13.11.23

“Não! Não Olhe!” - Jordan Peele (EUA/Japão, 2022)

Sinopse:
Na zona rural da Califórnia, os irmãos OJ (Daniel Kaluuya) e Emerald (Keke Palmer) administram uma grande fazenda de treinamento de cavalos. Mas tudo muda quando seu pai Otis (Keith David) morre de forma misteriosa sob uma nuvem sinistra.
Comentário: Jordan Peele é um ator e cineasta norte-americano. Assisti dele os ótimos “Corra!” (2017) – que lhe rendeu um Oscar de Melhor Roteiro Original - e "Nós" (2019).
Aline Pereira do site Adoro Cinema nos conta que “Ao longo da história, diversos grandes cineastas conseguiram deixar marcas de sua identidade no cinema, mas poucos o fizeram tão rápido quanto Jordan Peele. ‘Não! Não Olhe!’ é apenas o terceiro longa criado pelo diretor, mas a sensação é de que ele já é um veterano do terror - e correndo o risco de estar me precipitando um pouco - já é responsável por clássicos do gênero. Em ‘Não! Não Olhe!’, Peele amadurece o que construiu até agora em ‘Corra!’ e ‘Nós’ com um novo ‘superpoder’ (que vem com novas responsabilidades): o do orçamento mais generoso que teve até agora. Com roteiro e direção de Jordan Peele, ‘Não! Não Olhe!’ acompanha a história dos irmãos OJ (Daniel Kaluuya) e Emerald Haywood (Keke Palmer), que administram um rancho especializado em treinar cavalos para participações em filmes. Os negócios eram originalmente comandados pelo pai dos dois, que teve uma morte trágica e em circunstâncias estranhas, causada pela queda de destroços de uma aeronave. Agora, os irmãos precisam batalhar para manter as contas em dia, enquanto lidam com acontecimentos enigmáticos, que envolvem o desaparecimento de alguns de seus animais e o surgimento de algo estranho que parece estar sobrevoando a casa deles. É com esta sequência de eventos e descobertas que Jordan Peele nos fisga e entrega uma história cheia de camadas”.
Sobre a questão do racismo, marca registrada dos trabalhos de Peele, Pereira diz: “Neste filme, a discussão racial não está em um primeiro plano tão ‘evidente’ quanto em ‘Corra!’ e ‘Nós!’, cujo horror está intimamente ligado às consequências devastadoras do racismo. Mas isso não significa que a questão não esteja presente e Jordan Peele reforça a habilidade em trazer o tema em vieses diferentes e em diferentes camadas. Há um detalhe muito importante de ancestralidade na trama dos irmãos Haywood, que são descendentes do homem anônimo que aparece na primeira imagem feita com captura de movimentos, pelo fotógrafo inglês Eadweard Muybridge, no século 19 (uma história real!). ‘Desde o momento em que as fotografias passaram a se mexer, nossa pele estava lá’, narra a personagem de Keke Palmer ao apresentar os negócios da família para um estúdio. Discute-se, então, um apagamento histórico de pessoas negras em uma indústria na qual sempre estiveram presentes e que ajudaram a construir. É como se Jordan Peele, enquanto cineasta, também reforçasse seu lugar no cinema”.
O que disse a crítica: Felipe Oliveira do site Plano Crítico achou o filme bom. Disse: Com uma composição técnica que oferece uma boa experiência cinematográfica munida com um estrondoso e imersivo trabalho de som, ‘Não! Não Olhe!’ sofre na ambição de contar a própria história. Certo que há momentos inspirados em que o filme consegue ser visualmente belo e assustador, porém, falta aqui uma energia ao ritmo e como a direção executa as ideias. O tom se mostra algumas vezes narrativamente arrastado, e o exercício de querer esconder o óbvio para oferecer um épico visual, termina por demonstrar muito espetáculo e suspensão do que substância. A exemplo do bloco sobre Gordy, que consegue ter mais impacto e gerar empolgação do que como a edição divide os capítulos a fim de preparar para o clímax, que já chega morno. Além do apoio nas tiradas de humor que não caiu tão bem como um equilíbrio esperado entre o suspense e a tensão, é como se toda espetacularização se aproveitasse mais em alguns trechos do que outros. No mais, ‘Não! Não Olhe!’ vale pela experiência, mas decepciona em como apresenta tudo o que quer discutir”.
Marcelo Hessell deu nota máxima, achou o filme excelente. Segundo ele, Jordan Peele está prestes a se tornar um novo M. Night Shyamalan, escolhendo o terror com extraterrestres para ser seu terceiro longa de estúdio. Escreveu: “É aí que as coisas começam a ficar bonitas de verdade: quando ‘Não! Não Olhe!’ percebe que a reparação e a evidência não serão suficientes para fazer justiça histórica ao povo negro, é preciso recuperar mesmo todo um sistema de crenças no cinema americano como um espaço mítico da oportunidade e do sonho. A evidência é matéria do presente, já o sonho é atemporal. O caminho que Jordan Peele escolhe para restabelecer o mito americano não seria outro senão se aventurar pelo western, seus cenários e arquétipos, e as estrelas no Firmamento nunca foram tão brilhantes quando no horizonte montanhoso de ‘Não! Não Olhe!’ pela fotografia em Scope de Hoyte van Hoytema”.
O que eu achei: O que eu mais gostei nesse filme foi saber mais sobre a magnífica sequência de fotos tiradas por Eadweard Muybridge em 1878, com o patrocínio do ex-governador da Califórnia, Leland Stanford. Foi nesse experimento que Muybridge fotografou com sucesso o galope de um cavalo quadro a quadro, usando uma série de 24 câmeras. O site Wikipédia nos conta que “a primeira experiência com sucesso ocorreu em 11 de junho, com a imprensa presente. Foi utilizada uma série de 12 câmeras estereoscópicas, a uma distância de 21 polegadas umas das outras para cobrir os 20 pés tomados por um passo do cavalo, tomando retratos em um milésimo de um segundo. Essa série de fotos, tiradas onde hoje é a Universidade Stanford, foram chamadas ‘The Horse in Motion’, e mostra que todos os cascos ficam fora da terra - embora não com as patas completamente estendidas, como os ilustradores contemporâneos tenderam a imaginar, mas um pouco dobradas sob o cavalo, ‘puxando’ as patas dianteiras e ‘empurrando’ as traseiras'”. Essas informações são fáceis de encontrar, assim como toda a sequência animada. O que não aparece em lugar nenhum é quem seria o jóquei negro que cavalga sobre esse cavalo. Então foi uma ótima oportunidade para Peele falar sobre o apagamento da história dos negros, lembrando que seu nome era Alistair E. Haywood – no filme ele é citado como sendo um antepassado dos irmãos OJ e Emerald – que, na vida real, se tornou o primeiro ator, treinador e dublê da história do cinema. Com relação ao filme em si achei ele inferior aos antecessores “Corra!” (2017) e “Nós” (2019). A história lembra demais os filmes do Shyamalan, mistura terror com comédia, mas tem uma sequência arrastada que se prolonga nos seus 130 minutos de trama, demorando um pouco mais do que deveria para entregar a solução do mistério que assombra a família e a comunidade. Mesmo o ator Daniel Kaluuya que está tão bem em “Corra!”, aqui entrega uma interpretação menos afiada. Ainda assim vale ver. Peele é um diretor para se prestar atenção.