7.10.23

“Padre Pio” - Abel Ferrara (Alemanha/Itália/Reino Unido/EUA, 2022)

Sinopse:
Retrato de São Padre Pio, um homem santificado que nasceu Francesco Forgione (Shia LaBeouf) no sul da Itália no final do século 19. Enquanto isso, socialistas e capitalistas disputam a administração de um vilarejo no interior da Itália.
Comentário: Abel Ferrara é um cineasta norte-americano de quem já assisti o bom “Pasolini” (2014) e o mediano “Sibéria” (2020). 
O site religioso ACN nos conta que Padre Pio é Francesco Forgione, um homem que "nasceu no vilarejo de Pietrelcina, na província italiana de Benevento, a 25 de maio de 1887 (...). Seus pais, Grazio e Maria, eram pessoas humildes, pobres e muito devotas. Tiveram sete filhos que educaram na fé cristã. Francisco queria ser padre desde muito pequeno. (...) Aos 16 anos pôde realizar seu sonho: consagrar-se inteiramente a Deus. Em 1903, entrou na ordem dos capuchinhos, tornando-se filho espiritual de São Francisco de Assis. Ele escolheu o nome religioso de Pio. Sua saúde, porém, era ruim. Várias vezes foi enviado para a casa dos pais para se recuperar de doenças. Assim que melhorava, retornava ao convento. Em 1907 fez os votos solenes, tornando-se um frei capuchinho. Em 1910 foi ordenado sacerdote na catedral de Benevento. (...) Depois de passar por vários conventos, chegou em 1916 à pequena comunidade capuchinha de San Giovanni Rotondo, uma cidadezinha italiana da região do Gargano, onde acabou ficando pelo resto de sua vida. (...) Em 1918, a Primeira Guerra Mundial e a gripe espanhola mataram quase todos os freis do convento; restaram apenas três, entre eles Padre Pio. (...) Ele foi o criador de grandes obras que existem até os dias atuais. Exemplo disso é a “Casa Alívio do Sofrimento”, um dos mais modernos hospitais do sul da Itália, que atende principalmente enfermos pobres. (...) Nos últimos anos, sua saúde piorou e seus sofrimentos físicos aumentaram. Faleceu serenamente e em paz, após receber os sacramentos e celebrar sua última e emocionante missa, aos 81 anos de idade, no dia 23 de setembro de 1968”.
Carlos Helí de Almeida numa matéria especial para O Globo, nos conta que “O longa-metragem (...) descreve os primeiros dias do jovem monge italiano e futuro ícone da Igreja Católica no convento de San Giovanni Rotondo, em Apulia. O tormento do noviço Francesco Forgione, que se tornaria um santo católico venerado pelos italianos como um segundo Cristo, é entrelaçado com a revolta popular contra a opressão dos proprietários de terra na mesma região, que resultou no massacre de dezenas de pessoas, em 1920. (...) [O filme] contrapõe os sofridos anos de iniciação de Francesco com a realidade italiana na época: a ascensão do fascismo. O personagem principal é interpretado por Shia LaBeouf que, depois de uma trajetória de excessos, anunciou sua conversão ao catolicismo depois de participar do projeto”.
Existem outros filmes já feitos sobre o padre. Um deles chama-se “Padre Pio” (2020), de Carlo Carlei. Há também o documentário ‘Searching for Padri Pio’ (2015), que foi uma contribuição do próprio Ferrara para a série ‘BOATS – Based On a True Story’”.
O que disse a crítica 1: Marcelo Müller do site Papo de Cinema avaliou como mediano. Ele diz: “o Padre Pio não assume a dianteira com (...) suas perturbações internas. Ele é conectado (refém das?) às lógicas existenciais-religiosas internas, praticamente alheio à turbulência que ameaça a paz do vilarejo italiano em vias de contabilizar seus mortos na Primeira Guerra Mundial. É como se Ferrara não quisesse que esses mundos (o interno do padre e o externo da sociedade local) coabitassem os espaços cênicos. Então, ele resolve observar alternadamente os dois recortes daquela localidade, sem com isso fazer um reverberar no outro. O resultado é a criação de uma divisão excessiva de atenção, especialmente porque a crise de Pio nem bem representa o egoísmo da Igreja Católica e tampouco um estado de angústia que expõe o sofrimento das ovelhas de sua congregação. O resultado é desengonçado”.
O que disse a crítica 2: Sérgio Alpendre do site Leitura Fílmica achou razoável. Escreveu: “O cerne do filme (...) diz respeito à espiritualidade. Padre Pio sabe que precisa agir para evitar mais violência, mas o filme o deixa apartado do conflito político até o fim. Ou seja, são dois filmes em um: o do padre e suas tentações, que me parece bem-sucedido apesar de exagerar na sujeira estética, e o do conflito político na pequena aldeia, que sugere um Ferrara apático. O filme é dedicado às vítimas do massacre de San Giovanni Rotondo e ao povo da Ucrânia. Com isso Ferrara compara os dois acontecimentos separados por pouco mais de um século”.
O que eu achei: Eu concordo com a crítica especializada. O que temos aqui são dois filmes em um: de um lado a trajetória do Padre Pio, mostrada a partir do momento que ele chega à San Giovanni Rotondo e, do outro, o conflito político que ocorre na cidade entre capitalistas e socialistas. Em nenhum momento essas duas realidades se entrelaçam ou afetam uma à outra. As perturbações internas do padre são mostradas de forma exagerada enquanto o povo morre na guerra ou por trabalhos forçados. Tudo isso falado num inglês macarrônico. O ator principal, Shia LaBeouf, desempenha bem seu papel – apesar do sotaque -, mas não é capaz de salvar o roteiro estridente, fragmentado e opaco. Mediano.