21.12.23

“Meu Nome é Gal” – Dandara Ferreira & Lô Politi (Brasil, 2023)

Sinopse:
Cinebiografia da cantora Gal Costa (Sophie Charlotte). O filme acompanha a trajetória de Maria da Graça Costa Penna Burgos. Sempre tímida quando criança, ela decidiu se arriscar e se mudar para o Rio de Janeiro aos 20 anos de idade. Coincidentemente, em uma das cidades mais bonitas do país, a cantora acaba encontrando amigos como Caetano Veloso (Rodrigo Lélis), Maria Bethânia (Dandara Ferreira), Gilberto Gil (Dan Ferreira) e Dedé Gadelha (Camila Márdila), que acompanham os primeiros passos de Gal na música profissional no final da década de 1960. Com os amigos ajudando a dar o empurrão na carreira de Gal, ela precisará enfrentar a timidez, mas à medida que vai se soltando ela, junto com outros artistas, formam o movimento da Tropicália.
Comentário: Dandara Ferreira e Lô Politi são duas cineastas brasileiras. Dandara Ferreira dirigiu a série “O Nome Dela é Gal” (2016) e Lô Politi dirigiu “Jonas” (2015), “Alvorada” (2021) - feito em parceria com Anna Muylaert - e “Sol” (2022). Este é o primeiro filme que vejo delas.
“Meu Nome é Gal” (2022) é a primeira cinebiografia da cantora Gal Costa (1945-2022). Luísa Pécora do Itaú Cultural nos conta que em 2016 a diretora Dandara Ferreira dirigiu uma série documental em 4 episódios chamado “O Nome Dela é Gal” com depoimentos de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Luiz Melodia, Djavan e Tom Zé, dentre outros, entremeados por diversas imagens de arquivo e longas entrevistas com a própria Gal. “Pouco tempo após a estreia (a série foi exibida pela HBO Max), Gal contou à cineasta que havia sido procurada por pessoas interessadas em transformar sua história em um longa de ficção. Ela preferia, no entanto, que o projeto ficasse nas mãos de Dandara, com quem já tinha estabelecido relação de confiança e amizade. Dandara aceitou a proposta e começou a desenvolver o projeto com Lô Politi (...), que entrou como produtora e, depois, diretora e roteirista. O texto, assinado também por Maíra Buhler e Mirna Nogueira, se baseou na pesquisa feita para a série e em encontros que Maíra teve com Gal e pessoas próximas a ela para discutir questões específicas. Gal também aprovou a escolha de Sophie Charlotte para interpretá-la após tê-la visto cantar ‘Sua Estupidez’ ao lado de Roberto Carlos em um especial de fim de ano. Segundo Dandara, a cantora reconheceu na atriz um timbre próximo ao dela e a ‘doçura no olhar’ de quando era mais jovem. Para compor a personagem, Sophie se encontrou com Gal, foi a shows, fez aulas de canto e violão, estudou o momento histórico retratado pelo filme, passou uma temporada na Bahia e trabalhou com a preparadora de elenco Amanda Gabriel. ‘Busquei ter o maior espectro possível de abordagens, entendimentos e pesquisas, sem me fechar num método ou caminho preconcebido. O processo foi guiando o processo’, definiu a atriz. Estão no filme todos os principais parceiros de Gal na época, incluindo Caetano Veloso (vivido por Rodrigo Lelis), Gilberto Gil (Dan Ferreira), Dedé Gadelha (Camila Márdila), Guilherme Araújo (Luis Lobianco), Waly Salomão (George Sauma) e Maria Bethânia, esta interpretada pela própria Dandara Ferreira. Para criar a intimidade que deveria transparecer na tela, os atores ficaram semanas juntos em uma casa em Cotia, na Região Metropolitana de São Paulo. Alguns diálogos criados nos ensaios foram incorporados ao roteiro, que passou por diversos tratamentos. ‘É uma personagem com muitos conflitos internos, algo difícil de colocar na tela’, disse Dandara. ‘Foi preciso tempo para amadurecer o texto e entender como contar essa história’. (...) A morte da cantora, em novembro do ano passado, provocou apenas duas alterações no longa: a inclusão de uma homenagem nos créditos e a decisão de utilizar algumas gravações originais, e não apenas a voz de Sophie Charlotte cantando ao vivo. ‘Sentimos que as pessoas estavam querendo ouvir a Gal’, justificou Dandara Ferreira, que não chegou a mostrar o filme à biografada. ‘Todo mundo foi pego de surpresa com a partida dela, e o filme acabou ganhando outro significado, [tornando-se] uma forma de as pessoas matarem um pouco a saudade’.”
O que disse a crítica: Luiz Santiago do site Plano Crítico avaliou com 2 estrelas, ou seja, ruim. Escreveu: “O tropeço em ‘Meu Nome é Gal’ vem na concepção da biografia, que funciona como uma colagem de curtas-metragens e pseudo-clipes musicais. (...) Chega um ponto em que nos perguntamos: onde está a história do filme? E não, o filme não tem, de fato, uma história. O roteiro (...) explora o conceito de ‘criação e amadurecimento de uma artista’, trabalha alguns fatos isolados, mas absolutamente todas cenas encerram-se em si mesmas. Não há um entrelaçamento progressivo de um assunto que ganha corpo, é fortalecido e conclui-se. A costura feita pela montagem é apenas conceitual, na esteira da já citada ideia de amadurecimento de uma jovem mulher e seu engajamento político através da arte, em pleno Brasil de ditadura empresarial-militar. Isso, porém, é feito com uma coletânea de momentos musicais e dramatização de eventos que não se extrapolam. Dá-se assim a ideia de um longa que junta acontecimentos isolados da vida de Gal Costa, e para por aí. Melhor seria ter produzido um documentário com cenas dramatizadas!”
Aline Pereira do site Adoro Cinema avaliou com 3,5 estrelas, ou seja, bom. Disse: “De forma geral, talvez tenha faltado a ‘Meu Nome é Gal’ uma pausa para dar mais detalhes sobre o que levou sua protagonista ao estrelato - não é que os 60 anos de carreira precisem ganhar resumo, mas é provável que o longa tenha muito mais apelo com quem já é fã do que com aqueles que cheguem à obra para conhecer a cantora. Temos, assim, uma história que funciona mais como uma homenagem a Gal e se esse era o objetivo, o trabalho foi cumprido: não há dúvidas de [que ela é] um dos maiores legados da cultura brasileira”.
O que eu achei: O filme abrange a carreira da Gal no período que começa em 1966, quando ela chega no Rio de Janeiro, e termina em 1971 quando ela já é um sucesso. Tudo dentro do contexto do regime militar no Brasil, incluindo-se aí os anos que Caetano e Gil tiveram que se exilar na Inglaterra. Achei bem interessante um trecho que mostra a escolha do nome artístico da cantora batizada Maria da Graça Costa Penna Burgos. Quando finalmente decidiram que seu nome artístico seria Gal Costa a reação de Caetano e de outros integrantes da trupe foi a de que esse nome seria associado ao General Costa e Silva, mas Gal gostou e acabaram todos concordando que era um bom nome. Claro que o filme tem um recorte específico já que não caberiam, em 2hs, 60 anos de carreira dessa excepcional cantora. Então, apesar de faltar muita coisa, o período retratado funciona bem, prendendo a atenção até o final e emocionando a todos com a interpretação de músicas tão conhecidas. No final, enquanto sobem os créditos, é possível contemplar diversas cenas de arquivo mostrando a própria Gal cantando. Fãs de Gal vão curtir com certeza pois Sophie Charlotte dá conta do recado. Uma homenagem mais que merecida para esta cantora ímpar que nos deixou em 2022.