
Comentário: Hlynur Pálmason (1984) é um diretor de cinema e roteirista islandês. Ele começou sua carreira como artista visual e depois se formou como cineasta na Escola Nacional de Cinema da Dinamarca. Em 2017, dirigiu seu primeiro longa-metragem, “Irmãos do Inverno” (2017), que recebeu nove prêmios do cinema dinamarquês, incluindo melhor diretor e melhor filme. O filme concorreu em Locarno, onde ganhou quatro prêmios. Seu próximo trabalho, “Um Dia Muito Claro” (2019), foi apresentado na Semana da Crítica de Cannes. “Terra de Deus” (2022) é o primeiro filme que vejo dele.
Carson Lund do site Slant nos conta que a obra de Hlynur Pálmason oferece algumas características já delineadas: “seus filmes situam protagonistas masculinos em ambientes áridos e hostis e depois catalogam exaustivamente os processos pelos quais esses homens se desvendam e se tornam enigmáticos ao ponto do insondável. Ao longo do caminho, há sempre surtos de violência, confirmações da crueldade e indiferença da natureza, além de figuras femininas cujas auras de pureza não conseguem evitar o inexorável declínio do líder para um comportamento antissocial”. Segundo ele, isso já foi visto em “Irmãos do Inverno” (2017) e em “Um Dia Muito Claro” (2019) e agora é observado em “Terra de Deus” (2022). “Se a trajetória de suas histórias parece previsível, a direção de Pálmason quase nunca o faz, e esse é certamente o caso quando ‘Terra de Deus’ faz a transição de uma igreja na Dinamarca para o interior da Islândia e, finalmente, para uma vila remota nesta nação insular. No centro desta expedição está Lucas (Elliott Crosset Hove), um padre designado para fazer a árdua jornada além-mar e construir uma igreja para o povo nativo. Ele é baseado em uma figura histórica real que explorou a costa sudeste da Islândia através da fotografia, e a inspiração é responsável pelo quadro 4:3 de bordas arredondadas (...), ambos emulando as primeiras fotografias em placas úmidas”.
Mas será que o padre Lucas teria mesmo existido fotografando a Islândia no século 19? O site Cineuropa, que entrevistou o diretor, indagou Pálmason sobre isso, ao que ele respondeu: “Contei à minha equipe, elenco e também aos meus financiadores sobre essa descoberta mas, na verdade, é uma peça de ficção que criei quando estava escrevendo para estimular meus sentidos. Durante muito tempo pensei em não mencionar isso no filme, mas no final senti que, como me inspirei nessa criação, o espectador também deveria saber. E agora nós realmente temos as fotos - nós as fabricamos com o processo de placas úmidas, de forma autêntica, como teriam sido feitos naquela época”.
O que disse a crítica: Francisco Carbone do site Cenas de Cinema achou excelente. Escreveu: “’Terra de Deus’, que se anuncia tão plácido e absorto em imagens de teor puro, vai perdendo esse caráter límpido em sua argamassa. Aos poucos, o que temos é um filme de crescente estado de tensão, onde Deus faz cada vez menos diferença, e o Homem parece ganhar sempre uma guerra que ele mesmo inicia. Não há saída para o que está estabelecido na formação humana, que destoa em absoluto do que a ordem civil determinou. Fica a certeza de que o atraso e a luta contra o fundamentalismo é uma faca que não sabe que lado corta; eventualmente, fere a todos”.
Peter Bradshaw do site The Guardian deu nota máxima. Disse: “A aridez é transformada em beleza e depois em terror neste filme extraordinário do realizador islandês Hlynur Pálmason sobre um pastor dinamarquês do século XIX enviado para estabelecer uma nova igreja na remota costa sudeste da Islândia. Saí do cinema atordoado e exultante com sua arte; é de tirar o fôlego em sua escala épica, magnífico em sua compreensão da paisagem, penetrantemente desconfortável em sua intimidade e severidade humanas. Há um sentido de composição excelente nas cenas de natureza morta e na sensação quase arqueológica do tempo, criando algo profundamente misterioso e insuportavelmente triste”.
O que eu achei: Sem dúvida o que mais me interessou aqui foi ver o padre com sua câmera do século XIX produzindo fotografias através do processo das placas úmidas. Os créditos iniciais do filme anunciam que a história foi inspirada na suposta descoberta, na Islândia, de sete fotografias em placas de vidro de pessoas e lugares ali tiradas no final do século XIX, mas depois, lendo uma entrevista do diretor, ele diz que essas fotos, na verdade, foram produzidas "de acordo com o modo de fazer da época", então essa informação que o próprio filme e alguns sites nos dá de que o padre realmente existiu e de que essas foram as primeiras fotos tiradas na região é inverídica. Aliás o formato do filme tem um aspecto quase quadrado em homenagem à essas fotos. Quanto ao filme em si ele é bem lento, mostra detalhadamente a expedição do padre dinamarquês fazendo o trajeto que vai levá-lo da Dinamarca até essa localidade remota na Islândia onde estão construindo a igreja na qual ele vai trabalhar. O trajeto é cruel e penoso por conta da natureza implacável. Por outro lado o visual é de uma beleza ímpar. Pálmason, artista visual que é, soube explorar ao máximo o encanto das paisagens estonteantes da Islândia. Ao chegar na comunidade o filme ganha um pouco mais de movimento, mas segue frio e seco em sua abordagem, bem à maneira nórdica de ser. O resultado é um filme belíssimo que, com certeza, vai agradar quem gosta de um cinema sem pressa.
Carson Lund do site Slant nos conta que a obra de Hlynur Pálmason oferece algumas características já delineadas: “seus filmes situam protagonistas masculinos em ambientes áridos e hostis e depois catalogam exaustivamente os processos pelos quais esses homens se desvendam e se tornam enigmáticos ao ponto do insondável. Ao longo do caminho, há sempre surtos de violência, confirmações da crueldade e indiferença da natureza, além de figuras femininas cujas auras de pureza não conseguem evitar o inexorável declínio do líder para um comportamento antissocial”. Segundo ele, isso já foi visto em “Irmãos do Inverno” (2017) e em “Um Dia Muito Claro” (2019) e agora é observado em “Terra de Deus” (2022). “Se a trajetória de suas histórias parece previsível, a direção de Pálmason quase nunca o faz, e esse é certamente o caso quando ‘Terra de Deus’ faz a transição de uma igreja na Dinamarca para o interior da Islândia e, finalmente, para uma vila remota nesta nação insular. No centro desta expedição está Lucas (Elliott Crosset Hove), um padre designado para fazer a árdua jornada além-mar e construir uma igreja para o povo nativo. Ele é baseado em uma figura histórica real que explorou a costa sudeste da Islândia através da fotografia, e a inspiração é responsável pelo quadro 4:3 de bordas arredondadas (...), ambos emulando as primeiras fotografias em placas úmidas”.
Mas será que o padre Lucas teria mesmo existido fotografando a Islândia no século 19? O site Cineuropa, que entrevistou o diretor, indagou Pálmason sobre isso, ao que ele respondeu: “Contei à minha equipe, elenco e também aos meus financiadores sobre essa descoberta mas, na verdade, é uma peça de ficção que criei quando estava escrevendo para estimular meus sentidos. Durante muito tempo pensei em não mencionar isso no filme, mas no final senti que, como me inspirei nessa criação, o espectador também deveria saber. E agora nós realmente temos as fotos - nós as fabricamos com o processo de placas úmidas, de forma autêntica, como teriam sido feitos naquela época”.
O que disse a crítica: Francisco Carbone do site Cenas de Cinema achou excelente. Escreveu: “’Terra de Deus’, que se anuncia tão plácido e absorto em imagens de teor puro, vai perdendo esse caráter límpido em sua argamassa. Aos poucos, o que temos é um filme de crescente estado de tensão, onde Deus faz cada vez menos diferença, e o Homem parece ganhar sempre uma guerra que ele mesmo inicia. Não há saída para o que está estabelecido na formação humana, que destoa em absoluto do que a ordem civil determinou. Fica a certeza de que o atraso e a luta contra o fundamentalismo é uma faca que não sabe que lado corta; eventualmente, fere a todos”.
Peter Bradshaw do site The Guardian deu nota máxima. Disse: “A aridez é transformada em beleza e depois em terror neste filme extraordinário do realizador islandês Hlynur Pálmason sobre um pastor dinamarquês do século XIX enviado para estabelecer uma nova igreja na remota costa sudeste da Islândia. Saí do cinema atordoado e exultante com sua arte; é de tirar o fôlego em sua escala épica, magnífico em sua compreensão da paisagem, penetrantemente desconfortável em sua intimidade e severidade humanas. Há um sentido de composição excelente nas cenas de natureza morta e na sensação quase arqueológica do tempo, criando algo profundamente misterioso e insuportavelmente triste”.
O que eu achei: Sem dúvida o que mais me interessou aqui foi ver o padre com sua câmera do século XIX produzindo fotografias através do processo das placas úmidas. Os créditos iniciais do filme anunciam que a história foi inspirada na suposta descoberta, na Islândia, de sete fotografias em placas de vidro de pessoas e lugares ali tiradas no final do século XIX, mas depois, lendo uma entrevista do diretor, ele diz que essas fotos, na verdade, foram produzidas "de acordo com o modo de fazer da época", então essa informação que o próprio filme e alguns sites nos dá de que o padre realmente existiu e de que essas foram as primeiras fotos tiradas na região é inverídica. Aliás o formato do filme tem um aspecto quase quadrado em homenagem à essas fotos. Quanto ao filme em si ele é bem lento, mostra detalhadamente a expedição do padre dinamarquês fazendo o trajeto que vai levá-lo da Dinamarca até essa localidade remota na Islândia onde estão construindo a igreja na qual ele vai trabalhar. O trajeto é cruel e penoso por conta da natureza implacável. Por outro lado o visual é de uma beleza ímpar. Pálmason, artista visual que é, soube explorar ao máximo o encanto das paisagens estonteantes da Islândia. Ao chegar na comunidade o filme ganha um pouco mais de movimento, mas segue frio e seco em sua abordagem, bem à maneira nórdica de ser. O resultado é um filme belíssimo que, com certeza, vai agradar quem gosta de um cinema sem pressa.