
Comentário: Jacques Tati (1907-1982) foi um cineasta e ator francês que ficou famoso graças aos seus filmes que abordam o conflito entre pessoas com o mundo moderno mecanizado. Foi ele quem escreveu e estrelou todos os filmes que dirigiu. Já assisti dele a obra-prima "Playtime" (1967), os excelentes "As Férias do Sr. Hulot" (1953) e "Meu Tio" (1958) e o bom "Carrossel da Esperança" (1948).
José Geraldo Couto do site IMS nos conta que “As Aventuras de Mr. Hulot no Tráfego Louco” (1971) foi o último filme feito por Jacques Tati. Nele, “Tati combina magistralmente duas linhas de força desenvolvidas em suas obras anteriores: o contraste entre uma França ancestral, semirrural, e o capitalismo industrial avançado; e o esgarçamento da narrativa cronológica, consecutiva, por meio de uma profusão de digressões. Em resumo, trata-se de levar a um salão internacional do automóvel em Amsterdã o protótipo de uma perua-camping projetada para a Altra Motors pelo criativo engenheiro Hulot. O filme tem então dois focos narrativos: a viagem do caminhão que transporta o carro para o salão; e a montagem da exposição propriamente dita. Uma série de contratempos (pneu furado, fim do combustível, problemas com a polícia de fronteira, etc.) faz dessa jornada que deveria durar algumas horas um road movie inusitado que se arrasta por vários dias, a ponto de quase jogar para o segundo plano o objetivo final da viagem. É uma mudança de perspectiva que chega a lembrar o conto ‘A Autoestrada do Sul”, de Cortázar, que inspirou vagamente o “Week-End à Francesa’ (1967) de Godard. Nessa narrativa episódica e dispersiva, reencontramos os tempos distendidos de uma França à margem do progresso industrial e da eficiência tecnológica. Enquanto os executivos da Altra se descabelam no estande vazio da empresa no salão de Amsterdã, Hulot, seu motorista (Marcel Fraval) e a descolada relações-públicas Maria (Maria Kimberly) envolvem-se num sem-número de incidentes e confusões à beira da estrada. Tudo se reconfigura ou, para usar uma palavra em voga, se ressignifica. A demonstração das qualidades da perua-camping que deveria ser feita no salão acaba se dando num posto da polícia holandesa de fronteira. Obra digna de um professor Pardal, o conjunto de engenhocas prodigiosas do carro, como a grade do motor que vira uma grelha de churrasco, ou a buzina que se transforma num acendedor, proporciona uma sequência antológica, comparável à do restaurante virado de pernas para o ar em ‘Playtime’. Mas qualquer descrição é empobrecedora. Senhor absoluto de seus meios, Tati conforma tudo (cenografia, enquadramento, mímica, ritmo, ruídos) a uma reconstrução musical e coreográfica do mundo. É uma visão ao mesmo tempo poética e subversiva, crítica e amorosa, cruel e melancólica, a mostrar que até mesmo o absurdo tem sua beleza”.
O que disse a crítica: Conrado Heoli do site Papo de Cinema achou excelente. Escreveu: “O derradeiro filme de Tati como Hulot segue a estrutura familiar de seus percussores, que antecipam o destino do personagem e evidenciam que se trata apenas de uma questão de tempo para que ele, assim como o espectador, conquiste seu objetivo final. Mas o que move o protagonista é o que realmente interessa, e desta vez suas desventuras seguem o fluxo veloz dos automóveis que preenchem a tela, iluminados não só por suas próprias suas luzes arrítmicas, mas essencialmente pelo magnetismo de Tati/Hulot”.
O que eu achei: Sempre que vejo um filme do Jacques Tati com seu eterno personagem Monsieur Hulot me lembro imediatamente de Charles Chaplin e seu Carlitos, ambos diretores-atores e donos de um personagem que se confunde com eles mesmos. Seu estilo inconfundível, cheio de gestos e ruídos, faz de seus filmes algo um tanto engraçado que, assim como Chaplin, não necessita de muitas palavras para nos fazer rir. “As Aventuras de Mr. Hulot no Tráfego Louco” é mais um bom título na filmografia do diretor francês, mas fica aquém da obra-prima "Playtime" (1967) ou dos excelentes "As Férias do Sr. Hulot" (1953) e "Meu Tio" (1958), que eu já assisti inúmeras vezes. Em todos o que prepondera é sempre a gozação com o progresso e a modernidade, com ênfase nos sons e nos perrengues que esse progresso nos traz. Este que aborda o mundo dos automóveis não é diferente. Uma pena que o sr. Hulot - que desta vez encarna um designer de carros - apareça em cena menos do que a relações-públicas da empresa automobilística Maria (estrelada por Maria Kimberly). Ainda assim é uma boa pedida, um filme que vale ser visto.
José Geraldo Couto do site IMS nos conta que “As Aventuras de Mr. Hulot no Tráfego Louco” (1971) foi o último filme feito por Jacques Tati. Nele, “Tati combina magistralmente duas linhas de força desenvolvidas em suas obras anteriores: o contraste entre uma França ancestral, semirrural, e o capitalismo industrial avançado; e o esgarçamento da narrativa cronológica, consecutiva, por meio de uma profusão de digressões. Em resumo, trata-se de levar a um salão internacional do automóvel em Amsterdã o protótipo de uma perua-camping projetada para a Altra Motors pelo criativo engenheiro Hulot. O filme tem então dois focos narrativos: a viagem do caminhão que transporta o carro para o salão; e a montagem da exposição propriamente dita. Uma série de contratempos (pneu furado, fim do combustível, problemas com a polícia de fronteira, etc.) faz dessa jornada que deveria durar algumas horas um road movie inusitado que se arrasta por vários dias, a ponto de quase jogar para o segundo plano o objetivo final da viagem. É uma mudança de perspectiva que chega a lembrar o conto ‘A Autoestrada do Sul”, de Cortázar, que inspirou vagamente o “Week-End à Francesa’ (1967) de Godard. Nessa narrativa episódica e dispersiva, reencontramos os tempos distendidos de uma França à margem do progresso industrial e da eficiência tecnológica. Enquanto os executivos da Altra se descabelam no estande vazio da empresa no salão de Amsterdã, Hulot, seu motorista (Marcel Fraval) e a descolada relações-públicas Maria (Maria Kimberly) envolvem-se num sem-número de incidentes e confusões à beira da estrada. Tudo se reconfigura ou, para usar uma palavra em voga, se ressignifica. A demonstração das qualidades da perua-camping que deveria ser feita no salão acaba se dando num posto da polícia holandesa de fronteira. Obra digna de um professor Pardal, o conjunto de engenhocas prodigiosas do carro, como a grade do motor que vira uma grelha de churrasco, ou a buzina que se transforma num acendedor, proporciona uma sequência antológica, comparável à do restaurante virado de pernas para o ar em ‘Playtime’. Mas qualquer descrição é empobrecedora. Senhor absoluto de seus meios, Tati conforma tudo (cenografia, enquadramento, mímica, ritmo, ruídos) a uma reconstrução musical e coreográfica do mundo. É uma visão ao mesmo tempo poética e subversiva, crítica e amorosa, cruel e melancólica, a mostrar que até mesmo o absurdo tem sua beleza”.
O que disse a crítica: Conrado Heoli do site Papo de Cinema achou excelente. Escreveu: “O derradeiro filme de Tati como Hulot segue a estrutura familiar de seus percussores, que antecipam o destino do personagem e evidenciam que se trata apenas de uma questão de tempo para que ele, assim como o espectador, conquiste seu objetivo final. Mas o que move o protagonista é o que realmente interessa, e desta vez suas desventuras seguem o fluxo veloz dos automóveis que preenchem a tela, iluminados não só por suas próprias suas luzes arrítmicas, mas essencialmente pelo magnetismo de Tati/Hulot”.
O que eu achei: Sempre que vejo um filme do Jacques Tati com seu eterno personagem Monsieur Hulot me lembro imediatamente de Charles Chaplin e seu Carlitos, ambos diretores-atores e donos de um personagem que se confunde com eles mesmos. Seu estilo inconfundível, cheio de gestos e ruídos, faz de seus filmes algo um tanto engraçado que, assim como Chaplin, não necessita de muitas palavras para nos fazer rir. “As Aventuras de Mr. Hulot no Tráfego Louco” é mais um bom título na filmografia do diretor francês, mas fica aquém da obra-prima "Playtime" (1967) ou dos excelentes "As Férias do Sr. Hulot" (1953) e "Meu Tio" (1958), que eu já assisti inúmeras vezes. Em todos o que prepondera é sempre a gozação com o progresso e a modernidade, com ênfase nos sons e nos perrengues que esse progresso nos traz. Este que aborda o mundo dos automóveis não é diferente. Uma pena que o sr. Hulot - que desta vez encarna um designer de carros - apareça em cena menos do que a relações-públicas da empresa automobilística Maria (estrelada por Maria Kimberly). Ainda assim é uma boa pedida, um filme que vale ser visto.