31.12.23

“Batem à Porta” - M. Night Shyamalan (EUA/China, 2023)

Sinopse:
Durante as férias em uma cabana remota, uma jovem (Kristen Cui) e seus pais Eric (Ben Aldrige) e Andrew (Jonathan Groff) são feitos reféns por quatro estranhos armados (Dave Bautista, Rupert Grint, Nikki Amuka-Bird e Abby Quinn) que exigem que a família faça uma escolha impensável para evitar o apocalipse.
Comentário: M. Night Shyamalan (1970) é um cineasta indiano, naturalizado norte-americano. Sua produção é cheia de altos e baixos. É dele a obra-prima “O Sexto Sentido” (1999), os ótimos "A Vila" (2004), "A Visita" (2015) e “Fragmentado” (2017) e os bons "Fim dos Tempos" (2008), "Corpo Fechado" (2000) e “Tempo” (2021). Mas também são dele o mediano "A Dama na Água" (2006) e os péssimos "O Último Mestre do Ar" (2010) e "Vidro" (2019).
“Batem à Porta” é inspirado no livro "O Chalé do Fim do Mundo" de Paul Tremblay. Matheus Mans do site Entretelas escreveu: “Pense que você saiu em férias, com sua família, e alugou um chalé afastado de tudo e de todos. Quer uns dias para você, para descansar e ficar com os seus. Até que, do nada, um grupo de quatro pessoas invade o chalé e avisa: um de vocês precisa morrer para evitar o fim do mundo. Essa é a trama de ‘Batem à Porta’, novo filme de suspense de M. Night Shyamalan (...). Gravado quase inteiramente em um único cenário, o filme é uma história minimalista de catástrofe e do fim do mundo. A trama, assim como aconteceu no mundo todo durante a pandemia do coronavírus, se desenvolve em um ambiente fechado, único, enclausurado. Os personagens sabem do final do mundo (ou seria um hipotético apocalipse?) pela televisão, pela janela de casa. Ele nunca chega perto como uma ameaça. É, assim, um retrato bem diferente do que estamos acostumados a ver sobre o que é o final do mundo, da vida, da humanidade. Shyamalan, nesse recorte, se retrai, se encolhe e, assim, leva o medo do fim de uma forma bem distinta. É uma experiência diferente e que, por isso mesmo, pode causar reações de amor e ódio na audiência do longa. Afinal, mais do que ser um filme sobre fim do mundo, ‘Batem à Porta’ consegue trazer o que há de melhor no livro de Paul Tremblay: uma reflexão metafísica sobre fé, existência e sociedade. Shyamalan pinça essa história, assim como pinçou os quadrinhos de ‘Tempo’, como uma forma de comentar sobre o que nossa sociedade se tornou. Uns contra os outros, sem acreditar exatamente no que os outros dizem - tampouco em algo que nos mova. É uma provocação de Shyamalan, que nos leva a pensar sobre nossa existência e, quem sabe, o significado de estarmos aqui, vivos. Será que devemos desconfiar do outro? E, apesar dos vários acertos do filme, que já está sendo comparado ao fracasso de ‘Fim dos Tempos’, ‘Batem à Porta’ é inegavelmente mais um filme polêmico de M. Night Shyamalan”.
O que disse a crítica: Pedro Sales do site Vertentes do Cinema avaliou com 3 estrelas, ou seja, bom. Escreveu: “’Batem à Porta’ traz Shyamalan em um terreno seguro, com grande potencial de boa recepção (de crítica e público). A questão central do longa, às vezes, se repete - algo natural em razão do cenário reduzido. Ainda assim, é um tema rico e que, mesmo martelado em demasia, leva o espectador a se questionar o que faria estando no mesmo lugar. O ‘retorno’ do cineasta, por assim dizer, ultrapassa a temática apocalíptica e catastrófica de obras anteriores, caminha pelo embate entre crença e ceticismo e se encerra como um bom exercício do suspense, gênero que foi para o diretor fonte de ruína e também de glória”.
André Zuliani do site Tangerina avaliou com 4,5 estrelas, ou seja, excelente. Disse: “Em ‘Batem à Porta’ não há vilões de fato, um antagonista que foge à regra dos outros e tenta sobrepor a sua vontade. Todos os personagens são humanos com virtudes e falhas, sonhos e decepções. A ameaça apocalíptica conversa com a esperança nas pessoas e faz uma provocação: a humanidade merece ser salva? O sacrifício é válido? Entre jogos de tensão e dramas comoventes, Shyamalan mescla gêneros com excelência e faz de ‘Batem à Porta’ um de seus clássicos definitivos. Como é bom ver o cineasta de volta em sua melhor forma”.
O que eu achei: Desde “O Sexto Sentido” (1999), cada filme que vejo do Shyamalan fico esperando outra obra-prima, mas ainda não foi desta vez. De qualquer maneira, “Batem à Porta” não é uma desgraça. A premissa de quatro pessoas invadindo um chalé anunciando o fim do mundo é meio repetitiva, a família que os recebe formada por um casal americano homoafetivo e uma criança asiática não. A ideia, sem explicação, de que um dos membros da família precisa ser sacrificado para isso não ocorrer também traz um certo déjà-vu, o questionamento se uma sociedade homofóbica e tão cheia de defeitos merece ser salva, não. Com isso a trama traz um frescor ou, pelo menos, uma atualização. O final, relativamente previsível, difere do livro cuja conclusão é menos óbvia e mais trágica. É um filme sobre ceticismo, crença, incerteza. Não é o melhor nem o pior filme de Shyamalan, mas ver o fim do mundo nas mãos de um casal gay faz tudo valer a pena.