2.10.23

“Cenas de Um Casamento” - Ingmar Bergman (Suécia, 1974)

Sinopse:
 
Marianne (Liv Ullmann) e Johan (Erland Josephson) estão casados há dez anos. De um começo promissor para o habitual desgaste da relação, os dois entram em um processo de divórcio depois de casos extraconjugais serem descobertos. Porém, ambos tem entendimentos diferentes da fase por que passam, e ainda tentam compreender a importância de um para o outro - seja amor, ódio ou uma simples amizade.
Comentário: Ingmar Bergman (1919-2007) é um diretor de cinema sueco famoso pela abordagem psicológica que ele dá a seus filmes. Sua produção engloba em torno de uns 60 filmes. Assisti dele 16 filmes, dentre eles as obras-primas "O Sétimo Selo" (1957), "Morangos Silvestres" (1957), "Persona" (1966), "O Ovo da Serpente" (1977) e "Sonata de Outono" (1978). Desta vez vou conferir “Cenas de Um Casamento” (1974).
Gustavo Barreto do site Cine Pop nos conta que “Por volta de 1973 o diretor sueco Ingmar Bergman, já estabelecido como um dos grandes nomes do cinema, se aventurou no complexo campo dos relacionamentos conjugais ao produzir a minissérie, lançada diretamente para a televisão de seu país, ‘Cenas de um Casamento’. 
A produção tinha uma proposta muito pessoal para o realizador, sendo ela uma forma do mesmo externar experiências particulares. Com isso em mente, o desenvolvimento da minissérie teve uma ligação muito forte com o relacionamento que Bergman levava com a atriz Liv Ullmann à época. (...) 
Foi da complexidade dessa união, bem como do fracasso das anteriores, que o diretor escreveu as primeiras linhas do roteiro de ‘Cenas de um Casamento’. 
Protagonizado pela própria Liv Ullmann e Erland Josephson a trama geral foca no casal Marianne e Johan, ambos vivendo um casamento mais do que estável e com vidas profissionais bem encaminhadas. Logo de cara o espectador compreende que o sentimento que prevalece na relação não é, exatamente, o de felicidade pura mas sim o de contentamento. A mencionada estabilidade proveu uma sensação para ambos que, ao mesmo tempo que agrada, estagnou a relação mesmo que de maneira imperceptível. É somente após a dupla testemunhar uma discussão acirrada entre um casal de amigos que algumas dúvidas começam a surgir; principalmente se algo como o amor ainda existe no cenário de acomodação que ambos se encontram. 
A minissérie durou (...) seis episódios no qual Bergman contou com um orçamento muito menor do que o que ele geralmente utilizava em seus filmes (...). Com o dinheiro limitado, a equipe técnica pendeu para a escolha de filmar os episódios como uma obra documental, dessa maneira se aproximando mais da realidade. (...) 
Após o fim da minissérie, em 1974, o diretor produziu uma versão mais condensada para a distribuição nos cinemas. O resultado final foi um filme amplamente aceito, vencendo o prêmio de melhor obra estrangeira no Globo de Ouro de 1974”.
Esta versão de “Cenas de Um Casamento” é justamente a mais condensada, feita para distribuição nos cinemas, na qual Bergman transformou os 6 episódios de 50 minutos (300 minutos) da minissérie em um único filme de 2h42m (162 minutos).
O que disse a crítica 1: Don Druker do site Chicago Reader não gostou. Disse: “O roteiro de Bergman não deixa nada à imaginação e transforma o filme em uma ‘soap opera’ [novela de fácil assimilação] na maioria das vezes; o que poderia ter sido uma obra-prima no original da TV (...) torna-se, em sua forma truncada, algo apenas elegante”.
O que disse a crítica 2: Matt Brunson do site Frenesi de Cinema gostou bastante. Escreveu: “... com ‘Cenas de um Casamento’, Ingmar Bergman vai ainda mais longe: ele faz o espectador se sentir como uma mosca presa à parede, a par de tudo o que está acontecendo na sala, mas incapaz de fugir da cena quando as coisas ficam desagradáveis. E neste olhar poderoso sobre um casamento ‘feliz’ destruído por dentro, as coisas ficam realmente desagradáveis, resultando em uma devastação completa (...). Além de ser um sucesso, o filme foi bem recebido pelos grupos de crítica e até pelo Globo de Ouro, mas as regras criteriosas da Academia impediram que ele fosse elegível ao Oscar daquele ano. Não importa: este filme cru e intransigente perdurou como uma das melhores realizações de Bergman”.
O que eu achei: O filme se resume basicamente a um casal conversando, funcionando como um tratado do amor conjugal e seus perrengues. A interação com outras pessoas e as cenas fora das quatro paredes até existem, mas são raras nas 2h42m de filme. Quem assistiu a série original em 6 episódios diz que ela é superior à essa versão para o cinema, mas esta também é boa já que os rumos que esse diálogo tomam são diferentes de tudo o que o espectador poderia imaginar, então essa imprevisibilidade ajuda a manter o interesse aceso. As atuações dos sempre ótimos Liv Ullmann e Erland Josephson são impecáveis. Li, no site Omelete, que em 2021, um diretor chamado Hagai Levi, fez um remake da série. Flavio Pinto, que escreveu a matéria, nos conta que “os títulos dos episódios são os mesmos, há uma preocupação genuína em propor um estudo de personagens e ambas as versões se aproveitam da vulnerabilidade de um relacionamento em crise para extrair momentos genuinamente dolorosos”. Nos papéis principais dessa nova versão estão Jessica Chastain e Oscar Isaac”. Apesar do remake até ter, segundo ele, algumas qualidades e atualizações, fica fácil imaginar qual dos dois é melhor.