a um nível mais macro, retratar também determinadas tendências globais relativamente a quadras de natureza mais familiar como o Natal.
Neste sentido, a própria festividade será também um personagem determinante, vendo evoluir o seu paradigma de sonho para sonho; seja, e só a título de exemplo, pela centralidade crescente que a comida foi assumindo, pelas multíplices dinâmicas familiares e cerimoniais que se estabelecem nesse período ou até pelo papel quase-monopolístico que a tecnologia foi impondo passo a passo. Naturalmente, os sonhos-viagens aos diversos Natais passados, ao presente e ao futuro manifestar-se-ão através de estéticas distintas entre si, sendo que todas elas se afastarão também do tradicional traço 'Aleixístico'. Serão, assim, introduzidas novas corporizações visuais das personagens, bem como alguns desvios à composição narrativa do clássico campo/contra-campo em que este universo se tem vindo a apoiar desde a primeira hora.
Naturalmente, é também nosso propósito que a dinâmica estético-narrativa de cada Natal represente os períodos específicos em que se insere. De novo, e reforçamos, não só da vida de Aleixo, mas ainda de um povo. Por último, de referir o poder redentor que marca de forma indelével o arquétipo do 'Conto de Natal' e que pretendemos que também aqui faça a sua inevitável aparição. Sendo que, neste contexto, assistir-se-á a uma intercepção entre o caráter redentor desta narrativa clássica e o caráter absolutamente inabalável de Bruno Aleixo, figura até aqui pouco dada a uma regeneração tão plena como a aquela que temos visto ortodoxamente com Ebenezer Scrooge".
O que disse a crítica 1: Alysson Oliveira do Cineweb avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: " O maior diferencial do filme é que cada um dos Natais foi entregue a um ilustrador ou ilustradora. Assim, os segmentos e técnicas têm aspectos particulares. Joana Afonso, Rafael da Silva Hatadani, Jorge Ribeiro, Fábio Veras e Kachisou trazem suas assinaturas próprias, expandindo assim o universo de Aleixo, Bussaco, Busto, Renato Alexandre (um personagem inspirado no Monstro da Lagoa Negra), e os demais".
O que disse a crítica 2: Marcelo Müller do site Papo de Cinema avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: "'O Natal do Bruno Aleixo' nos permite conhecer um pouco melhor a biografia do protagonista, pois passamos pela experiência brasileira da infância, testemunhamos a interação belicosa com os parentes da ex-esposa (...). De brinde, temos a sequência na casa do Dr. Ribeiro, em que Bruno Aleixo responde à altura as chateações do tio com a mesma doença de invisibilidade do amigo, mas que ficou opaco em virtude do tratamento experimental nos anos 1960. A escalada de absurdos é típica do personagem maluco, o centro de um universo cheio de coadjuvantes semelhantes no quesito peculiaridade. Estimular o sujeito em coma com histórias natalinas poderia ser terapêutico, mas apenas se o Natal fosse tão feliz e gregário como dita o senso comum demolido por Bruno Aleixo".
O que eu achei: "O Natal do Bruno Aleixo" (2022) é uma animação que não faz concessões ao espectador desavisado. Trata-se de um filme claramente pensado para iniciados, para quem já conhece o humor, a lógica interna e o universo peculiar de Bruno Aleixo, personagem criado em 2008 e que se tornou um fenômeno de culto em Portugal. O longa não perde tempo contextualizando nada: logo de início, Bruno sofre um acidente, entra em coma e passa a revisitar memórias de natais passados. A narrativa assume esse fluxo caótico sem pedir licença, confiando que o público já esteja familiarizado com seus códigos. Nesse percurso onírico e afetivamente torto, surgem os já conhecidos companheiros de Aleixo: o Homem do Bussaco, Busto, Renato Alexandre, Dr. Ribeiro e Nelson, todos funcionando como extensões da mente do protagonista e, ao mesmo tempo, como catalisadores do humor ácido e autoconsciente da obra. O filme alterna momentos de nonsense absoluto com pequenas doses de melancolia, revelando um Natal menos sentimental e mais desconfortável, fiel ao espírito da série. O resultado é uma animação que dificilmente passa despercebida: ou se entra completamente na proposta ou se rejeita de imediato. No meu caso, funcionou muito bem: achei hilário, irreverente e coerente dentro da sua própria lógica. É divertido mas não é pra todo mundo.
O site Risi Flm Brasil publicou a seguinte "nota de intenções" dos autores: "É nossa pretensão partir-se aqui do celebrado arquétipo do 'Conto de Natal' de Dickens, tantas vezes adaptado nos mais diversos formatos artísticos, agora com Bruno Aleixo assumindo o papel de Ebenezer Scrooge [personagem principal desse conto datado de 1843, um rico, ganancioso e avarento homem que odeia o natal]. Instalando-se quase de imediato o conflito-base (na medida em que é estabelecida desde logo a existência de uma relação profundamente antagônica entre o personagem e o período natalício), serão, neste cenário, os sonhos de um Aleixo aparentemente em coma a guiarem-nos através de diversos Natais. E, aqui, será então esta dinâmica onírica que assumirá a função que habitualmente está consagrada aos três espíritos canônicos que visitam Scrooge.
Todavia, serão seis, e não três, os Natais visitados por Aleixo nos seus sonhos, com particular relevância para as consoadas passadas (na figura da infância, pré-adolescência e duas fases distintas da idade adulta), não deixando ainda assim de expor as também clássicas versões 'presente' e 'futura'. Esta viagem espelhará a evolução do vínculo do personagem Bruno Aleixo com o Natal, pretendendo-se refletir também sobre a própria transformação que as celebrações e costumes natalícios foram sofrendo ao longo dos anos. Deixando-se ainda a premonição do que poderão vir a ser os Natais futuros se determinadas circunstâncias se mantiverem. Os Natais de Aleixo, sim, mas, mais uma vez, nunca apenas de Aleixo.
Posto isto, é nosso propósito que Aleixo, fiel às idiossincrasias ou traços de personalidade que o personagem tem desenvolvido desde que foi criado em 2008, represente aqui algo mais do que a evolução da sua própria persona e da sua própria relação com o Natal. A proposta é que Aleixo, sendo sempre Aleixo, acabe por simbolizar também em larga medida um país e uma Portugalidade, inclusive uma Portugalidade que, em dado momento, estará mesmo para além das fronteiras físicas do país. E isto sem nunca deixar de, a um nível mais macro, retratar também determinadas tendências globais relativamente a quadras de natureza mais familiar como o Natal.
Neste sentido, a própria festividade será também um personagem determinante, vendo evoluir o seu paradigma de sonho para sonho; seja, e só a título de exemplo, pela centralidade crescente que a comida foi assumindo, pelas multíplices dinâmicas familiares e cerimoniais que se estabelecem nesse período ou até pelo papel quase-monopolístico que a tecnologia foi impondo passo a passo. Naturalmente, os sonhos-viagens aos diversos Natais passados, ao presente e ao futuro manifestar-se-ão através de estéticas distintas entre si, sendo que todas elas se afastarão também do tradicional traço 'Aleixístico'. Serão, assim, introduzidas novas corporizações visuais das personagens, bem como alguns desvios à composição narrativa do clássico campo/contra-campo em que este universo se tem vindo a apoiar desde a primeira hora.
Naturalmente, é também nosso propósito que a dinâmica estético-narrativa de cada Natal represente os períodos específicos em que se insere. De novo, e reforçamos, não só da vida de Aleixo, mas ainda de um povo. Por último, de referir o poder redentor que marca de forma indelével o arquétipo do 'Conto de Natal' e que pretendemos que também aqui faça a sua inevitável aparição. Sendo que, neste contexto, assistir-se-á a uma intercepção entre o caráter redentor desta narrativa clássica e o caráter absolutamente inabalável de Bruno Aleixo, figura até aqui pouco dada a uma regeneração tão plena como a aquela que temos visto ortodoxamente com Ebenezer Scrooge".
O que disse a crítica 1: Alysson Oliveira do Cineweb avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: " O maior diferencial do filme é que cada um dos Natais foi entregue a um ilustrador ou ilustradora. Assim, os segmentos e técnicas têm aspectos particulares. Joana Afonso, Rafael da Silva Hatadani, Jorge Ribeiro, Fábio Veras e Kachisou trazem suas assinaturas próprias, expandindo assim o universo de Aleixo, Bussaco, Busto, Renato Alexandre (um personagem inspirado no Monstro da Lagoa Negra), e os demais".
O que disse a crítica 2: Marcelo Müller do site Papo de Cinema avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, muito bom. Escreveu: "'O Natal do Bruno Aleixo' nos permite conhecer um pouco melhor a biografia do protagonista, pois passamos pela experiência brasileira da infância, testemunhamos a interação belicosa com os parentes da ex-esposa (...). De brinde, temos a sequência na casa do Dr. Ribeiro, em que Bruno Aleixo responde à altura as chateações do tio com a mesma doença de invisibilidade do amigo, mas que ficou opaco em virtude do tratamento experimental nos anos 1960. A escalada de absurdos é típica do personagem maluco, o centro de um universo cheio de coadjuvantes semelhantes no quesito peculiaridade. Estimular o sujeito em coma com histórias natalinas poderia ser terapêutico, mas apenas se o Natal fosse tão feliz e gregário como dita o senso comum demolido por Bruno Aleixo".
O que eu achei: "O Natal do Bruno Aleixo" (2022) é uma animação que não faz concessões ao espectador desavisado. Trata-se de um filme claramente pensado para iniciados, para quem já conhece o humor, a lógica interna e o universo peculiar de Bruno Aleixo, personagem criado em 2008 e que se tornou um fenômeno de culto em Portugal. O longa não perde tempo contextualizando nada: logo de início, Bruno sofre um acidente, entra em coma e passa a revisitar memórias de natais passados. A narrativa assume esse fluxo caótico sem pedir licença, confiando que o público já esteja familiarizado com seus códigos. Nesse percurso onírico e afetivamente torto, surgem os já conhecidos companheiros de Aleixo: o Homem do Bussaco, Busto, Renato Alexandre, Dr. Ribeiro e Nelson, todos funcionando como extensões da mente do protagonista e, ao mesmo tempo, como catalisadores do humor ácido e autoconsciente da obra. O filme alterna momentos de nonsense absoluto com pequenas doses de melancolia, revelando um Natal menos sentimental e mais desconfortável, fiel ao espírito da série. O resultado é uma animação que dificilmente passa despercebida: ou se entra completamente na proposta ou se rejeita de imediato. No meu caso, funcionou muito bem: achei hilário, irreverente e coerente dentro da sua própria lógica. É divertido mas não é pra todo mundo.