
Comentário: Rogério Sganzerla (1946-2004) foi um cineasta, roteirista e produtor brasileiro. Sátira, absurdo, subversão narrativa e colagem foram marcas registradas de sua estética cinematográfica, que o tornou conhecido como um representante do Cinema Marginal, um movimento contracultural brasileiro dos anos 1960 e 1970. Ele foi fundador e figura central da Bel-Air Filmes, uma produtora/coletivo criada em 1970, no Rio de Janeiro, em parceria com Júlio Bressane e Helena Ignez. Na sua cinematografia constam filmes como “A Mulher de Todos” (1969), “Sem Essa, Aranha” (1970), “Tudo É Brasil” (1997) e “O Signo do Caos” (2003). Assisti dele a obra-prima "O Bandido da Luz Vermelha" (1968). Desta vez vou conferir o documentário "Nem Tudo é Verdade (Welles Nô Brasil)" (1986).
André Dib do site Cinerama nos conta que " É tudo verdade: Orson Welles esteve por seis meses no Brasil, filmando 'It’s all true'. Inicialmente a ação estava alinhada a chamada 'política de boa vizinhança', direcionada à América Latina durante a Segunda Grande Guerra. Era 1942 e Welles, aos 27 anos, já gozava de carreira respeitável no rádio, teatro e cinema. Tudo indicava que o filme seguinte a 'Cidadão Kane' seria um documentário sobre o samba carioca, se o enfant terrible não tivesse contrariado a vontade dos produtores, políticos e patrocinadores em reproduzir o discurso oficial. Caiu na boemia dos artistas e jornalistas e foi parar em Fortaleza, onde uma greve de jangadeiros mudou o rumo de um filme que nunca terminou.
De celebridade a persona non-grata, Welles voltou para casa demitido pelo estúdio RKO. Enquanto 'It’s all true' se tornaria apenas o primeiro de seus projetos inacabados, como a adaptação de 'Moby Dick', 'No Coração das Trevas' e 'Don Quixote', no Brasil, o genial primeiro fracasso ganhou proporções míticas, influenciando cineastas como Glauber Rocha, Rogério Sganzerla e Lírio Ferreira.
Nem tudo é verdade: ao investigar a tumultuada temporada de Welles no Brasil, o filme que Rogério Sganzerla fez sobre o filme que Orson Welles não fez, reafirma a transgressão narrativa e ideológica como elementos inseparáveis da criação cinematográfica. O diretor catarinense compõe como quem olha para o espelho e se vê no norte-americano, a enfrentar imposições financeiras e regimes autoritários para praticar seu ilusionismo. A máquina de filmar é o instrumento mais mentiroso já inventado pelo homem, diz a narração, embriagada.
Se a presença de Welles teve como pano de fundo a ditadura de Vargas e a Segunda Guerra Mundial, 'Nem Tudo é Verdade', realizado entre 1978 e 1986, coincide com o fim do regime militar e o advento da Nova República, proclamada sob a morte de Tancredo Neves. Sganzerla via na obra interditada um precursor dos inúmeros problemas de Welles com a censura e a burocracia. Para ele, o Brasil maltratou Orson Welles.
'O filme mostra o abuso de autoridade, a prepotência, a truculência e a ignorância subdesenvolvida', diz o diretor, em entrevista à Tribuna da Imprensa, em 14 de março de 1987. Vargas, o policial corrupto de 'A Marca da Maldade', é visto como uma referência direta ao presidente brasileiro.
O jogo de espelhos continua em estrutura que remete a 'Cidadão Kane' – o começo pelo fim (a morte do jangadeiro Jacaré, último ato antes do diretor retornar aos EUA), o tom radiofônico-informativo do cinejornal, para então passar e repassar cronologicamente a jornada de conquistas e derrotas. 'Sempre me considerei um vagabundo, um outsider em qualquer lugar do mundo', diz Welles, a certa altura, na voz do ator e músico Arrigo Barnabé.
Fotografias, áudios da época, fragmentos de filmes, situações encenadas. Mais do que reconstituição histórica, Sganzerla realiza um documentário investigativo / poético / reflexivo com recursos de ficção que permitem compartilhar a realidade específica do autor. Diante da ausência do material filmado (os rolos de 'It’s all true' foram descobertos pouco antes de finalizar a montagem), ele reorganiza os fatos sob o signo de elementos caros a qualquer tragédia: morte, paixões, abandono, traições e um pano de fundo bélico, interligados em uma miscelânea de arquivos sonoros, músicas, vozes embriagadas e leitura de registros jornalísticos em tom de programa policial. Não por acaso, o filme começa exclamando a data de nascimento de William Shakespeare, adorado por Welles.
O exercício de gêneros ficcionais se evidencia na encenação protagonizada por Arrigo Barnabé e Helena Ignez, espécie de caricatura da caricatura do deslumbramento vivido pelo artista gringo endeusado na colônia. E se completa no melodrama estabelecido em depoimento de Grande Otelo, brilhante testemunho da solidão dos trópicos a partir da saudade do amigo americano, a quem convoca a finalizar o filme do qual participou como ator.
Ao resgatar um sem número de frases ditas ou atribuídas a Welles, o filme molda a imagem do artista íntegro, cuja sensibilidade e observação o levaram à consciência social. 'Não vivemos à beira de um abismo, mas nas suas profundezas. Nenhuma crença ou filosofia de vida pode tocar as almas que ainda respiram sobre os escombros', diz, mais à frente, entre cenas da guerra.
A indomável relação entre ficção e realidade se desenrola sem intervalos, um fluxo fílmico e onírico em busca de olhos livres. Verdade + mentira = arte total, dizem Welles / Sganzerla. Apagam-se as fronteiras e, em última instância, predomina-se outra máxima, também trazida pelo filme: a verdade está no vinho".
O que disse a crítica1: Paulo Ricardo de Almeida do site Contracampo gostou. Disse: "Trata-se da qualidade mutante do gênio, que se desdobra em vários outros para dar conta não somente das múltiplas faces da realidade existente, como também das infinitas verdades a serem criadas pelo artista e pelo povo do qual aquele se alimenta. E essa simbiose entre Sganzerla, Welles e os brasileiros aponta para a desobediência radical contra a boçalidade reinante".
O que eu achei: Um achado esse documentário do Rogério Sganzerla sobre a vinda do grande ator e cineasta americano Orson Welles (1915-1985) ao Brasil. A visita ocorreu no ano de 1942. Estávamos em plena II Guerra Mundial e quem presidia o país era Getúlio Vargas. No ano anterior (1941) Welles havia lançado sua obra-prima "Cidadão Kane" que teve nove indicações ao Oscar e seu nome estava em alta não só nos EUA como no resto do mundo. Por conta disso o estúdio RKO – seguindo a chamada 'política de boa vizinhança' que os EUA direcionaram na época à América Latina – resolveu mandar o jovem promissor de 27 anos para cá para rodar um documentário sobre o samba carioca. As gravações começaram no Rio de Janeiro, mas como nos conta Sganzerla, ao invés de Welles se alinhar com o discurso oficial de seu país, ele começou a produzir rolos e rolos de filmes sobre 'favelas e negros rebolando' além de ter se interessado pela prática 'do vodu e da feitiçaria'. Jovem, ele caiu na boemia dos artistas e jornalistas e foi parar em Fortaleza, onde uma greve de jangadeiros mudou o rumo desse projeto de documentário que nunca terminou. Ocorre que, além do descontentamento da RKO com as imagens já citadas que Welles vinha produzindo, o cineasta resolveu filmar também a saga de um jangadeiro chamado Manuel Jacaré e seus companheiros, focando na luta dos pescadores cearenses por direitos trabalhistas. Só que essa história terminou em tragédia pois Jacaré morreu afogado durante as filmagens, o que o transformou num símbolo da exploração e da luta social. Aqui vale um parênteses, pois vale saber que toda essa história pode ser vista num documentário relativamente novo chamado "A Jangada de Welles" (2019) dos diretores Firmino Holanda e Petrus Cariry. Após esse incidente a RKO interrompeu o projeto, demitiu o Orson Welles e o tal documentário que se chamaria "It's All True" nunca foi finalizado. Sganzerla nos conta toda essa história reunindo fotos e vídeos da época, juntamente com dramatizações nas quais o compositor e cantor Arrigo Barnabé interpreta Orson Welles. No elenco há também Helena Ignez e declarações do ator Grande Otelo que participou ativamente do projeto do cineasta americano. O documentário todo é muito irreverente. Há uma passagem em especial que mostra as diversas latas de filmes rodados pelo Welles sendo jogadas no mar como se tudo tivesse sido destruído. Essa cena - e não só ela - justifica o título do filme "Nem Tudo É Verdade", já que no encerramento há uma nota do Sganzerla dizendo que 309 latas de filme que O.W. rodou por aqui foram encontradas em 1985 num depósito na Paramount. E sabe-se que, mais recentemente, ainda em 2025, novas filmagens inéditas de Welles no Brasil, especificamente em Ouro Preto, também foram encontradas nos arquivos da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Interessantíssimo.
De celebridade a persona non-grata, Welles voltou para casa demitido pelo estúdio RKO. Enquanto 'It’s all true' se tornaria apenas o primeiro de seus projetos inacabados, como a adaptação de 'Moby Dick', 'No Coração das Trevas' e 'Don Quixote', no Brasil, o genial primeiro fracasso ganhou proporções míticas, influenciando cineastas como Glauber Rocha, Rogério Sganzerla e Lírio Ferreira.
Nem tudo é verdade: ao investigar a tumultuada temporada de Welles no Brasil, o filme que Rogério Sganzerla fez sobre o filme que Orson Welles não fez, reafirma a transgressão narrativa e ideológica como elementos inseparáveis da criação cinematográfica. O diretor catarinense compõe como quem olha para o espelho e se vê no norte-americano, a enfrentar imposições financeiras e regimes autoritários para praticar seu ilusionismo. A máquina de filmar é o instrumento mais mentiroso já inventado pelo homem, diz a narração, embriagada.
Se a presença de Welles teve como pano de fundo a ditadura de Vargas e a Segunda Guerra Mundial, 'Nem Tudo é Verdade', realizado entre 1978 e 1986, coincide com o fim do regime militar e o advento da Nova República, proclamada sob a morte de Tancredo Neves. Sganzerla via na obra interditada um precursor dos inúmeros problemas de Welles com a censura e a burocracia. Para ele, o Brasil maltratou Orson Welles.
'O filme mostra o abuso de autoridade, a prepotência, a truculência e a ignorância subdesenvolvida', diz o diretor, em entrevista à Tribuna da Imprensa, em 14 de março de 1987. Vargas, o policial corrupto de 'A Marca da Maldade', é visto como uma referência direta ao presidente brasileiro.
O jogo de espelhos continua em estrutura que remete a 'Cidadão Kane' – o começo pelo fim (a morte do jangadeiro Jacaré, último ato antes do diretor retornar aos EUA), o tom radiofônico-informativo do cinejornal, para então passar e repassar cronologicamente a jornada de conquistas e derrotas. 'Sempre me considerei um vagabundo, um outsider em qualquer lugar do mundo', diz Welles, a certa altura, na voz do ator e músico Arrigo Barnabé.
Fotografias, áudios da época, fragmentos de filmes, situações encenadas. Mais do que reconstituição histórica, Sganzerla realiza um documentário investigativo / poético / reflexivo com recursos de ficção que permitem compartilhar a realidade específica do autor. Diante da ausência do material filmado (os rolos de 'It’s all true' foram descobertos pouco antes de finalizar a montagem), ele reorganiza os fatos sob o signo de elementos caros a qualquer tragédia: morte, paixões, abandono, traições e um pano de fundo bélico, interligados em uma miscelânea de arquivos sonoros, músicas, vozes embriagadas e leitura de registros jornalísticos em tom de programa policial. Não por acaso, o filme começa exclamando a data de nascimento de William Shakespeare, adorado por Welles.
O exercício de gêneros ficcionais se evidencia na encenação protagonizada por Arrigo Barnabé e Helena Ignez, espécie de caricatura da caricatura do deslumbramento vivido pelo artista gringo endeusado na colônia. E se completa no melodrama estabelecido em depoimento de Grande Otelo, brilhante testemunho da solidão dos trópicos a partir da saudade do amigo americano, a quem convoca a finalizar o filme do qual participou como ator.
Ao resgatar um sem número de frases ditas ou atribuídas a Welles, o filme molda a imagem do artista íntegro, cuja sensibilidade e observação o levaram à consciência social. 'Não vivemos à beira de um abismo, mas nas suas profundezas. Nenhuma crença ou filosofia de vida pode tocar as almas que ainda respiram sobre os escombros', diz, mais à frente, entre cenas da guerra.
A indomável relação entre ficção e realidade se desenrola sem intervalos, um fluxo fílmico e onírico em busca de olhos livres. Verdade + mentira = arte total, dizem Welles / Sganzerla. Apagam-se as fronteiras e, em última instância, predomina-se outra máxima, também trazida pelo filme: a verdade está no vinho".
O que disse a crítica1: Paulo Ricardo de Almeida do site Contracampo gostou. Disse: "Trata-se da qualidade mutante do gênio, que se desdobra em vários outros para dar conta não somente das múltiplas faces da realidade existente, como também das infinitas verdades a serem criadas pelo artista e pelo povo do qual aquele se alimenta. E essa simbiose entre Sganzerla, Welles e os brasileiros aponta para a desobediência radical contra a boçalidade reinante".
O que eu achei: Um achado esse documentário do Rogério Sganzerla sobre a vinda do grande ator e cineasta americano Orson Welles (1915-1985) ao Brasil. A visita ocorreu no ano de 1942. Estávamos em plena II Guerra Mundial e quem presidia o país era Getúlio Vargas. No ano anterior (1941) Welles havia lançado sua obra-prima "Cidadão Kane" que teve nove indicações ao Oscar e seu nome estava em alta não só nos EUA como no resto do mundo. Por conta disso o estúdio RKO – seguindo a chamada 'política de boa vizinhança' que os EUA direcionaram na época à América Latina – resolveu mandar o jovem promissor de 27 anos para cá para rodar um documentário sobre o samba carioca. As gravações começaram no Rio de Janeiro, mas como nos conta Sganzerla, ao invés de Welles se alinhar com o discurso oficial de seu país, ele começou a produzir rolos e rolos de filmes sobre 'favelas e negros rebolando' além de ter se interessado pela prática 'do vodu e da feitiçaria'. Jovem, ele caiu na boemia dos artistas e jornalistas e foi parar em Fortaleza, onde uma greve de jangadeiros mudou o rumo desse projeto de documentário que nunca terminou. Ocorre que, além do descontentamento da RKO com as imagens já citadas que Welles vinha produzindo, o cineasta resolveu filmar também a saga de um jangadeiro chamado Manuel Jacaré e seus companheiros, focando na luta dos pescadores cearenses por direitos trabalhistas. Só que essa história terminou em tragédia pois Jacaré morreu afogado durante as filmagens, o que o transformou num símbolo da exploração e da luta social. Aqui vale um parênteses, pois vale saber que toda essa história pode ser vista num documentário relativamente novo chamado "A Jangada de Welles" (2019) dos diretores Firmino Holanda e Petrus Cariry. Após esse incidente a RKO interrompeu o projeto, demitiu o Orson Welles e o tal documentário que se chamaria "It's All True" nunca foi finalizado. Sganzerla nos conta toda essa história reunindo fotos e vídeos da época, juntamente com dramatizações nas quais o compositor e cantor Arrigo Barnabé interpreta Orson Welles. No elenco há também Helena Ignez e declarações do ator Grande Otelo que participou ativamente do projeto do cineasta americano. O documentário todo é muito irreverente. Há uma passagem em especial que mostra as diversas latas de filmes rodados pelo Welles sendo jogadas no mar como se tudo tivesse sido destruído. Essa cena - e não só ela - justifica o título do filme "Nem Tudo É Verdade", já que no encerramento há uma nota do Sganzerla dizendo que 309 latas de filme que O.W. rodou por aqui foram encontradas em 1985 num depósito na Paramount. E sabe-se que, mais recentemente, ainda em 2025, novas filmagens inéditas de Welles no Brasil, especificamente em Ouro Preto, também foram encontradas nos arquivos da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Interessantíssimo.