26.11.23

“Chi-Raq” - Spike Lee (EUA, 2015)

Sinopse:
A cidade de Chicago está tomada pela violência e pelas brigas entre gangues rivais. Quando uma criança é morta por uma bala perdida, as mulheres se reúnem e decidem tomar uma atitude drástica: iniciar uma greve de sexo até que os homens concordem em abandonar as armas. Mas os maridos e namorados não vão aceitar essas novas regras com facilidade.
Comentário: Spike Lee (1957) é um cineasta, escritor, produtor, ator e professor norte-americano. O trabalho de Lee tem explorado continuamente as relações raciais, o papel da mídia na vida contemporânea, o crime urbano, a pobreza e outras questões políticas. Sua produção é bastante irregular em termos de qualidade. Vi dele a obra-prima “Faça a Coisa Certa” (1989), os ótimos "O Plano Perfeito" (2006) e "Infiltrado na Klan" (2018) e o bom “A Última Noite” (2002). Mas vi também filmes bem medianos como "Ela Quer Tudo" (1986) e "Milagre em Santa Anna" (2008), além dos ruins "Oldboy - Dias de Vingança" (2013), "Pass Over" (2018) e "Destacamento Blood" (2020).
Paulo Cruz do site Gazeta do Povo nos conta que “Chi-Raq” “é uma sátira baseada na comédia Lisístrata, do grego Aristófanes, escrita no século 4.º a.C., que narra a história de como as mulheres gregas forçaram os homens atenienses e espartanos a assinarem um tratado de paz mediante uma curiosa artimanha: uma greve de sexo. Diz a resoluta ativista, na peça: ‘Reuniremos todas as mulheres da Grécia, incluindo as beócias e as peloponesas. E acabaremos de vez com as lutas fratricidas que nos deixam à mercê dos bárbaros que descem lá do norte’. (...) Todas aderem ao propósito. Spike Lee e o roteirista Kevin Willmott atualizam a peça grega a fim de tratarem de um assunto extremamente delicado nos EUA, os chamados black-on-black crimes, ou seja, a violência de negros contra os próprios negros, que faz um contraponto à narrativa sobre a brutalidade policial. De acordo com a Pesquisa Nacional de Vitimização de Crimes, de 2018, 70,3% dos incidentes violentos sofridos por vítimas negras foram cometidos por criminosos negros. O próprio Lee, que concentra a história em Chicago, decidiu fazer o filme após saber de um assassinato, na cidade, envolvendo uma criança de 9 anos, Tyshawn Lee. Seu pai era membro de uma gangue e o menino foi morto em retaliação. Lee disse: ‘Não foi um policial que matou Tyshawn Lee [...]. Não podemos ignorar que estamos matando uns aos outros também’. Na narração inicial do filme, ouvimos, atônitos: ‘2001 até hoje: 2.349 americanos foram mortos na guerra do Afeganistão. 2003 a 2011: 4.424 americanos foram mortos na guerra do Iraque. 2001 a 2015: 7.356 assassinatos em Chicago. Os homicídios em Chicago, Illinois, superam o número de mortos das forças especiais americanas no Iraque. Mais de 400 crianças em idade escolar foram mortas esse ano [2022]. Na semana do 4 de Julho de 2015, dia da Independência americana, 55 pessoas foram alvejadas e feridas; 10 morreram, incluindo um garoto de 7 anos. (...)’ Lee, que é de Nova York, sofreu duras críticas por fazer um filme sobre Chicago; mas se defendeu, dizendo numa entrevista à Chicago Magazine: ‘A cidade de Nova York tem três vezes a população de Chicago; Chicago tem mais homicídios que Nova York. Na semana passada, [o site] The Daily Beast publicou uma reportagem de primeira página dizendo que Chicago é a cidade número um na América em assassinatos em massa [na verdade, para tiroteios em massa, definidos como três ou mais pessoas baleadas em um único incidente]. Chicago é a garota-propaganda [da violência]. Eu não estou inventando essas coisas’. (...) Curiosamente, Lee também baseia sua história em Leymah Gbowee, uma ativista da Libéria que utilizou a mesma tática – e mais uma série de protestos – para pôr fim a uma longa guerra étnica em seu país, em 2003. Apesar de dizer que a abstenção sexual teve pouco efeito prático, gerou uma consciência nas mulheres, que se envolveram na luta pela paz. Em 2011, Gbowee foi galardoada com um Prêmio Nobel da Paz por seu trabalho, e sua história está registrada no livro autobiográfico ‘Guerreiras da Paz’”.
O título do filme “Chi-Raq” é uma corruptela de Chicago + Iraque. No filme Chi-Raq é também o apelido de um dos personagens, líder de uma gangue.
O que disse a crítica: A crítica no site de Roger Ebert é bastante favorável, dizendo: “’Chi-Raq’, de Spike Lee, ganhou mais do que seu quinhão de controvérsias de pessoas que nem viram o filme. Quando o fizerem, a narrativa mudará. Deixaremos de reclamar do título e não teremos de ler mais nenhuma bobagem que explique a sátira a um cineasta essencial. O trabalho fala por si, e o que diz é alto, raivoso, apaixonado e emocional. Com ‘Chi-Raq’, Spike Lee fez seu filme mais necessário em anos, canalizando questões tão antigas quanto Lisístrata, de Aristófanes, no qual o filme é vagamente baseado, através das vozes de homens e mulheres jovens na capital do assassinato dos Estados Unidos”.
Marcelo Müller do site Papo de Cinema avaliou com nota máxima. Disse: “’Chi-Raq’ é um libelo pela paz, filme em que a consciência social transborda em cada frame, na engenhosidade de um itinerário que não nega o espetáculo do cinema, sua falsidade visível, pelo contrário, utilizando-a para potencializar aquilo que defende como imprescindível. Há momentos convidativos às lágrimas, como o sermão incisivo e emocionante do pastor interpretado por John Cusack, que prega a igualdade em frente ao caixão branco de mais uma vítima infantil da brutalidade deflagrada nas ruas. Repleto de swing e voluptuosidade, o longa-metragem de Lee ainda guarda alguns trunfos, como o bandido vivido num misto de sátira e ironia por Wesley Snipes, líder dos Troianos, cujo tapa-olho evoca a figura do mitológico ciclope. O protagonismo da mulher é um sintoma da busca incansável de Spike Lee, diretor que utiliza habilmente o cinema para expor injustiças históricas e propor caminhos a fim de repará-las ou, ao menos, de amenizá-las. Nesse tocante, esta sua nova realização atinge resultados como poucas recentes, colocando-se no panteão das obras-primas (...)”.
O que eu achei: O filme alterna drama e musical. Tem muito rap, muita coreografia e muitas... muitas falas, tornando o resultado verborrágico beirando o cansativo. Outro problema desse filme é a hipersexualização do corpo feminino negro. Como disse Jéss Reis no site Medium, “as mulheres negras carregam muitos estigmas nos seus corpos e um deles é a ideia de que servem para o prazer passageiro de seus ‘senhores’ e que possuem a ‘cor do pecado’. A hipersexualização do corpo afro é uma longa história que segue criando muitos debates e luta por parte do feminismo negro. Em respeito a isso, não tinha como o Spike Lee pecar mais rudemente. Ele exacerba essa visão nociva sobre o corpo da mulher e usa a sexualidade delas em momentos em que nem sequer são necessários, com perspectivas comprometedoras que servem muito mais para deleite de quem está assistindo do que para uma contribuição real à personagem. O sexo feminino é vítima da violência masculina, não possui outro poder a não ser a sua sexualidade e usa isso como arma de dominação contra os homens. Consegue ver como isso pode ser problemático se não tratado de uma forma coerente? Bem… ele não parece ter se importado e na minha opinião passou dos limites tomando um rumo extremamente fetichista“. Como cinema também é cultura, o lado positivo foi conhecer melhor a ativista liberiana Leymah Gbowee. Prêmio Nobel da Paz, ela organizou, na vida real, um movimento que ajudou a dar fim à Segunda Guerra Civil da Libéria em 2003. Seu trabalho de recuperação com crianças que foram meninos-soldados durante a guerra a tornou conhecida no mundo todo. Ela é uma das fundadoras da Women Peace and Security Network – WIPSEN-Africa, sendo que, em 2011, ela foi uma das três personalidades vencedoras do Nobel da Paz junto com sua compatriota Ellen Johnson-Sirleaf, primeira mulher a liderar a Libéria, e a iemenita Tawakel Karman, pela sua luta em nome dos direitos das mulheres.