
Comentário: Aki Kaurismäki (1957) é um roteirista, produtor de cinema e cineasta finlandês. Assisti dele o excelente “O Outro Lado da Esperança” (2017) e os bons "O Homem Sem Passado" (2001) e "O Porto" (2011).
Daniel Oliveira do site Terra nos diz que “Vivemos em uma cultura de descarte e desperdício. O princípio é que algo ou alguém se resume àquela parte sua que tem algum valor produtivo, suscetível de ser explorada até a obsolescência. O resto deve ser ignorado ou jogado fora. Quando essa parte se esgota ou expira, ela também deve ser descartada. É o capitalismo eficiente. Essas imagens de rejeito são recorrentes em 'Folhas de Outono', desde os produtos vencidos que Ansa (Alma Pöysti) joga fora no supermercado até os entulhos destinados à caçamba e à destruição nos canteiros de obra em que Holappa (Jussi Vatanen) trabalha. Contudo, a questão que o veterano cineasta finlandês Aki Kaurismäki realmente coloca em seu filme (...) é se esse casal de protagonistas, Ansa e Holappa, também se resume a seu valor produtivo. Se esses dois seres proletários, quase invisíveis, também existem apenas como máquinas numa linha de produção, com todos os demais aspectos de suas vidas devendo ser descartados e ignorados”.
Oliveira nos conta que a estrutura a estrutura do filme “É (...) de uma comédia romântica - e é exatamente isso que 'Folhas de Outono' é. Nos artifícios narrativos que separam o casal, como Holappa perder o número do telefone de Ansa anotado em um pedaço de papel, nos movimentos de câmera mínimos, apenas funcionais, e nos cortes secos, o longa de Kaurismäki é não só uma homenagem à fórmula clássica, mas especificamente um tributo aos grandes exemplares do gênero criados por Charles Chaplin, como 'Luzes da Ribalta' e 'Luzes da Cidade' – algo que fica bem explicitado na cena e no plano final do filme. O diretor finlandês, porém, não se resume a reproduzir essas referências. O aspecto mais interessante de 'Folhas' é que o que parece realmente interessar ao longa é questionar a ética da comédia romântica em tempos de capitalismo tardio. (...)
Nessa insistência da atrocidade e da barbárie interrompendo a rotina banal dos protagonistas, Kaurismäki parece perguntar-se (e a nós) sobre a moralidade do romance em tempos de guerra, de bombardeios de hospitais e genocídio de crianças. E ao fazer isso, ele questiona a própria ética da arte nos tempos atuais: qual a moralidade de contar a história de dois personagens brancos se apaixonando quando o mundo inteiro parece prestes a acabar, seja pela hecatombe bélica ou climática? A resposta é que nós precisamos de beleza. Precisamos manter e acreditar no valor intrínseco da arte, mesmo quando todo o resto da humanidade é uma linha de produção de feiura”.
Na trilha sonora, os títulos vão desde exemplares do cancioneiro pop finlandês até a apresentação da girl band Maustetytöt, cuja canção "Syntynyt suruun ja puettu pettymyksin" ("Nascida na tristeza e vestida de decepção", em tradução livre) resume a melancolia proletária do capitalismo tardio do longa.
O filme foi vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes.
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “o longa-metragem nos lembra da dificuldade de ser singelo, pequeno e humanista no cinema, quando a tendência do comportamento autoral resvala na grandiloquência ou auto importância. ‘Folhas de Outono’ representa um filme pequeno, curto, de poucos personagens, esparsas reviravoltas, cenários limitados. O cineasta prefere a fotogenia dos rostos tristes, ainda que nada piedosos (...), nas idas e vindas do trem. Assim, promove a fricção constante entre o humor e a melancolia; entre o afeto sutil e a política grotesca; entre a aproximação mínima entre duas pessoas e os acontecimentos bombásticos na Ucrânia. Ao passo que, lá fora, as pessoas se matam, se prendem e perseguem, se exploram e roubam, Kaurismäki reserva uma crença discretamente otimista na possibilidade de encontros, por mais triviais que sejam, entre os marginais perdidos pela multidão”.
O que disse a crítica 2: Bruno Ghetti da Folha SP avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: “Folhas de Outono” concentra “elementos típicos da obra do diretor que é quase uma súmula de todo o seu cinema. O cenário e as performances estilizadas, a melancolia finlandesa, a presença do álcool, o senso de autoironia e o uso do humor como escape para os problemas da vida – a mistura de observação social com ternura pelos personagens que tem feito de Kaurismäki o cineasta mais importante da Finlândia há décadas”. E completa dizendo: “Nada pior do que um cineasta que inventou um estilo e que, com o tempo, foi incapaz de escapar da fórmula criada por ele próprio, virando um prisioneiro de si mesmo. Não é o caso de Kaurismäki, que consegue sempre incluir algum elemento de frescor, de novidade, de uma paixão renovada àquilo que faz. Seu cinema continua tão ou mais admirável a cada novo filme”.
O que eu achei: Já assisti três filmes do Kaurismäki, este é o quarto e, em todos eles há uma coisa em comum que eu vou chamar de “melancolia finlandesa”. Então não espere histeria num filme do diretor, ele não tem pressa e nem interesse pela abundância, suas narrativas são quase monótonas. “Folhas de Outono” não é diferente. A trama se passa na atualidade – no rádio corre a notícia da Rússia atacando a Ucrânia -, mas não se vêem smartphones nem redes sociais e o casal que protagoniza a trama ainda anota números de telefones em papeizinhos e ainda vai ao cinema pra ver um filme de zumbis. O filme é discreto, o humor é quase inexpressivo, as palavras são poucas, o tempo é nublado, mas o recado é dado: enquanto houver amor, há esperança. Não é um tipo de cinema que agrada a todos, mas se quiser desacelerar, é uma boa pedida. Atenção à trilha sonora que mistura música finlandesa com Schubert, Tchaikovski e Carlos Gardel.
Daniel Oliveira do site Terra nos diz que “Vivemos em uma cultura de descarte e desperdício. O princípio é que algo ou alguém se resume àquela parte sua que tem algum valor produtivo, suscetível de ser explorada até a obsolescência. O resto deve ser ignorado ou jogado fora. Quando essa parte se esgota ou expira, ela também deve ser descartada. É o capitalismo eficiente. Essas imagens de rejeito são recorrentes em 'Folhas de Outono', desde os produtos vencidos que Ansa (Alma Pöysti) joga fora no supermercado até os entulhos destinados à caçamba e à destruição nos canteiros de obra em que Holappa (Jussi Vatanen) trabalha. Contudo, a questão que o veterano cineasta finlandês Aki Kaurismäki realmente coloca em seu filme (...) é se esse casal de protagonistas, Ansa e Holappa, também se resume a seu valor produtivo. Se esses dois seres proletários, quase invisíveis, também existem apenas como máquinas numa linha de produção, com todos os demais aspectos de suas vidas devendo ser descartados e ignorados”.
Oliveira nos conta que a estrutura a estrutura do filme “É (...) de uma comédia romântica - e é exatamente isso que 'Folhas de Outono' é. Nos artifícios narrativos que separam o casal, como Holappa perder o número do telefone de Ansa anotado em um pedaço de papel, nos movimentos de câmera mínimos, apenas funcionais, e nos cortes secos, o longa de Kaurismäki é não só uma homenagem à fórmula clássica, mas especificamente um tributo aos grandes exemplares do gênero criados por Charles Chaplin, como 'Luzes da Ribalta' e 'Luzes da Cidade' – algo que fica bem explicitado na cena e no plano final do filme. O diretor finlandês, porém, não se resume a reproduzir essas referências. O aspecto mais interessante de 'Folhas' é que o que parece realmente interessar ao longa é questionar a ética da comédia romântica em tempos de capitalismo tardio. (...)
Nessa insistência da atrocidade e da barbárie interrompendo a rotina banal dos protagonistas, Kaurismäki parece perguntar-se (e a nós) sobre a moralidade do romance em tempos de guerra, de bombardeios de hospitais e genocídio de crianças. E ao fazer isso, ele questiona a própria ética da arte nos tempos atuais: qual a moralidade de contar a história de dois personagens brancos se apaixonando quando o mundo inteiro parece prestes a acabar, seja pela hecatombe bélica ou climática? A resposta é que nós precisamos de beleza. Precisamos manter e acreditar no valor intrínseco da arte, mesmo quando todo o resto da humanidade é uma linha de produção de feiura”.
Na trilha sonora, os títulos vão desde exemplares do cancioneiro pop finlandês até a apresentação da girl band Maustetytöt, cuja canção "Syntynyt suruun ja puettu pettymyksin" ("Nascida na tristeza e vestida de decepção", em tradução livre) resume a melancolia proletária do capitalismo tardio do longa.
O filme foi vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes.
O que disse a crítica 1: Bruno Carmelo do site Meio Amargo avaliou com 4 estrelas, ou seja, ótimo. Escreveu: “o longa-metragem nos lembra da dificuldade de ser singelo, pequeno e humanista no cinema, quando a tendência do comportamento autoral resvala na grandiloquência ou auto importância. ‘Folhas de Outono’ representa um filme pequeno, curto, de poucos personagens, esparsas reviravoltas, cenários limitados. O cineasta prefere a fotogenia dos rostos tristes, ainda que nada piedosos (...), nas idas e vindas do trem. Assim, promove a fricção constante entre o humor e a melancolia; entre o afeto sutil e a política grotesca; entre a aproximação mínima entre duas pessoas e os acontecimentos bombásticos na Ucrânia. Ao passo que, lá fora, as pessoas se matam, se prendem e perseguem, se exploram e roubam, Kaurismäki reserva uma crença discretamente otimista na possibilidade de encontros, por mais triviais que sejam, entre os marginais perdidos pela multidão”.
O que disse a crítica 2: Bruno Ghetti da Folha SP avaliou com 5 estrelas, ou seja, obra-prima. Disse: “Folhas de Outono” concentra “elementos típicos da obra do diretor que é quase uma súmula de todo o seu cinema. O cenário e as performances estilizadas, a melancolia finlandesa, a presença do álcool, o senso de autoironia e o uso do humor como escape para os problemas da vida – a mistura de observação social com ternura pelos personagens que tem feito de Kaurismäki o cineasta mais importante da Finlândia há décadas”. E completa dizendo: “Nada pior do que um cineasta que inventou um estilo e que, com o tempo, foi incapaz de escapar da fórmula criada por ele próprio, virando um prisioneiro de si mesmo. Não é o caso de Kaurismäki, que consegue sempre incluir algum elemento de frescor, de novidade, de uma paixão renovada àquilo que faz. Seu cinema continua tão ou mais admirável a cada novo filme”.
O que eu achei: Já assisti três filmes do Kaurismäki, este é o quarto e, em todos eles há uma coisa em comum que eu vou chamar de “melancolia finlandesa”. Então não espere histeria num filme do diretor, ele não tem pressa e nem interesse pela abundância, suas narrativas são quase monótonas. “Folhas de Outono” não é diferente. A trama se passa na atualidade – no rádio corre a notícia da Rússia atacando a Ucrânia -, mas não se vêem smartphones nem redes sociais e o casal que protagoniza a trama ainda anota números de telefones em papeizinhos e ainda vai ao cinema pra ver um filme de zumbis. O filme é discreto, o humor é quase inexpressivo, as palavras são poucas, o tempo é nublado, mas o recado é dado: enquanto houver amor, há esperança. Não é um tipo de cinema que agrada a todos, mas se quiser desacelerar, é uma boa pedida. Atenção à trilha sonora que mistura música finlandesa com Schubert, Tchaikovski e Carlos Gardel.