
Comentário: Abel Ferrara é um cineasta norte-americano de quem já assisti o bom “Pasolini” (2014) e os medianos “Sibéria” (2020) e “Padre Pio” (2022). O título deste filme “Maria” se refere não à mãe de Jesus, mas sim à Maria Madalena, interpretada por uma atriz que também se chama Maria.
Inácio Araújo da Folha SP nos conta que “dentro de ‘Maria’, há vários filmes. O primeiro deles é sobre Maria Madalena (Juliette Binoche), suas relações com o Cristo e, secundariamente, os demais discípulos. O segundo é sobre a atriz Marie Palesi, que interpreta Maria Madalena e que, terminada a filmagem, não consegue separar-se do seu personagem e passa a viver em Jerusalém, à procura de Cristo, ou de si mesma, ou de ambos. Existe ainda um terceiro filme, que diz respeito à mídia. Ele é representado por um programa de TV onde Ted Younger (Forrest Whitaker), arguto entrevistador, conversa com personalidades sobre vida, morte e santidade de Cristo. Trata-se, nos vários filmes e níveis propostos, de observar a morte e a ressurreição de Cristo (isto é, os sinais de sua santidade), suas repercussões e decorrências, não apenas sobre as civilizações e crenças envolvidas, mas sobre cada um em particular.
Inácio Araújo da Folha SP nos conta que “dentro de ‘Maria’, há vários filmes. O primeiro deles é sobre Maria Madalena (Juliette Binoche), suas relações com o Cristo e, secundariamente, os demais discípulos. O segundo é sobre a atriz Marie Palesi, que interpreta Maria Madalena e que, terminada a filmagem, não consegue separar-se do seu personagem e passa a viver em Jerusalém, à procura de Cristo, ou de si mesma, ou de ambos. Existe ainda um terceiro filme, que diz respeito à mídia. Ele é representado por um programa de TV onde Ted Younger (Forrest Whitaker), arguto entrevistador, conversa com personalidades sobre vida, morte e santidade de Cristo. Trata-se, nos vários filmes e níveis propostos, de observar a morte e a ressurreição de Cristo (isto é, os sinais de sua santidade), suas repercussões e decorrências, não apenas sobre as civilizações e crenças envolvidas, mas sobre cada um em particular.
É preciso dizer, desde logo, que cada filme feito sobre Jesus Cristo é uma reinterpretação de sua existência terrena. As mais recentes foram polêmicas. Martin Scorsese [‘A Última Tentação de Cristo‘ (1988)] fixou-se nos tormentos existenciais de um Deus terreno, capaz de ser tentado não mais pelo demônio, mas por ser a divindade tornada carne.
Mel Gibson [‘A Paixão de Cristo’ (2004)], com mais simplicidade, observou os suplícios físicos que vitimaram Jesus, como se buscasse demonstrar a indignidade do homem, sua incapacidade para reconhecer o Deus encarnado. Se Gibson está mais preocupado em partilhar sua culpa pelo destino de Cristo, Abel Ferrara ocupa-se em partilhar o próprio desespero, que diz respeito à religião, mas não só a ela. A passagem de Cristo pela Terra é um mistério, pois trata-se de um Deus feito homem. De um homem que representa Deus ao mesmo tempo em que é também Deus. Ora, os atores são, em certa medida, isso. Não são deuses, claro, mas representam outras pessoas, encarnam personagens. No caso de Marie Palesi, o mistério se instaura: ela não consegue mais abandonar seu personagem. Da mesma forma, diretores de cinema buscam a verdade dos personagens que imaginam. Alguns o fazem desesperadamente. Ted Younger, o apresentador, a horas tantas fará a Tony (Matthew Modine), o diretor do filme dentro do filme (e que também interpreta Jesus), a pergunta fatal: ‘Você já foi crucificado?’. Sim, porque para Younger não se toca em certos assuntos gratuitamente. Por aí já se vê, se não aonde Abel Ferrara quer chegar, ao menos de onde ele parte: a fé não é uma coisa dada, evidente. Sua experiência convive com a dúvida, a negação e o desespero. Essa pode até não ser a fé da maior parte dos homens, inclusive porque as igrejas costumam censurar a dúvida (que dirá a negação e o desespero). Mas é a de Abel Ferrara. No tempo da Inquisição, talvez fosse queimado. Estamos, por sorte, longe disso. Ferrara pode, em todo caso, professar sua fé desesperada na possibilidade de encontrar uma imagem que corresponda à perfeição e preencha em todos os detalhes a verdade daquilo (ou daquele) que busca representar. A fé em Deus e a fé na imagem são, afinal, a mesma”.
O filme venceu o Grande Prêmio do Júri do Festival de Veneza de 2005.
O que disse a crítica 1: Demetrius Caesar do site Cineplayers não gostou. Ele resumiu “Maria” em três palavras: tedioso, pretensioso e mal realizado.
O que disse a crítica 2: Neusa Barbosa do site Cineweb avaliou como bom. Escreveu: “O enredo reforça (...) a redefinição da figura bíblica de Maria Madalena, que segundo evangelhos não reconhecidos pela Igreja Católica - como o de Maria e o de Philippe - nunca teria sido prostituta e sim uma das apóstolas mais próximas de Cristo. Por ser mulher, teria sido vítima de machismo e discriminação. Esta é também, aliás, uma das teses sustentadas, com muito mais espalhafato, pelo bestseller ‘O Código Da Vinci’, de Dan Brown, adaptado para o cinema. Em ‘Maria’, esta discussão sobre a revaloração do feminino é conduzida em tom incomparavelmente mais sóbrio e com objetivos muito diversos. Ironicamente, foi o sucesso de um filme de estilo e intenções totalmente opostas, apesar de alguma proximidade temática, ‘A Paixão de Cristo’ (2004), de Mel Gibson, que possibilitou que este projeto mais suave e reflexivo encontrasse financiamento. Antes dele, os produtores de ‘Maria’ só ouviam que ‘ninguém queria ver um filme sobre religião’. Outra ironia é que o personagem de Tony Childress, o cineasta autor do filme sobre Jesus, que só quer saber do dinheiro que ganhará a partir da polêmica de seu trabalho, pode até ser visto como uma caricatura do próprio Mel Gibson - que faturou alto com o barulho em torno de ‘A Paixão de Cristo’. Muita gente de bem não acredita que tenha feito isto só por razões religiosas, como ele alega”.
O que eu achei: A ideia do filme é interessante. Trata-se de um filme dentro de um filme, ou seja, existe um personagem que é um diretor de cinema e que resolve fazer um filme sobre Cristo. O filme se chama “This is My Blood” (Esse é Meu Sangue). Como esse diretor de cinema se acha o máximo, ele mesmo resolve interpretar ninguém menos que Jesus Cristo. No elenco está também a atriz Marie Palesi - interpretada pela Juliete Binoche – que vai encarnar Maria Madalena. Ocorre que quando as filmagens do tal filme terminam, Marie Palesi está obcecada pela história de Cristo e, ao invés de retornar para casa, ela resolve ir para Jerusalém, capital de Israel, uma cidade onde ocorreram alguns dos acontecimentos mais significativos na vida de Jesus. Com isso o filme fala sobre diretores de cinema petulantes que fazem filmes sobre Cristo apenas para ganhar dinheiro - tipo Mel Gibson com seu ‘A Paixão de Cristo’ (2004) -, fala sobre atores e atrizes que têm dificuldade para sair de seus papéis e fala também sobre a mídia espetaculosa que transforma tudo num grande escândalo. Teria tudo para ser ótimo não fosse a edição que é um caos com um final abrupto sem grandes explicações. Um filme ousado que vale pelo percurso.
O que disse a crítica 1: Demetrius Caesar do site Cineplayers não gostou. Ele resumiu “Maria” em três palavras: tedioso, pretensioso e mal realizado.
O que disse a crítica 2: Neusa Barbosa do site Cineweb avaliou como bom. Escreveu: “O enredo reforça (...) a redefinição da figura bíblica de Maria Madalena, que segundo evangelhos não reconhecidos pela Igreja Católica - como o de Maria e o de Philippe - nunca teria sido prostituta e sim uma das apóstolas mais próximas de Cristo. Por ser mulher, teria sido vítima de machismo e discriminação. Esta é também, aliás, uma das teses sustentadas, com muito mais espalhafato, pelo bestseller ‘O Código Da Vinci’, de Dan Brown, adaptado para o cinema. Em ‘Maria’, esta discussão sobre a revaloração do feminino é conduzida em tom incomparavelmente mais sóbrio e com objetivos muito diversos. Ironicamente, foi o sucesso de um filme de estilo e intenções totalmente opostas, apesar de alguma proximidade temática, ‘A Paixão de Cristo’ (2004), de Mel Gibson, que possibilitou que este projeto mais suave e reflexivo encontrasse financiamento. Antes dele, os produtores de ‘Maria’ só ouviam que ‘ninguém queria ver um filme sobre religião’. Outra ironia é que o personagem de Tony Childress, o cineasta autor do filme sobre Jesus, que só quer saber do dinheiro que ganhará a partir da polêmica de seu trabalho, pode até ser visto como uma caricatura do próprio Mel Gibson - que faturou alto com o barulho em torno de ‘A Paixão de Cristo’. Muita gente de bem não acredita que tenha feito isto só por razões religiosas, como ele alega”.
O que eu achei: A ideia do filme é interessante. Trata-se de um filme dentro de um filme, ou seja, existe um personagem que é um diretor de cinema e que resolve fazer um filme sobre Cristo. O filme se chama “This is My Blood” (Esse é Meu Sangue). Como esse diretor de cinema se acha o máximo, ele mesmo resolve interpretar ninguém menos que Jesus Cristo. No elenco está também a atriz Marie Palesi - interpretada pela Juliete Binoche – que vai encarnar Maria Madalena. Ocorre que quando as filmagens do tal filme terminam, Marie Palesi está obcecada pela história de Cristo e, ao invés de retornar para casa, ela resolve ir para Jerusalém, capital de Israel, uma cidade onde ocorreram alguns dos acontecimentos mais significativos na vida de Jesus. Com isso o filme fala sobre diretores de cinema petulantes que fazem filmes sobre Cristo apenas para ganhar dinheiro - tipo Mel Gibson com seu ‘A Paixão de Cristo’ (2004) -, fala sobre atores e atrizes que têm dificuldade para sair de seus papéis e fala também sobre a mídia espetaculosa que transforma tudo num grande escândalo. Teria tudo para ser ótimo não fosse a edição que é um caos com um final abrupto sem grandes explicações. Um filme ousado que vale pelo percurso.