14.11.23

“Sorte Cega” – Krzysztof Kieslowski (Polônia, 1981)

Sinopse:
 
Polônia, 1981. O estudante de medicina Witek (Boguslaw Linda) pede uma licença de um ano da faculdade após a morte de seu pai, para repensar sua vocação. Ele decide viajar para a Varsóvia, mas enquanto corre para tentar alcançar o trem na estação, três possíveis eventos acontecem.
Comentário: Krzysztof Kieslowski (1941-1996) foi um cineasta polonês de quem já assisti aos ótimos “Decálogo” (1989) - composto por 10 filmes inspirados pelos 10 Mandamentos - e “Trilogia das Cores” (1993-1994) - composta pelos filmes “A Liberdade é Azul”, “A Fraternidade é Vermelha” e “A Igualdade é Branca” - cujo lema da Revolução Francesa (Liberté, Egalité e Fraternité ) é associado às cores da bandeira francesa (azul, branco e vermelho) para explorar assuntos cotidianos.
Wallace Andrioli do site História da Ditadura nos conta que “’Sorte Cega’ (1981) é um dos filmes mais abertamente políticos do cineasta polonês Krzysztof Kieslowski. Parte do ‘cinema da preocupação moral’, também chamado de ‘cinema da desconfiança’, que emergiu em meados da década de 1970 como uma força crítica ao regime comunista então vigente, ‘Sorte Cega’ ainda se beneficiou da flexibilização censória decorrente do aparecimento do movimento sindical Solidariedade, em 1980-1981. O enredo acompanha o jovem Witek (Boguslaw Linda), estudante de medicina que, em crise após a morte do pai, decide abandonar a faculdade e migrar para Varsóvia. Apresentada essa situação inicial, o filme enfim se revela, dividindo a narrativa em três versões diferentes do futuro de Witek, dependendo de seu sucesso ou fracasso ao tentar pegar um trem para a capital. (...) Apesar de produzido nesse momento de flexibilização censória, ‘Sorte Cega’ teve sua exibição nos cinemas interditada, já que, em dezembro de 1981, ocorreu a decretação da Lei Marcial, que colocou o Solidariedade na clandestinidade, perseguiu seus principais líderes e produziu novo recrudescimento da censura e retaliações a cineastas engajados no ‘cinema da preocupação moral’. (...) O filme de Kieslowski só foi lançado comercialmente em 1987, ainda assim com cortes. Uma das cenas arrancadas de ‘Sorte Cega’ pelos censores, na qual Witek entra em confronto físico com policiais na estação de trem, no início do segundo segmento, nunca foi recuperada. Na cópia restaurada lançada internacionalmente, esse momento do enredo é preenchido por uma tela escurecida, em que aparece o seguinte aviso: ‘Único fragmento censurado do filme que não pôde ser recuperado’. Ausência imagética que testemunha um tempo específico da história do cinema polonês”.
O que disse a crítica: O site Palavras de Cinema avaliou o filme como ótimo. Publicaram: “’Sorte Cega’ é sobre o confronto com determinada época e sistema, contra o que não tem forma. Sem surpresas, eleva sentimentos, tenta se esquivar das paredes frias da opressão que, não estranha, soa inclusive natural. À época, o fim do regime parecia inevitável. Kieslowski filma o olhar a esse momento derradeiro, lento, a consumir pessoas desesperadas, aos gritos. Pessoas como Witek”.
Marcelo Sobrinho do site Plano Crítico avaliou como excelente. Disse: “’Sorte Cega’ é um filme instigante, em que Krzysztof Kieslowski emprega suas ideias com uma linguagem cinematográfica rica e cheia de recursos visuais que mobilizam o espectador a refletir sobre suas propostas. A trilha sonora, com seu tema principal, é muito marcante e conquista com facilidade. Mas o que há de melhor em ‘Sorte Cega’ é mesmo sua abordagem filosófica muito consistente. O cinema existencialista do polonês oferece uma visão bastante otimista e encorajadora ao nos revelar como seres jamais rendidos pelo acaso. A moeda rola pelo chão da estação e seu resultado é fortuito, mas alcançar ou não o trem e bancar todas as consequências de um ou outro caminho será sempre um exercício da liberdade humana”.
O que eu achei: Estamos na Polônia, no ano de 1981. O estudante de medicina Witek (Boguslaw Linda) pede uma licença de um ano da faculdade após a morte de seu pai, para repensar sua vocação. Ele decide viajar para a Varsóvia, mas enquanto corre para tentar alcançar o trem na estação, três possíveis eventos acontecem, subdividindo o filme em três possíveis histórias. Na primeira, Witek atua dentro do governo para poder modificá-lo, na segunda ele se integra à Resistência e na terceira, ele adota uma atitude apolítica. Cada uma tendo seu próprio desfecho. Witek parece representar assim a própria Polônia e os rumos que a nação poderia tomar naquele momento em que o filme foi realizado. É um filme importante, uma obra crucial na filmografia de Kieslowski que nos mostra, que mesmo se você não tomar partido algum, sofrerá as consequências. É filme pra ver e refletir.