22.12.25

“Copacabana Mon Amour” - Rogério Sganzerla (Brasil, 1970)

Sinopse:
Sônia Silk (Helena Ignez) trabalha como prostituta enquanto tenta virar cantora da Rádio Nacional. De tanto ouvir a mãe (Laura Galano) dizer que ela e o irmão (Otoniel Serra) são possuídos pelo demônio, Sônia procura um pai de santo (Joãozinho da Gomeia) para tentar quebrar o feitiço maligno que atua sobre os dois.
Comentário: Rogério Sganzerla (1946-2004) foi um cineasta, roteirista e produtor brasileiro. Sátira, absurdo, subversão narrativa e colagem foram marcas registradas de sua estética cinematográfica, que o tornou conhecido como um representante do Cinema Marginal, um movimento contracultural brasileiro dos anos 1960 e 1970. Ele foi fundador e figura central da Bel-Air Filmes, uma produtora/coletivo criada em 1970, no Rio de Janeiro, em parceria com Júlio Bressane e Helena Ignez. Na sua cinematografia constam filmes como “A Mulher de Todos” (1969), “Sem Essa, Aranha” (1970), “Tudo É Brasil” (1997) e “O Signo do Caos” (2003). Assisti dele a obra-prima "O Bandido da Luz Vermelha" (1968) e o documentário "Nem Tudo É Verdade" (1986). Desta vez vou conferir “Copacabana Mon Amour” (1970).
Isa Honório do site Hoje PR nos conta que “entre as favelas e a areia da praia mais famosa do mundo, e com um dos melhores loiros oxigenados do Brasil, o filme mostra o cinema nacional em todo o seu potencial.
Na história, a maravilhosa Helena Ignez volta às telonas na pele de Silvia Silk, que desfila entre a periferia onde mora e a calçada de Copacabana com seu icônico vestidinho vermelho. Enquanto sonha em ser cantora na Rádio Nacional, Silvia trabalha como garota de programa. Sua mãe (Laura Galano) acredita que tanto a protagonista, quanto seu irmão, um homem gay apaixonado pelo chefe, Sr. Grilo (Paulo Villaça), estão possuídos pelo demônio.
Não fez muito sentido. E nem vai fazer. Para combinar com os cenários psicodélicos do Rio de Janeiro de 50 anos atrás, o filme parece ser todo desfigurado. São cenas fora de ordem, frases repetidas – algumas clássicas como ‘tenho nojo de pobre’ – e acontecimentos absurdos em cena. Tudo com aquele jeitinho de direção de Sganzerla e seu Cinema Marginal, que domina a arte da sedução através da câmera.
Isso somado ao estado de conservação do filme, que não é dos melhores. Feito de forma independente pela produtora Belair, de Sganzerla, Helena e Júlio Bressane, o longa não foi lançado comercialmente na época (alô, Anos de Chumbo). Então, quando finalmente rolou a restauração dos negativos armazenados na Cinemateca Brasileira, as fitas de imagem e som estavam bem deterioradas. Uma pena. (...)
Outro símbolo de irreverência do filme é a trilha sonora. Gilberto Gil produziu a parada diretamente do exílio em Londres, sob encomenda do diretor. O destaque vai para a faixa ‘Mr. Sganzerla’, que toca várias e várias vezes. Entre esses e outros detalhes, ‘Copacabana Mon Amour’ é uma viagem. É um daqueles que você assiste e fica louco sem saber quando é para rir e quando é para levar a sério. E se faltam palavras minhas para descrever, empresto as de Sganzerla, o abacaxi-man: ‘É uma miscelânea alucinada de êxtases de todos os tipos. Uma novidade com câmera na mão em totalscope’”.
No elenco, além dos atores já citados, temos Lilian Lemmertz e Guará Rodrigues. A fotografia é de Renato Laclete e a montagem de Mair Tavares.
O que disse a crítica 1: Ahriel Spa do site Vertentes do Cinema avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: “Sganzerla estava preocupado com outras coisas, muito além de seguir cartilhas de movimentos, grupos ou se prender a costumes estéticos. Ele era um antropófago, que conseguia como ninguém retratar nas suas imagens toda a loucura e tensão que emanava da cidade do Rio de Janeiro daquela época”.
O que disse a crítica 2: Bruno Andrade do site Contracampo também foi elogioso. Escreveu: “Um espírito inquieto, inconformado por simplesmente não ter outra opção, a câmera CinemaScope na mão que lança um olhar dos morros sobre a metrópole distante, os mesmos morros que adotam o cinema de Rogério Sganzerla (e que são em contrapartida adotados por ele) em ‘Sem Essa Aranha’ e este filme. Disso tudo surge uma pulsão, uma vontade-cinema que nada – a censura oficial (e não-oficial); a situação do país; o contexto geográfico, cultural e político – pode diminuir. ‘Copacabana Mon Amour’ é um filme-cinema decisivo como antes dele foram ‘Cidadão Kane’, ‘Uma Aventura na Martinica’, ‘Casa de Bambu’ e ‘Shadows’. Para sempre Belair, para sempre Sganzerla”.
O que eu achei: Assistir à “Copacabana Mon Amour” (1970) de Rogério Sganzerla foi uma experiência completamente fora da caixa. A sinopse dá a entender que existe um argumento - Sônia Silk (Helena Ignez) trabalha como prostituta enquanto tenta virar cantora da Rádio Nacional e, de tanto ouvir a mãe (Laura Galano) dizer que ela e o irmão (Otoniel Serra) são possuídos pelo demônio, ela procura um pai de santo (Joãozinho da Gomeia) para tentar quebrar o feitiço maligno que atua sobre os dois. Tudo isso será de fato mostrado, porém estamos falando de Cinema Marginal, então o resultado pode ser bem diferente do que você pode estar esperando. Luiz Santiago do site Plano Crítico nos conta que esse movimento é fruto da contracultura dos anos 1960, possuindo "uma forma de pensamento debochada, despreocupada, dada a paródias de gêneros, pessoas e grupos sociais, além de abordar situações grotescas, sujas, pornográficas, imorais, burlescas/carnavalescas e violentas". Segundo ele, "para os diretores do Cinema Marginal, a estética - em qualquer tipo de apuro - não era exatamente uma preocupação: os filmes de baixo orçamento e o tipo de abordagem 'maldita e underground' formavam a base de condições que esses diretores tinham para trabalhar". Com muito pouca grana, aliás. É aqui que se inserem os longas da Bel-Air Filmes, produtora de Júlio Bressane, Rogério Sganzerla e Helena Ignez (que interpreta Sônia Silk). A transgressora casa produziu sete filmes, todos dentro dos parâmetros do Cinema Marginal, em diferentes níveis de estranheza. Em "Copacabana Mon Amour" o áudio é terrível, a qualidade da imagem muda entre colorido e preto e branco (filmava-se com o que se tinha a disposição), oras com foco oras sem, a luz muitas vezes é demais, às vezes de menos, com a história sendo contada de forma desconexa utilizando-se daquilo que o Cinema Marginal mais prezava: o mau gosto, o mal terminado, o sujo, o imoral e o excluído. Mais do que suscitar a simples dicotomia entre gostar ou não gostar, "Copacabana Mon Amour" se impõe como um dos experimentos mais radicais do cinema brasileiro. O filme expõe as favelas do Rio de Janeiro e a mística marginal do submundo de Copacabana filtradas por uma chanchada tropical delirante, suja e provocadora. Fuja para as montanhas se estiver à procura de um cinema 'bonitinho', bem-comportado ou confortável. E se jogue se estiver aberto a novas experiências, se for movido pela curiosidade histórica ou se, como todo cinéfilo de carteirinha, entender que o cinema também existe para desafiar, incomodar e expandir seus próprios limites. Atenção à trilha sonora de Gilberto Gil.