
Comentário: Tarik Saleh é um produtor de televisão, animador, editor, jornalista e diretor de cinema sueco. Segundo o site Wikipédia, “ele nasceu em (...) Estocolmo, filho de mãe sueca e pai egípcio. No final da década de 1980 e início da década de 1990, ele foi um dos grafiteiros mais proeminentes da Suécia, incluindo a co-criação de Fascinate [um grafite muito famoso que fica em um parque industrial em Bromsten, Estocolmo]. Ele também trabalhou como apresentador de TV na Sveriges Television e é um dos fundadores da produtora Atmo. No 53º Guldbagge Awards, seu filme ‘O Incidente no Nile Hilton’ ganhou cinco prêmios, incluindo Melhor Filme".
“Garoto dos Céus” (2022), que foi selecionado para concorrer à Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e venceu como Melhor Roteiro, é seu quinto longa-metragem, mas ele também produziu dois documentários, dois episódios de séries de TV e dois videoclipes. O título original do filme é “Walad Min Al Janna”. No Brasil aparece como “Garoto dos Céus”, “Cairo Conspiracy” ou no inglês “Boy from Heaven”.
Leonardo Sanchez do site Acessa nos conta que “Por mais profundo que seja o mergulho do filme no mundo árabe e nas especificidades do Egito islâmico, entre os quatro países que o produzem não há nenhum da região. Fruto de parceria entre Suécia, França, Finlândia e Dinamarca, o longa-metragem tem um diretor filho de egípcio, Tarik Saleh, mas jamais poderia ter sido feito no país, segundo ele próprio. ‘Garoto dos Céus’ (...), afinal, arranha temas delicados, como a corrupção do governo local e o falso moralismo do alto escalão do Islã. ‘As proibições locais são uma questão política, e não religiosa, ao contrário do que pensam. E este filme nem é tão controverso quanto pode parecer, mas é simplesmente impossível fazer algo com carga política em países como o Egito’, disse Saleh durante o festival francês [Cannes], do terraço de um prédio de onde se via a arquitetura charmosa e a costa azulada da Riviera Francesa. (...) Com exibições na Mostra de Cinema de São Paulo, o longa acompanha os dias que seguem a morte do grande imã [líder espiritual] da mesquita de Al-Azhar e reitor da universidade de mesmo nome - cargo máximo do mundo muçulmano sunita, algo que equivaleria à figura do papa para os católicos. A partir daí, uma disputa por poder se desenrola, com diferentes grupos tentando emplacar seus candidatos ao cargo. Para investigar os interesses escusos de um deles, um policial recruta um estudante da universidade de Al-Azhar para se infiltrar numa célula radical e com inclinações terroristas. ‘Enquanto artista, estou disposto a passar de qualquer limite, embora não seja um provocador. Não vou insultar profetas, mas defendo o direito das pessoas que querem fazê-lo. Só quero contar histórias sem ser censurado’, diz Saleh. ‘Garoto dos Céus’ denuncia tal aspecto de muitos governos árabes e, justamente por isso, precisou ser gravado na Turquia, longe da Al-Azhar de verdade. Seu elenco, também para driblar retaliações, foi formado por atores de outros países e egípcios que já não moram mais em casa. (...) Buscando uma maneira de tornar o universo no qual ‘Garoto dos Céus’ se desenrola mais acessível, Salek se ancorou no cinema de gênero. Fez de seu roteiro um thriller político com vários elementos que remetem a Hollywood, mesmo com todas as especificidades da trama”.
Apenas para ficar mais claro o contexto no qual o filme se desenrola, vale saber que ser muçulmano significa praticar uma religião chamada islamismo, ou seja, muçulmanos são os seguidores dessa religião. Como nos explica o site Politize, “embora seja um equívoco recorrente, muçulmanos e árabes não são sinônimos! Ser árabe significa pertencer ao grupo étnico que habita principalmente o Oriente Médio e a África setentrional, enquanto ser muçulmano significa apenas ter fé no islamismo. É fato que a maioria dos árabes é muçulmana, mas não é uma regra, afinal o inverso não é verdadeiro: a maioria dos muçulmanos não é de árabes, haja vista o considerável percentual de fiéis muçulmanos em gigantescas populações asiáticas como na Índia e na Indonésia”. Outra questão importante a se esclarecer é que o mundo muçulmano se divide em duas correntes: os sunitas e os xiitas. O site da BBC nos explica que “o Irã é majoritariamente xiita, enquanto a Arábia Saudita tem os sunitas como principal vertente. A divisão remonta ao ano de 632 e à morte do profeta Maomé, que resultou em uma luta pelo direito de liderar os muçulmanos. De certa maneira, essa disputa continua até hoje. Embora as duas vertentes coexistam há séculos, compartilhando muitas crenças e práticas, sunitas e xiitas mantêm diferenças importantes em questões de doutrina, rituais, leis, teologias e organização. Seus respectivos líderes também tendem a competir por influência religiosa. E da Síria ao Líbano, passando por Iraque e Paquistão, muitos conflitos recentes enfatizaram ou até agravaram essa divisão, separando comunidades inteiras”.
O que disse a crítica: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica não gostou. Escreveu: o personagem “Adam é um pescador de uma pequena província que consegue uma bolsa de estudos para a conceituada Universidade Al-Azhar no Cairo. Lá dentro, se torna o novo informante do Estado e se infiltra na facção do candidato concorrente. Logo, descobre que entrou num caminho sem volta, e se vê obrigado a praticar atos contra a sua vontade. A princípio, seduzido pela possibilidade de ajudar a sua família. Porém, depois, para que ela não sofra. O problema do filme é que, com isso, fica difícil o espectador sentir empatia por esse personagem que vira joguete nas mãos dos poderosos. A intenção é apresentar uma surpreendente reviravolta do protagonista, que acaba encontrando uma solução sensata para o impasse dos seus superiores. Mas, de onde veio toda essa repentina sabedoria? O enredo falha em prover essa explicação”.
Cadu Costa do site Ultraverso achou ótimo. Disse: “Oriundo de uma parceria entre Suécia, França, Finlândia e Dinamarca, ‘Garoto dos Céus’ aborda a corrupção do governo local e o falso moralismo tão comuns no alto escalão do Islã, mas que, na verdade, se aplica a qualquer nível de poder que se misture com a religião. Visto como um thriller político, não seria exagero o compararmos a clássicos como ‘O Poderoso Chefão 3’ nessa onda de assassinatos que ditam a violência da história que se desenrola. A disputa por poder com diferentes grupos tentando emplacar seus candidatos ao cargo soa um tanto familiar até mesmo para nós que quase entramos numa teocracia recente. Embora possa haver momentos em que ‘Garoto dos Céus’ não atinja todas as notas de sua história perfeitamente montada, é difícil não ser engolido pela mecânica desse cenário. Tem espionagem nível ‘007’ ou ‘Missão Impossível’, e, por isso é, sem dúvida, um thriller convincente, embora um tanto convencional, em um cenário altamente não-convencional”.
O que eu achei: Eu gostei. Não é excelente - pois há alguns furos no roteiro e é difícil acreditar que um garoto como Adam pudesse se tornar tão esperto em tão pouco tempo - mas é uma história interessante que prende a atenção do início ao fim, nos inserindo no mundo politicamente incorreto e cheio de falso moralismo que envolve a eleição de um novo Imã na Universidade Al-Azhar no Cairo. O contexto não é algo a que estamos acostumados, então há a necessidade de ver com atenção para poder capturar as nuances dessa história tão complexa e tão fora da nossa zona de conforto mas, ao final, tudo ficará claro. Uma boa pedida.
“Garoto dos Céus” (2022), que foi selecionado para concorrer à Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes e venceu como Melhor Roteiro, é seu quinto longa-metragem, mas ele também produziu dois documentários, dois episódios de séries de TV e dois videoclipes. O título original do filme é “Walad Min Al Janna”. No Brasil aparece como “Garoto dos Céus”, “Cairo Conspiracy” ou no inglês “Boy from Heaven”.
Leonardo Sanchez do site Acessa nos conta que “Por mais profundo que seja o mergulho do filme no mundo árabe e nas especificidades do Egito islâmico, entre os quatro países que o produzem não há nenhum da região. Fruto de parceria entre Suécia, França, Finlândia e Dinamarca, o longa-metragem tem um diretor filho de egípcio, Tarik Saleh, mas jamais poderia ter sido feito no país, segundo ele próprio. ‘Garoto dos Céus’ (...), afinal, arranha temas delicados, como a corrupção do governo local e o falso moralismo do alto escalão do Islã. ‘As proibições locais são uma questão política, e não religiosa, ao contrário do que pensam. E este filme nem é tão controverso quanto pode parecer, mas é simplesmente impossível fazer algo com carga política em países como o Egito’, disse Saleh durante o festival francês [Cannes], do terraço de um prédio de onde se via a arquitetura charmosa e a costa azulada da Riviera Francesa. (...) Com exibições na Mostra de Cinema de São Paulo, o longa acompanha os dias que seguem a morte do grande imã [líder espiritual] da mesquita de Al-Azhar e reitor da universidade de mesmo nome - cargo máximo do mundo muçulmano sunita, algo que equivaleria à figura do papa para os católicos. A partir daí, uma disputa por poder se desenrola, com diferentes grupos tentando emplacar seus candidatos ao cargo. Para investigar os interesses escusos de um deles, um policial recruta um estudante da universidade de Al-Azhar para se infiltrar numa célula radical e com inclinações terroristas. ‘Enquanto artista, estou disposto a passar de qualquer limite, embora não seja um provocador. Não vou insultar profetas, mas defendo o direito das pessoas que querem fazê-lo. Só quero contar histórias sem ser censurado’, diz Saleh. ‘Garoto dos Céus’ denuncia tal aspecto de muitos governos árabes e, justamente por isso, precisou ser gravado na Turquia, longe da Al-Azhar de verdade. Seu elenco, também para driblar retaliações, foi formado por atores de outros países e egípcios que já não moram mais em casa. (...) Buscando uma maneira de tornar o universo no qual ‘Garoto dos Céus’ se desenrola mais acessível, Salek se ancorou no cinema de gênero. Fez de seu roteiro um thriller político com vários elementos que remetem a Hollywood, mesmo com todas as especificidades da trama”.
Apenas para ficar mais claro o contexto no qual o filme se desenrola, vale saber que ser muçulmano significa praticar uma religião chamada islamismo, ou seja, muçulmanos são os seguidores dessa religião. Como nos explica o site Politize, “embora seja um equívoco recorrente, muçulmanos e árabes não são sinônimos! Ser árabe significa pertencer ao grupo étnico que habita principalmente o Oriente Médio e a África setentrional, enquanto ser muçulmano significa apenas ter fé no islamismo. É fato que a maioria dos árabes é muçulmana, mas não é uma regra, afinal o inverso não é verdadeiro: a maioria dos muçulmanos não é de árabes, haja vista o considerável percentual de fiéis muçulmanos em gigantescas populações asiáticas como na Índia e na Indonésia”. Outra questão importante a se esclarecer é que o mundo muçulmano se divide em duas correntes: os sunitas e os xiitas. O site da BBC nos explica que “o Irã é majoritariamente xiita, enquanto a Arábia Saudita tem os sunitas como principal vertente. A divisão remonta ao ano de 632 e à morte do profeta Maomé, que resultou em uma luta pelo direito de liderar os muçulmanos. De certa maneira, essa disputa continua até hoje. Embora as duas vertentes coexistam há séculos, compartilhando muitas crenças e práticas, sunitas e xiitas mantêm diferenças importantes em questões de doutrina, rituais, leis, teologias e organização. Seus respectivos líderes também tendem a competir por influência religiosa. E da Síria ao Líbano, passando por Iraque e Paquistão, muitos conflitos recentes enfatizaram ou até agravaram essa divisão, separando comunidades inteiras”.
O que disse a crítica: Eduardo Kaneco do site Leitura Fílmica não gostou. Escreveu: o personagem “Adam é um pescador de uma pequena província que consegue uma bolsa de estudos para a conceituada Universidade Al-Azhar no Cairo. Lá dentro, se torna o novo informante do Estado e se infiltra na facção do candidato concorrente. Logo, descobre que entrou num caminho sem volta, e se vê obrigado a praticar atos contra a sua vontade. A princípio, seduzido pela possibilidade de ajudar a sua família. Porém, depois, para que ela não sofra. O problema do filme é que, com isso, fica difícil o espectador sentir empatia por esse personagem que vira joguete nas mãos dos poderosos. A intenção é apresentar uma surpreendente reviravolta do protagonista, que acaba encontrando uma solução sensata para o impasse dos seus superiores. Mas, de onde veio toda essa repentina sabedoria? O enredo falha em prover essa explicação”.
Cadu Costa do site Ultraverso achou ótimo. Disse: “Oriundo de uma parceria entre Suécia, França, Finlândia e Dinamarca, ‘Garoto dos Céus’ aborda a corrupção do governo local e o falso moralismo tão comuns no alto escalão do Islã, mas que, na verdade, se aplica a qualquer nível de poder que se misture com a religião. Visto como um thriller político, não seria exagero o compararmos a clássicos como ‘O Poderoso Chefão 3’ nessa onda de assassinatos que ditam a violência da história que se desenrola. A disputa por poder com diferentes grupos tentando emplacar seus candidatos ao cargo soa um tanto familiar até mesmo para nós que quase entramos numa teocracia recente. Embora possa haver momentos em que ‘Garoto dos Céus’ não atinja todas as notas de sua história perfeitamente montada, é difícil não ser engolido pela mecânica desse cenário. Tem espionagem nível ‘007’ ou ‘Missão Impossível’, e, por isso é, sem dúvida, um thriller convincente, embora um tanto convencional, em um cenário altamente não-convencional”.
O que eu achei: Eu gostei. Não é excelente - pois há alguns furos no roteiro e é difícil acreditar que um garoto como Adam pudesse se tornar tão esperto em tão pouco tempo - mas é uma história interessante que prende a atenção do início ao fim, nos inserindo no mundo politicamente incorreto e cheio de falso moralismo que envolve a eleição de um novo Imã na Universidade Al-Azhar no Cairo. O contexto não é algo a que estamos acostumados, então há a necessidade de ver com atenção para poder capturar as nuances dessa história tão complexa e tão fora da nossa zona de conforto mas, ao final, tudo ficará claro. Uma boa pedida.