4.12.23

“Estranha Forma de Vida” - Pedro Almodóvar (Espanha/França, 2023)

Sinopse:
Depois de 25 anos, Silva (Pedro Pascal) atravessa o deserto a cavalo para visitar seu amigo, o xerife Jake (Ethan Hawke). Eles comemoram o encontro, mas na manhã seguinte Jake diz a ele que o motivo de sua viagem não é para lembrar a amizade deles.
Comentário: Pedro Almodóvar é um cineasta, ator e argumentista espanhol. Seus filmes são marcados pelo melodrama, possuem irreverência, humor, cores ousadas, decoração brilhante, citações da cultura popular e complexas narrativas. Desejo, paixão, família e identidade estão entre os temas mais frequentes. Assisti dele 12 filmes, dentre eles os ótimos "A Lei do Desejo" (1986), “Kika” (1993), "A Flor do Meu Segredo" (1995), “Abraços Partidos" (2009), "A Pele que Habito" (2011), "Os Amantes Passageiros" (2013), "Julieta" (2016), o curta “A Voz Humana” (2020) e “Madres Paralelas” (2021).
“Estranha Forma de Vida” é um curta-metragem com 31 minutos de duração. Aline Pereira do site Adoro Cinema nos conta que “Em 2005, ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ chegou aos cinemas como uma revolução no gênero de filmes de faroeste: Jake Gyllenhaal e Heath Ledger estrelaram um drama que se tornou um marco na representação de romances LGBTQIA+, ao mesmo tempo em que o diretor Ang Lee e os roteiristas Larry McMurtry e Diana Ossana, conquistaram seus respectivos troféus no Oscar. Tudo isso deve ter ficado na mente de Pedro Almodóvar: na época, o aclamado diretor recusou o convite para dirigir o longa por acreditar que não teria liberdade criativa o suficiente para contar a história que queria. Pois bem, quase duas décadas depois, sua resposta veio literalmente a cavalo e ele, enfim, contou a história que queria em ‘Estranha Forma de Vida’.
O filme começa com um hipnotizante Manú Rios [ator, cantor e modelo espanhol que trabalhou na série ‘Elite’ da Netflix] cantando em silêncio o fado português intitulado ‘Estranha Forma de Vida’, lindo e melancólico na voz de Caetano Veloso. A música, que fala de saudade e solidão, dá o tom da história de 30 minutos estrelada por Ethan Hawke e Pedro Pascal, justamente no ano em que ‘The Last of Us’ o tornou a maior celebridade (e paizão) da televisão - sem dúvida, aliás, um fator decisivo na divulgação enorme comparada a outros curtas e médias-metragens recentes. No Festival de Cannes 2023, por exemplo, a sessão do filme de Almodóvar foi uma das mais disputadas. Vemos, então, a chegada de Silva (Pedro Pascal) à cidade protegida pelo xerife Jake (Ethan Hawke). Os dois são velhos conhecidos que ficaram afastados durante 25 anos e, agora, se reencontram em circunstâncias trágicas: houve uma morte na cidade. Silva tem uma ligação com o acontecimento e Jake está na missão de solucionar o caso. O obstáculo: eles eram – ainda são? – apaixonados um pelo outro. ‘Em ‘Brokeback Mountain’, o personagem de Jake Gyllenhaal diz a Heath Ledger que eles deviam ir embora e trabalhar em um rancho. Heath diz ‘o que dois homens fariam no oeste, trabalhando em um rancho?’. De muitas formas, sinto que meu filme é uma resposta para isso’, disse Almodóvar em entrevista ao The New York Times”.
O que disse a crítica: Marcelo Hessel do site Omelete deu duas estrelas, ou seja, regular. Escreveu: “Para Julio Cortázar, um dos mestres latino-americanos do conto, uma maneira de diferenciar o romance desses textos mais curtos é que o romance frequentemente se encarrega de apresentar problemas, para então buscar solucioná-los. ‘Já os contos nunca ou quase nunca são problemáticos’, disse o escritor, para quem os contos são antes experiências autocontidas de um tipo de arrebatamento. Numa equivalência com os curtas-metragens, dá pra dizer que ‘Estranha Forma de Vida’ funciona melhor como conto: é um filme bom em sugerir um estado de espírito ou uma comoção, e não tão bom para lidar com problemáticas”.
Lúcia Monteiro da Folha de SP deu nota três, ou seja, bom. Disse: “Produzido pela marca de alta costura Yves Saint Laurent e com uma duração incomum para filmes que estreiam no cinema, o curta se aparenta - em mais de um aspecto - como peça publicitária. O figurino, a cargo de Anthony Vaccarello, atual diretor criativo da Yves Saint Laurent, se faz presente na imagem. (...) Na balança do cinema, sempre equilibrando arte e diversão, é verdade que o aspecto de entretenimento se sobrepõe. De fato, ‘Estranha Forma de Vida’ não parece ser a obra da vida do cineasta espanhol. Ainda assim, é um grande prazer ver seu gênio mobilizar referências e ativar a sensualidade de dois grandes atores nesse amor entre dois homens tão elegantes e irresistíveis, inclusive pela tristeza que talvez tentem esconder”.
O que eu achei: Foi no mínimo curioso ler comentários de pessoas que foram ao cinema ver o filme e saíram decepcionadas da sala dizendo que o filme "só tinha 31 minutos" e o resto era uma entrevista com o Almodóvar. Sim, veja preparado pois o filme é um curta, assim como “A Voz Humana” feito em 2020. Se eu for comparar os dois, gostei mais do anterior, mas este não chega a ser ruim. O problema aqui é que, como ocorre na maioria dos curtas-metragens, a hora que parece que a coisa vai engrenar, o filme acaba. Você termina de assistir com aquela sensação de ter visto a primeira parte de um filme ou o episódio  inicial de um seriado. Mas a história é bacana, começa logo com uma linda interpretação de Caetano Veloso cantando “Estranha Forma de Vida”, nome do fado que dá título ao filme, composta em 1962 por Alfredo Rodrigo Duarte e Amália Rodrigues. Não é a primeira vez que Almodóvar usa em seus filmes canções interpretadas pelo Caetano. Já vimos isso em “A Flor do Meu Segredo” (1995) e em “Fale com Ela” (2002). Outras qualidades do filme são a fotografia impecável e a subversão de clichês e estereótipos ligados ao cinema western. O defeito é que o filme é curto demais. Você termina de assistir com aquele gostinho de quero mais.