3.10.23

“Tempo de Viagem” - Andrei Tarkovski & Tonino Guerra (Itália, 1983)

Sinopse:
 Em 1979, Andrei Tarkovski está na Itália na companhia do poeta e argumentista italiano Tonino Guerra. Ambos vão, por um mês, iniciar uma jornada, física e espiritual, em busca de um local para as filmagens de “Nostalgia”.
Comentário: Andrei Tarkovski (1932-1986) é um cineasta russo, filho do poeta russo Arseny Alexandrovich Tarkovski e da atriz Maria Ivanova Vishnyakova. Após se formar em cinema ele dirigiu, ainda na União Soviética, sete longas-metragens e três curtas. Conta-se que sua convivência com as autoridades soviéticas nunca foi pacífica, tendo alguns dos seus filmes encontrado sérios problemas de distribuição interna. Por conta disso, depois que ele rodou “Stalker” (1979), Tarkovski optou por passar os seus derradeiros anos no Ocidente o que explica porquê seus dois últimos filmes foram rodados fora: “Nostalgia” (1983) ele fez na Itália com a chancela da RAI e “O Sacrifício” (1986) ele rodou na Suécia. Assisti dele as obras-primas "A Infância de Ivan" (1962), "Andrei Rublev" (1966), "Solaris" (1972), "Stalker" (1979) e "O Sacrifício" (1986), o ótimo "Nostalgia" (1983), o bom "O Espelho" (1975) e os curiosos "Os Assassinos" (1956) e "O Rolo Compressor e o Violinista" (1961). Desta vez vou conferir o documentário "Tempo de Viagem" (1983) feito em parceria com Tonino Guerra.
Luiz Santiago do Plano Crítico nos conta que “Em viagem à Itália para a filmagem de seu longa-metragem ‘Nostalgia’ (1983), Andrei Tarkovski vivia uma situação que jamais tivera contato antes. As mesmas autoridades que barraram a sua ida à França para a apresentação de ‘Stalker’ (1979) permitiram-no sair do país no início dos anos 1980, corroborando a aparência clara de exílio a que o diretor estaria submetido a partir de então. É ainda mais aflitivo perceber que ‘Nostalgia’ é o penúltimo filme do diretor, que em seguida iria à Suécia para fazer aquela que talvez seja sua obra mais lancinante: ‘O Sacrifício’ (1986). O teor dessas duas obras finais de Tarkovski é de saudade, ausência e até loucura (...). ‘Nostalgia’ e ‘O Sacrifício’ não mostram apenas o epílogo de um mestre do cinema mas a reticência de um cinema de descobertas da alma, um cinema livre do supérfluo e dotado de forte carga metafórica muito bem contextualizada a um determinado momento histórico ou fictício. No caso de ‘Nostalgia’, Tarkovski terá a presença do poeta e roteirista Tonino Guerra (...) como guia em sua viagem pela terra de Dante”.
É disso que trata o documentário: dessa viagem feita, durante um mês, pelas regiões de Nápoles, Sorrento e Lecce, com “os dois profissionais tentando encontrar as peças para dar forma à película que escreveriam juntos e que marcaria o início dessa jornada pessoal, espiritual e artística de Tarkovski. O resultado dessas caminhadas, conversas, almoços, contemplações e discussões sobre o futuro filme deu origem a este documentário para a TV chamado ‘Tempo de Viagem’ (1983), escrito e dirigido por Guerra e Tarkovski e produzido para a Radiotelevisione Italiana (RAI).
Por ser um ‘documentário de bastidor’, ‘Tempo de Viagem’ tem o grande mérito de mostrar a produção direta de um artista escrupuloso, com concepções artísticas transformadas em teoria, ao mesmo tempo que traz o lado pessoal dele e de seu anfitrião no exílio. [Vale dizer que essa estadia ainda não era declaradamente um exílio, já que as autoridades ainda não haviam lhe recusado emprego na URSS, isso viria pouco depois]. A amizade e a relação profissional entre Guerra e Tarkovski é muitíssimo interessante de ser vista e o espectador é apresentado a uma situação ímpar, principalmente por se tratar de uma criteriosa escolha de cenários naturais para a obra que viria a ser ‘Nostalgia’”.
O que disse a crítica 1: Santiago achou bom. Escreveu: “Para admiradores da obra de Tarkovski, esse documentário é certamente uma peça essencial. Podemos até citar nuances da obra literária do diretor (‘Esculpir o Tempo’) contidas no filme, bem como o núcleo de ideias que ainda não estavam no papel mas que parecem límpidas e já muito bem estruturadas na mente do mestre russo. Seja por sua constituição como obra investigativa e observadora, seja como porta de entrada para o mundo pessoal/cinematográfico de Andrei Tarkovski, ‘Tempo de Viagem’ é um documentário que também nos fará viajar para um mundo onde a alma vive em um caos. O resultado final pode ser observado em ‘Nostalgia’, que ganha outros tons após a sessão desse documentário”.
O que disse a crítica 2: Tim Brayton do site Alternate Ending avaliou como excelente. Ele disse que, em geral, quando se faz um documentário sobre um filme, o que se mostra são informações sobre onde o diretor buscou inspiração, mostram curiosidades ou fazem algo que funcione como uma peça promocional do próprio filme. Mas isso, segundo ele, não é o que ocorre em “Tempo de Viagem”. Ele diz: “Na verdade, não aprendi praticamente nada sobre a pré-produção de ‘Nostalgia’ (...) nesses 62 minutos, porque ‘Tempo de Viagem’ estava muito focado em ser bom”. Ele nos conta que o filme desliza entre locais e momentos no tempo. Salienta que o próprio título do documentário - “Tempo de Viagem” - aponta para o movimento no tempo como algo mais profundo do que o movimento no espaço. As visitas aos locais acabam por parecer a imaginação de Tarkovski, onde o crucial é a fluidez, a forma como o tempo é instável e se confunde de acordo com a subjetividade do diretor. Ele acredita que o fato do protagonista ser uma pessoa real, sendo ele mesmo o diretor tanto do documentário quanto do filme, oferece uma camada de complexidade metanarrativa, talvez, mas que isso não parece importante enquanto você assiste. O mais interessante para ele é o que o documentário sugere sobre como o estado mental do Tarkovski se reflete em seus filmes”.
O que eu achei: É um documentário curto (62 minutos) mas interessante. Não acrescenta muita coisa sobre a feitura da obra “Nostalgia”, mas mostra belos momentos dessa relação entre Guerra e Tarkovski. Começa com Tarkovski chegando na casa de Guerra e segue com alguns trechos de viagens pela Itália em busca de locações, Guerra lê suas poesias para o cineasta, Tarkovski responde perguntas de estudantes... Há reflexões sobre o cinema e sobre os artistas que o influenciaram. Quanto ao italiano Tonino Guerra (1920-2012) li que ele foi poeta, escritor e roteirista, colaborador de importantes realizadores como Michelangelo Antonioni, Vittorio De Sicca, Mario Monicelli, Federico Fellini e Theodoros Angelopoulos, dentre outros. O resultado é algo muito específico e delicado que só fãs de carteirinha do diretor vão curtir.