28.11.23

“O Jardim dos Prazeres” – Alfred Hitchcock (Reino Unido/Alemanha, 1925)

Sinopse:
Patsy (Virginia Valli) e Jill (Carmelita Geraghty) trabalham como dançarinas em uma casa chamada Pleasure Garden. Elas namoram Levett (Miles Mander) e Hugh (John Stuart), soldados britânicos que cuidam de colônias nos Trópicos. Quando eles viajam a trabalho, Jill se deslumbra com o dinheiro ganho como dançarina e se esquece facilmente de Hugh. Patsy também terá que rever seu relacionamento com Levett.
Comentário: Alfred Hitchcock (1899-1980) foi um diretor e produtor cinematográfico britânico. Amplamente considerado um dos mais reverenciados e influentes cineastas de todos os tempos, Hitchcock foi eleito pelo The Telegraph o maior diretor da história da Grã-Bretanha e, pela Entertainment Weekly, o maior do cinema mundial. Conhecido como "Mestre do Suspense", dirigiu em torno de 53 longas-metragens ao longo de seis décadas de carreira, parte dela na Inglaterra, parte nos EUA. Tornou-se também famoso também por conta das frequentes aparições em seus filmes e pela apresentação do programa "Alfred Hitchcock Presents" (1955-1965). Assisti dele 32 filmes, dentre eles as obras-primas "Os Pássaros" (1936), "Festim Diabólico" (1948), "Janela Indiscreta" (1954), "Um Corpo Que Cai" (1958) e "Psicose" (1960) e os ótimos: "O Inquilino" (1927), "Chantagem e Confissão" (1929), "Sabotagem" (1936), "Jovem e Inocente" (1937), "A Dama Oculta" (1938), "A Sombra de Uma Dúvida" (1943), "Interlúdio" (1946), "Pacto Sinistro" (1951), "Disque M para Matar" (1954), "O Homem Que Sabia Demais" (1956), “Intriga Internacional” (1959) e "Frenesi" (1972). Desta vez vou conferir “O Jardim dos Prazeres” (1925).
Baseado no livro “The Pleasure Garden” de Oliver Sandys é considerado o primeiro filme do cineasta. Antes disso ele só havia trabalhado como desenhista de intertítulos, diretor de arte, editor ou assistente de direção. O drama britânico-alemão é mudo e trata da história de duas coristas do Pleasure Garden Theatre, em Londres e seus relacionamentos conturbados.
O site Wikipédia nos conta que foi Michael Balcon - um executivo da Gainsborough Pictures - quem concebeu a ideia de "importar" estrelas americanas muito antes de qualquer outra pessoa. Foi ele que contratou Virginia Valli para o papel principal. Ela estava no auge de sua carreira - glamorosa, famosa e muito popular. O fato de ela ir à Europa para fazer um filme era uma espécie de acontecimento.
“O filme foi rodado na Itália (Alassio , Gênova e Lago de Como) e na Alemanha. Muitos infortúnios se abateram sobre o elenco e a equipe técnica. Quando Gaetano Ventimiglia, o diretor de fotografia do filme , não declarou o estoque do filme às autoridades alfandegárias italianas, a equipe teve que pagar multas e comprar novo filme, esgotando gravemente seu orçamento.
Pela única vez em uma produção britânica de Hitchcock, as duas atrizes principais, Virginia Valli e Carmelita Geraghty, eram americanas.
O filme foi rodado em 1925 e exibido brevemente em Londres em abril de 1926. Mas não foi lançado oficialmente no Reino Unido até janeiro de 1927, pouco antes do terceiro filme de Hitchcock, ‘O Pensionista’, se tornar um sucesso. (...)
Em junho de 2012, ‘O Jardim dos Prazeres’ e outros oito filmes mudos de Hitchcock foram restaurados pelo British Film Institute. Como resultado, 20 minutos de cenas faltantes foram adicionadas a este filme, incluindo ‘a coloração atmosférica do período’.
Uma nova partitura foi encomendada para restauração pelo jovem compositor britânico Daniel Patrick Cohen e foi apresentada ao vivo com o filme muitas vezes em todo o mundo”.
O que disse a crítica 1: Luiz Santiago do site Plano Crítico não gostou. Avaliou como ruim. Escreveu: “a inexperiência de Hitchcock atrás das câmeras e um roteiro que não ajudava muito fizeram deste longa-metragem (...) um melodrama um tanto ousado no toque libidinoso, mas de baixa qualidade geral. (...) A obra traz ainda alguns defeitos próprios do cinema mudo, como o congelamento dos atores por alguns segundos nas cenas dramáticas, ou mesmo a interpretação afetada em momentos de grande dor ou forte expressão sentimental. O único que se livra disso é o ótimo Miles Mander, que interpreta Levett, o vilão do filme. Sua atitude enlouquecida após a doença contraída no além-mar é incrível; uma pena que o roteiro tenha lhe dado um final patético, assim como deu à ligação amorosa de Patsy com o ex-noivo de Jill. Em termos técnicos, podemos até selecionar alguns pontos que já delineavam as opções de imagem ou entretenimento desenvolvidos no futuro por Hitchcock (o toque indiscreto obtido através da montagem, no início do filme, é o principal deles), mas pouco sobra além disso. Um elemento aqui presente e que realmente vale a citação é o uso de sobreposição da imagem de uma nativa morta por Levett reaparecendo como um fantasma. Embora destoe do núcleo geral do filme, essa opção mostra a coragem que o diretor tinha para fazer experimentações, algo que seria uma pedra angular de sua carreira. (...) ‘O Jardim dos Prazeres’ é um filme ruim, mas não uma bomba imprestável. Falta à película a dose certa entre o entretenimento e a qualidade da história que se está narrando. Definitivamente não parece o primeiro longa de um gênio, mas é um filme que definitivamente vale a pena assistir a fim de se comprovar os primeiros passos nada firmes de um futuro Mestre do cinema”.
O que disse a crítica 2: Rafael Amaral do site Palavras de Cinema também não gostou. Disse: “Há alguns poucos momentos felizes no primeiro filme dirigido inteiramente por Alfred Hitchcock, ‘O Jardim dos Prazeres’. No melhor deles, duas moças despem-se em quadros diferentes; ao centro, o cineasta estabelece um terceiro, no qual vemos suas peças de roupas unirem-se em tela, o único ‘toque’ possível entre as damas, uma sugestão erótica. Fica por aí. De resto, entre efeitos cômicos e nacos de melodrama, o realizador em nascedouro não sabe que caminho tomar. É uma experimentação sem ousadia, a busca de um jovem cineasta pela forma que não encontra, pela unidade que com muito custo se faz, pela emoção que não sentimos”.
O que eu achei: Foi um achado encontrar este que é considerado o primeiro filme de Hitchcock. Antes desse, conta-se que ele até começou a dirigir um chamado “Number 13”, que data de 1922, mas ele não foi concluído, então “Jardim dos Prazeres” acabou sendo considerado o primeiro dele na direção. Claro que, por ser o primeiro, padece de alguns problemas aqui e ali, pela falta de traquejo do diretor inexperiente. Por ser mudo podemos observar algumas interpretações exageradas numa história simples que flerta com o melodrama. O curioso é ver a ousadia de Hitchcock em, logo na primeira película, fazer uma sobreposição de imagens ao mostrar o fantasma de uma nativa recém falecida na trama. Com certeza não é o melhor filme do mestre do suspense, mas vale pra ver como tudo começou.