24.12.23

“Império da Luz” - Sam Mendes (Reino Unido/EUA, 2022)

Sinopse:
Década de 1980. O Empire é um glorioso cinema antigo na costa sul da Inglaterra. Funcionária dedicada do local, Hilary (Olivia Colman) não vê os filmes e não tem uma vida fácil, mas encontra um novo ânimo com a chegada de Stephen (Micheal Ward), rapaz negro que entra para a equipe e imediatamente a conquista.
Comentário: Sam Mendes é um diretor de cinema e teatro britânico. Assisti dele 5 filmes: os ótimos "Beleza Americana" (1999), "Estrada para Perdição" (2002) e "Foi Apenas um Sonho" (2008); o bom "1917" (2019) e o mediano "Soldado Anônimo" (2005).
A Agência France Press através do jornal Estado de Minas nos conta que “Criado por uma mãe com problemas mentais, o cineasta britânico Sam Mendes afirma que o teatro e o cinema foram sua verdadeira família na juventude. Uma realidade complexa que ele mostra em seu novo filme ‘Império da Luz’ (...). O elenco reúne Olivia Colman, Micheal Ward, Toby Jones e Colin Firth. ‘Não cresci em uma família funcional. Então, as famílias que conheci na juventude foram o teatro, o cinema e o esporte, os times pelos quais joguei’, lembra o diretor, de 57 anos. ‘Império da Luz’, que concorreu ao Oscar de melhor fotografia (...), conta a história de uma mulher bipolar de meia-idade (Hilary) que administra, da melhor maneira possível, um cinema em uma pequena cidade litorânea britânica no final dos anos 1970. O chefe tem um caso extraconjugal com ela. Apenas a equipe do cinema a apoia, até que a chegada de um novo funcionário, um jovem negro, vira sua vida de cabeça para baixo. ‘Neste filme, o cinema é uma espécie de encruzilhada para pessoas, gerações, que de outra forma nunca se veriam. E eu adoro isso. Essa é definitivamente a minha experiência’, explica. (...) Sam Mendes reconhece que havia chegado o momento de abordar essa parte decisiva de seu passado. ‘Ela era uma boa mãe, cheia de energia, cheia de vida. Mas ela tinha aquela doença... ela ficava louca, loucamente feliz’, explica ele. ‘Ela não conseguia dormir, começava a ter alucinações. Era levada ao hospital e medicada. Quando voltava, tinha engordado, tinha perdido a autoestima. E o ciclo recomeçava’, narra o diretor. Filho de pais divorciados, Mendes passou a infância entre a casa da mãe e a do pai. ‘Comecei a entender que ela estava doente, que era um ciclo, quando cheguei à adolescência. Mas quando você é criança, tudo desmorona a cada crise’. Segundo o cineasta, essas experiências o ‘transformaram em um observador, alguém reservado e que se preocupa com os outros’. Mendes começou a escrever roteiros e dirigir seus primeiros trabalhos ainda como estudante. Comandar uma equipe de filmagem, ou uma companhia de teatro, não é muito diferente de cuidar de alguém com problemas, diz. ‘É tudo uma questão de observar e controlar, sabe? Você constrói um universo alternativo que, ao contrário da sua vida, você pode controlar’, acrescenta ele, rindo”.
A locação utilizada para rodar “Império da Luz” é um cinema chamado Dreamland que fica em Margate, na Inglaterra. Esse cinema foi inaugurado em 1923. Fechou durante a Segunda Guerra Mundial e reabriu em 1946, funcionando até 2007. Ele ainda existe pois seu edifício foi tombado e, portanto, não pode ser demolido sem aprovação parlamentar. Para fazer o filme, o interior do cinema teve que ser remodelado e a sinalização Dreamland teve que ser temporariamente substituída por Empire, que é o nome do cinema no filme.
O que disse a crítica: Célio Silva do site G1 escreveu: “'Império da Luz' mistura cinema e relações sociais em filme bonito, porém superficial. (...) Isso acontece porque Mendes quer tratar de diversos assuntos, como solidão, melancolia, racismo, machismo, entre outros temas de uma vez só e não obtém maior aprofundamento. Tudo fica bem superficial e não dá para o espectador refletir muito sobre o que está acontecendo na telona”.
Caio Coletti do site Omelete deu três estrelas, ou seja, bom. Ele diz: “Mendes passa muito perto de fazer dos distúrbios psíquicos de Hillary um espetáculo grotesco, e várias vezes recorre a clichês cansados quando se aproxima da questão do racismo através do personagem de Stephen (Michael Ward). Ambientado nos anos 1980 e intermitentemente focado no ressurgimento de movimentos neonazistas no Reino Unido durante esta época, além de um sentimento anti-imigração intenso incentivado pelo governo de Margaret Thatcher, o filme passa perto demais de ser a típica história hollywoodiana que vê o preconceito de fora para dentro. Entretanto o trabalho de fotografia feito por Roger Deakins e as atuações de Olivia Colman e Michael Ward salvam o espetáculo”.
O que eu achei: O filme é de uma delicadeza tocante. Por um lado isso é uma grande qualidade, alimentada não só pela forma como ele mostra uma pessoa com algum distúrbio mental, mas também pela trilha sonora assinada por Trent Reznor e Atticus Ross que foge dos exageros. Por outro lado, como disse a crítica, o excesso de temas - solidão, melancolia, racismo nos anos 80 na Inglaterra, skinheads, machismo - não permite o aprofundamento. Mesmo assim é um filme belo, com uma fotografia lindíssima assinada por Roger Deakins, bastante agradável de assistir. Nada do nível de "Beleza Americana" (1999), "Estrada para Perdição" (2002) ou "Foi Apenas um Sonho" (2008), mas ainda assim, um filme prazeroso, um poema em forma de cinema.