26.12.23

“Neruda” - Pablo Larraín (Chile/Argentina/França/Espanha/EUA, 2016)

Sinopse:
No final da década de 1940, um inspetor (Gael García Bernal) persegue o poeta chileno Pablo Neruda (Luis Gnecco), ganhador do Prêmio Nobel, por ter se juntado ao Partido Comunista.
Comentário: Pablo Larraín é um diretor, produtor e roteirista de cinema chileno. Assisti dele o excelente "O Clube" (2015) - indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e ao Globo de Ouro -, o bom “Spencer” (2021) e o mediano "Ema" (2019).
Para quem não sabe, Pablo Neruda (1904-1973) foi um poeta chileno, considerado um dos mais importantes escritores em língua castelhana. O site Sua Pesquisa nos traz uma biografia resumida de Neruda contando que ele nasceu em 1904, na cidade de Parral, no Chile. Seu pai era operário ferroviário e a mãe era professora primária. "Seu nome era verdadeiro era Neftalí Ricardo Reyes Basoalto. Ele perdeu a mãe no momento do nascimento. Em 1906, a família muda-se para a cidade de Temuco. Neruda começa a estudar por volta dos sete anos no Liceu para Meninos da cidade. Ainda em fase escolar, publica seus primeiros poemas no jornal ‘La Manãna’. No ano de 1920, começa a contribuir com a revista literária ‘Selva Austral’, já utilizando o pseudônimo de Pablo Neruda (homenagem ao poeta tcheco Jan Neruda e ao francês Paul Verlaine). Em 1921, passa morar na cidade de Santiago do Chile e estuda pedagogia no Instituto Pedagógico da Universidade do Chile. Em 1923 publica ‘Crepusculário” e no ano seguinte ‘Vinte poemas de amor e uma canção desesperada’, já com uma forte marca do Modernismo (conjunto de movimentos artísticos e literários da primeira metade do século XX). No ano de 1927, começa sua carreira diplomática, após ser nomeado cônsul na Birmânia. Em seguida passa a exercer a função no Sri Lanka, Java, Singapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri. Nestas viagens, conhece diversas pessoas importantes do mundo cultural. Em Buenos Aires, conheceu Garcia Lorca e, em Barcelona, Rafael Alberti. Em 1930, casa-se com María Antonieta Hagenaar, divorciando-se em 1936. Logo após começou a viver com Delia de Carril, com quem se casou em 1946, até o divórcio em 1955. Em 1966, casou-se novamente, agora com Matilde Urrutia. Em 1936, explode a Guerra Civil Espanhola. Comovido com a guerra e com o assassinato do amigo Garcia Lorca, compromete-se com o movimento republicano. Na França, em 1937, escreve ‘Espanha no coração’. Retorna neste ano para o Chile e começa a produzir textos com temáticas políticas e sociais. No ano de 1939, é designado cônsul para a imigração espanhola em Paris e pouco tempo depois cônsul geral do México. Neste país escreve ‘Canto Geral do Chile’, considerado um poema épico sobre as belezas naturais e sociais do continente americano. Em 1943, é eleito senador da República. Comovido com o tratamento repressivo que era dado aos trabalhadores de minas, começa a fazer vários discursos, criticando o presidente González Videla. Passa a ser perseguido pelo governo, exilado na Europa. Em 1952, publica ‘Os versos do capitão’ e dois anos depois ‘As uvas e o vento’. Recebe o prêmio Stalin da Paz em 1953. Em 1965, recebe o título honoris causa da Universidade de Oxford (Inglaterra). Em outubro de 1971, recebe o Prêmio Nobel de Literatura. Durante o governo do socialista Salvador Allende, é designado embaixador na França. Doente, retorna para o Chile em 1972. Em 23 de setembro do ano seguinte, morre de câncer de próstata na Clínica Santa Maria de Santiago (Chile)".
O filme se passa em 1948. Nesse momento ele está casado com Delia de Carril e já ocupa o cargo de senador da República. Filiado ao Partido Comunista, a ideia é ocupar o Palácio de La Moneda e governar o país junto com campesinos e operários. Por conta disso, o governo coloca um inspetor de polícia no seu encalço e Neruda precisará fugir para não ser preso.
Marcelo Müller do site Papo de Cinema nos conta que “o filme retrata a perseguição verídica ao poeta Pablo Neruda (Luis Gnecco) no fim dos anos 1940, mas valendo-se de uma chave essencialmente lírica, não se atendo demasiado aos acontecimentos tal e qual eles se deram. Ao ‘trair’ deliberadamente a sisudez factual, o cineasta Pablo Larraín dá ares de poesia à trama, aproximando-se do universo em que o protagonista se fez gigante. Essa inclinação vertiginosa pela estrita ficção como instância de potência simbólica parte da escolha do narrador, principalmente pela forma dele se colocar frequentemente em estado de fascinação diante daquele que deve por obrigação capturar. Óscar (Gael García Bernal) é o inspetor moldado, enquanto personagem, para soar propositalmente como uma caricatura saída dos romances policiais baratos que tanto divertiam o fugitivo em meio às suas aventuras clandestinas pelo Chile. Para Larraín, a lei, então representada pelo filho bastardo do meretrício, é digna de zombaria, mas guarda as tragédias que acabam lhe dando poder”. E completa dizendo: “’Neruda’ não é propriamente uma cinebiografia, ao menos não no sentido tradicional”.
O que disse a crítica: Inácio Araújo da Folha SP não gostou. Disse: “Larraín dribla o político para privilegiar o, digamos, poético-policial. Perde-se algo com isso, certamente: aspectos políticos e históricos, decisivos no caso, passam a plano bem secundário, sacrificados ao carisma de Neruda e ao seu mito”.
Brian Formo do site Collider gostou muito. Publicou: “Quando a narrativa se revela não biográfica, ‘Neruda’ ainda consegue retratar a alma de um poeta, dar nova vida ao detetive, comentar as loucuras do governo chileno na época e brincar com gêneros como um escritor certamente gostaria de fazer”.
O que eu achei: Longe de um filme biográfico o que temos é um recorte da vida de Neruda que começa sendo uma perseguição com a polícia em seu encalço, por conta de sua filiação ao partido comunista, mas que acaba como uma emocionante, delirante e poética fuga pela Cordilheira dos Andes rumo à França. O poeta declara seus poemas, frequenta bordéis e eventos da elite com sua esposa Delia e faz do policial Óscar, interpretado pelo Gael Garcia Bernal, algo como um “personagem criado pelo poeta”, como que saído das páginas de seus livros. Ou seja, realidade vira ficção e vice-versa. Então, como disse a crítica, não espere uma descrição fiel aos acontecimentos, mas sim uma espécie de filme-poesia. Larraín se arrisca nessa abordagem não convencional e, claro, não vai agradar a todos. Mais um bom filme do diretor que vale ser visto.