11.3.25

“A Flauta Mágica” - Ingmar Bergman (Suécia, 1975)

Sinopse:
A Rainha da Noite (Birgit Nordin) oferece sua filha Pamina (Irma Urrila) a Tamino (Josef Köstlinger), um jovem andarilho encontrado na floresta pelo servo da rainha Papageno (Håkan Hagegård). Porém, para isso, Tamino precisa trazê-la de volta de Sarastro (Ulrik Cold), um sacerdote que só pratica o bem, alegando que ele a sequestrou. Ambicionando o poder de Sarastro, a Rainha da Noite oferece uma flauta mágica a Tamino e sinos mágicos a Papageno, enviando os dois nessa jornada.
Comentário: Ingmar Bergman (1919-2007) é um diretor de cinema sueco famoso pela abordagem psicológica que ele dá a seus filmes. Sua produção engloba em torno de uns 60 filmes. Assisti dele 21 filmes, dentre eles as obras-primas "O Sétimo Selo" (1957), "Morangos Silvestres" (1957), "Persona" (1966), "O Ovo da Serpente" (1977) e "Sonata de Outono" (1978) e a minissérie “Fanny e Alexander” (1982). Desta vez vou conferir “A Flauta Mágica” (1975), uma versão fílmica da ópera homônima de Wolfgang Amadeus Mozart.
Originalmente, essa ópera estreou em 1791 no Theater auf der Wieden em Viena. Dividida em dois atos, ela teve seu libreto (texto da ópera) assinado por Emanuel Schikaneder, companheiro de uma loja maçônica de Mozart. À época, por influência da Revolução Francesa (1789-1799), a maçonaria adquiria simpatizantes ao mesmo tempo que era perseguida. A ópera mostra a filosofia do Iluminismo, com os conceitos de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa transparecendo em vários momentos. Resumidamente, a ópera funciona como uma alegoria para as provações pelas quais o homem precisa passar para sair das trevas do pensamento medieval em direção à luz iluminista.
Essa ópera já teve inúmeras adaptações e uma delas foi essa versão fílmica feita em 1974 pelo Bergman.
Em uma resenha escrita por Tiago Mata Machado para o jornal Folha SP, o crítico chama a atenção para o fato de que Bergman tinha em torno de 12 anos quando viu essa ópera em Estocolmo pela primeira vez. Ele diz que “o projeto de montagem de ‘A Flauta Mágica’ começou nesse dia, quando, de volta a casa, o pequeno Bergman tentou recriar, com os amigos, no seu teatro de títeres, uma versão da ópera mozartiana. Sem dinheiro para comprar as gravações completas das músicas, abandonaram a ideia. Mais tarde, como assistente de encenador da ópera de Estocolmo, depois como diretor do Teatro Municipal de Malmö, Bergman voltou à carga, tentando, inutilmente, reeditar seu sonho de infância. Foi só no final dos anos 60 que o cineasta conseguiu impor o seu projeto à TV sueca (…)”.
Segundo Luiz Santiago do site Plano Crítico, “Apesar de ser mais uma variação interessante na filmografia de Bergman, essa filmagem de ‘A Flauta Mágica’ não causou espanto por si mesma. O diretor sempre foi amplamente conhecido como um ‘homem de teatro que fazia cinema’ e a própria década de 1970 marcaria um retorno cada vez maior do cineasta às suas atividades teatrais, tornando-se, inclusive, a tônica da maioria de seus filmes daí em diante. (...) Com algumas mudanças no libreto original de Emanuel Schikaneder, o diretor criou um dos mais bem-sucedidos filmes operísticos já feitos, tendo recebido uma indicação ao Oscar (Melhor Figurino), ao Globo de Ouro e ao César (Filme Estrangeiro) e vencido o BAFTA de Programa Estrangeiro (porque originalmente trata-se de um telefilme).
Bergman realiza uma adaptação que faz questão de chamar atenção para si mesma como um híbrido na forma, ou seja, uma ópera filmada em um teatro, mas estruturada e visualmente concebida para exibição na TV e depois no cinema. Desde a Abertura, vemos rostos na plateia antes de entrarmos na cena inicial da ópera, onde o príncipe Tamino (Josef Köstlinger) está em uma floresta, fugindo de um dragão, quando cai nas garras da criatura e é salvo pelas damas da Rainha da Noite (Birgit Nordin). (...)
A montagem abraça a fantasia e cria momentos de enorme conexão com o público, principalmente nos blocos engraçados e muito simpáticos com Papageno (Håkan Hagegård), tendo destaque o seu fantástico e icônico dueto com a amada Papagena (Elisabeth Erikson). O humor, o horror, a história de amor e a colocação da Fraternidade fazem o público caminhar pelos mais diversos sentimentos e expectativas para esses indivíduos, tendo aqui uma coisa muito importante que o próprio Bergman comentou em entrevista sobre a escolha dos atores: ele não buscou as vozes imensamente potentes dentro de cada grupo, mas focou na exigência dramática de cada um dos cantores”.
Na direção de fotografia está Sven Nykvist, parceiro recorrente de Bergman.
O que disse a crítica 1: Tiago Mata Machado, colaborador da Folha de SP, avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Disse: “Bergman não deixa de surpreender aqui pela modéstia. Sua obra é uma pequena ópera filmada: à montagem ele acrescenta só aquilo que ele considera a originalidade primeira e distintiva do cinema, a possibilidade de se aproximar do rosto humano. No fundo, Bergman só nos pede para reservar, ao seu pequeno espetáculo, um olhar (novo) de criança. Esse ‘espírito da infância’ ele compartilha com Mozart. Na sequência de abertura confundindo-se com o rosto da criança, surgiam, ligeiros, o rosto de Bergman e o retrato de Mozart. Dois artistas que pertenciam, como diria o cineasta, à categoria das ‘crianças crescidas’. Do encontro dos dois, em ‘A Flauta Mágica’, resulta uma mistura de conto de fadas mambembe e oratório maçônico”.
O que disse a crítica 2: Cassio Starling Carlos, crítico da Folha SP, avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “A maioria dos diretores [que resolvem adaptar óperas para o cinema] pensam em libertar os intérpretes e o canto do espaço cênico confinado os levando a cenários cinematográficos. Num golpe de gênio, Bergman faz o contrário. Encena quase todo o filme num palco e reduz o desconforto da teatralidade abolindo a distância que, no teatro, isola o espectador do drama. E faz isso recorrendo a um elemento que só o cinema possui: o primeiro plano. Assim, realiza um filme híbrido que em nenhum momento renega sua origem teatral e, ao mesmo tempo, ganha a clarividência das emoções que só o primeiro plano de cinema é capaz de proporcionar. Até mesmo o tradicional intervalo entre atos é recriado sem provocar estranheza. Em vez de o público sair para uma taça de vinho, pode observar os bastidores, onde uma intérprete fuma, outro ajeita o figurino. Ao voltar para o segundo ato, o ponto-de-vista é do fundo do palco, mais um lugar onde nenhum espectador se encontra. Como artista que respeita a grande obra alheia, Bergman guarda de Mozart o que a ópera tem de maior - a música - e metamorfoseia o resto em visões que expressam os mais frequentes temas de seu universo pessoal: a necessidade do amor, o desespero da solidão, o sentimento ambíguo em relação aos pais e o medo da morte”.
O que eu achei: Estava bem em dúvida se iria gostar ou não de assistir essa ópera de Mozart, originalmente cantada em alemão, numa versão sueca feita para a tv, na qual Bergman resolve filmar não só a apresentação em si - organizada e dirigida por ele mesmo -, mas também os rostos da plateia e os bastidores no intervalo com os atores-cantores descansando, lendo ou fumando, mas o resultado é tudo de bom. A história em si e as canções são muito agradáveis de acompanhar, pois na trama a rainha convoca dois rapazes – Tamino e Papageno – para saírem em busca de sua filha, sequestrada por Sarastro, um sacerdote do bem, que quer que a menina passe a morar com ele. Tudo com muita fantasia envolvida já que Tamino vai à luta levando uma flauta mágica enquanto Papageno utiliza sinos mágicos. Terminei de ver com aquela sensação de relaxamento na mente. O filme dura pouco mais de 2hs e é interessante de ser visto naquele dia estressante que você só quer se desligar do mundo ao redor. Um projeto único, totalmente diferente dos filmes habituais do Bergman. Vale ver.