13.12.25

"Nem Tudo é Verdade (Welles Nô Brasil)" - Rogério Sganzerla (Brasil, 1986)

Sinopse:
O filme reconstitui a visita ao Brasil, em 1942, do cineasta americano Orson Welles para filmar o documentário "It's All True" (Tudo é Verdade), sobre a cultura brasileira. Movido por idealismo cívico e na trilha da chamada política da boa vizinhança implantada pelo presidente norte-americano Franklin Roosevelt, Welles fica fascinado pelo país e se perde em suas descobertas e experiências, deixando o projeto inacabado.
Comentário: Rogério Sganzerla (1946-2004) foi um cineasta, roteirista e produtor brasileiro. Sátira, absurdo, subversão narrativa e colagem foram marcas registradas de sua estética cinematográfica, que o tornou conhecido como um representante do Cinema Marginal, um movimento contracultural brasileiro dos anos 1960 e 1970. Ele foi fundador e figura central da Bel-Air Filmes, uma produtora/coletivo criada em 1970, no Rio de Janeiro, em parceria com Júlio Bressane e Helena Ignez. Na sua cinematografia constam filmes como “A Mulher de Todos” (1969), “Sem Essa, Aranha” (1970), “Tudo É Brasil” (1997) e “O Signo do Caos” (2003). Assisti dele a obra-prima "O Bandido da Luz Vermelha" (1968). Desta vez vou conferir o documentário "Nem Tudo é Verdade (Welles Nô Brasil)" (1986).
André Dib do site Cinerama nos conta que " É tudo verdade: Orson Welles esteve por seis meses no Brasil, filmando 'It’s all true'. Inicialmente a ação estava alinhada a chamada 'política de boa vizinhança', direcionada à América Latina durante a Segunda Grande Guerra. Era 1942 e Welles, aos 27 anos, já gozava de carreira respeitável no rádio, teatro e cinema. Tudo indicava que o filme seguinte a 'Cidadão Kane' seria um documentário sobre o samba carioca, se o enfant terrible não tivesse contrariado a vontade dos produtores, políticos e patrocinadores em reproduzir o discurso oficial. Caiu na boemia dos artistas e jornalistas e foi parar em Fortaleza, onde uma greve de jangadeiros mudou o rumo de um filme que nunca terminou.
De celebridade a persona non-grata, Welles voltou para casa demitido pelo estúdio RKO. Enquanto 'It’s all true' se tornaria apenas o primeiro de seus projetos inacabados, como a adaptação de 'Moby Dick', 'No Coração das Trevas' e 'Don Quixote', no Brasil, o genial primeiro fracasso ganhou proporções míticas, influenciando cineastas como Glauber Rocha, Rogério Sganzerla e Lírio Ferreira.
Nem tudo é verdade: ao investigar a tumultuada temporada de Welles no Brasil, o filme que Rogério Sganzerla fez sobre o filme que Orson Welles não fez, reafirma a transgressão narrativa e ideológica como elementos inseparáveis da criação cinematográfica. O diretor catarinense compõe como quem olha para o espelho e se vê no norte-americano, a enfrentar imposições financeiras e regimes autoritários para praticar seu ilusionismo. A máquina de filmar é o instrumento mais mentiroso já inventado pelo homem, diz a narração, embriagada.
Se a presença de Welles teve como pano de fundo a ditadura de Vargas e a Segunda Guerra Mundial, 'Nem Tudo é Verdade', realizado entre 1978 e 1986, coincide com o fim do regime militar e o advento da Nova República, proclamada sob a morte de Tancredo Neves. Sganzerla via na obra interditada um precursor dos inúmeros problemas de Welles com a censura e a burocracia. Para ele, o Brasil maltratou Orson Welles.
'O filme mostra o abuso de autoridade, a prepotência, a truculência e a ignorância subdesenvolvida', diz o diretor, em entrevista à Tribuna da Imprensa, em 14 de março de 1987. Vargas, o policial corrupto de 'A Marca da Maldade', é visto como uma referência direta ao presidente brasileiro.
O jogo de espelhos continua em estrutura que remete a 'Cidadão Kane' – o começo pelo fim (a morte do jangadeiro Jacaré, último ato antes do diretor retornar aos EUA), o tom radiofônico-informativo do cinejornal, para então passar e repassar cronologicamente a jornada de conquistas e derrotas. 'Sempre me considerei um vagabundo, um outsider em qualquer lugar do mundo', diz Welles, a certa altura, na voz do ator e músico Arrigo Barnabé.
Fotografias, áudios da época, fragmentos de filmes, situações encenadas. Mais do que reconstituição histórica, Sganzerla realiza um documentário investigativo / poético / reflexivo com recursos de ficção que permitem compartilhar a realidade específica do autor. Diante da ausência do material filmado (os rolos de 'It’s all true' foram descobertos pouco antes de finalizar a montagem), ele reorganiza os fatos sob o signo de elementos caros a qualquer tragédia: morte, paixões, abandono, traições e um pano de fundo bélico, interligados em uma miscelânea de arquivos sonoros, músicas, vozes embriagadas e leitura de registros jornalísticos em tom de programa policial. Não por acaso, o filme começa exclamando a data de nascimento de William Shakespeare, adorado por Welles.
O exercício de gêneros ficcionais se evidencia na encenação protagonizada por Arrigo Barnabé e Helena Ignez, espécie de caricatura da caricatura do deslumbramento vivido pelo artista gringo endeusado na colônia. E se completa no melodrama estabelecido em depoimento de Grande Otelo, brilhante testemunho da solidão dos trópicos a partir da saudade do amigo americano, a quem convoca a finalizar o filme do qual participou como ator.
Ao resgatar um sem número de frases ditas ou atribuídas a Welles, o filme molda a imagem do artista íntegro, cuja sensibilidade e observação o levaram à consciência social. 'Não vivemos à beira de um abismo, mas nas suas profundezas. Nenhuma crença ou filosofia de vida pode tocar as almas que ainda respiram sobre os escombros', diz, mais à frente, entre cenas da guerra.
A indomável relação entre ficção e realidade se desenrola sem intervalos, um fluxo fílmico e onírico em busca de olhos livres. Verdade + mentira = arte total, dizem Welles / Sganzerla. Apagam-se as fronteiras e, em última instância, predomina-se outra máxima, também trazida pelo filme: a verdade está no vinho".
O que disse a crítica1: Paulo Ricardo de Almeida do site Contracampo gostou. Disse: "Trata-se da qualidade mutante do gênio, que se desdobra em vários outros para dar conta não somente das múltiplas faces da realidade existente, como também das infinitas verdades a serem criadas pelo artista e pelo povo do qual aquele se alimenta. E essa simbiose entre Sganzerla, Welles e os brasileiros aponta para a desobediência radical contra a boçalidade reinante".
O que eu achei: Um achado esse documentário do Rogério Sganzerla sobre a vinda do grande ator e cineasta americano Orson Welles (1915-1985) ao Brasil. A visita ocorreu no ano de 1942. Estávamos em plena II Guerra Mundial e quem presidia o país era Getúlio Vargas. No ano anterior (1941) Welles havia lançado sua obra-prima "Cidadão Kane" que teve nove indicações ao Oscar e seu nome estava em alta não só nos EUA como no resto do mundo. Por conta disso o estúdio RKO – seguindo a chamada 'política de boa vizinhança' que os EUA direcionaram na época à América Latina – resolveu mandar o jovem promissor de 27 anos para cá para rodar um documentário sobre o samba carioca. As gravações começaram no Rio de Janeiro, mas como nos conta Sganzerla, ao invés de Welles se alinhar com o discurso oficial de seu país, ele começou a produzir rolos e rolos de filmes sobre 'favelas e negros rebolando' além de ter se interessado pela prática 'do vodu e da feitiçaria'. Jovem, ele caiu na boemia dos artistas e jornalistas e foi parar em Fortaleza, onde uma greve de jangadeiros mudou o rumo desse projeto de documentário que nunca terminou. Ocorre que, além do descontentamento da RKO com as imagens já citadas que Welles vinha produzindo, o cineasta resolveu filmar também a saga de um jangadeiro chamado Manuel Jacaré e seus companheiros, focando na luta dos pescadores cearenses por direitos trabalhistas. Só que essa história terminou em tragédia pois Jacaré morreu afogado durante as filmagens, o que o transformou num símbolo da exploração e da luta social. Aqui vale um parênteses, pois vale saber que toda essa história pode ser vista num documentário relativamente novo chamado "A Jangada de Welles" (2019) dos diretores Firmino Holanda e Petrus Cariry. Após esse incidente a RKO interrompeu o projeto, demitiu o Orson Welles e o tal documentário que se chamaria "It's All True" nunca foi finalizado. Sganzerla nos conta toda essa história reunindo fotos e vídeos da época, juntamente com dramatizações nas quais o compositor e cantor Arrigo Barnabé interpreta Orson Welles. No elenco há também Helena Ignez e declarações do ator Grande Otelo que participou ativamente do projeto do cineasta americano. O documentário todo é muito irreverente. Há uma passagem em especial que mostra as diversas latas de filmes rodados pelo Welles sendo jogadas no mar como se tudo tivesse sido destruído. Essa cena - e não só ela - justifica o título do filme "Nem Tudo É Verdade", já que no encerramento há uma nota do Sganzerla dizendo que 309 latas de filme que O.W. rodou por aqui foram encontradas em 1985 num depósito na Paramount. E sabe-se que, mais recentemente, ainda em 2025, novas filmagens inéditas de Welles no Brasil, especificamente em Ouro Preto, também foram encontradas nos arquivos da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Interessantíssimo.