1.10.23

“O Começo” - Dea Kulumbegashvili (Geórgia/França, 2020)

Sinopse:
 
Yana (Ia Sukhitashvili) vive com o seu marido David (Rati Oneli) e com o seu filho Giorgi (Saba Gogichaishvili) numa comunidade de Testemunhas de Jeová situada nas montanhas da Geórgia. Quando a comunidade é atacada por um grupo extremista, a família confronta-se com uma escolha entre o medo e o desejo de justiça. Ao mesmo tempo, Yana enfrenta uma crescente insatisfação com a vida no contexto patriarcal da comunidade religiosa.
Comentário: Dea Kulumbegashvili é uma cineasta e escritora nascida na Geórgia, um país situado na Europa Oriental que faz fronteira com a Rússia, a Turquia, a Armênia e o Azerbaijão. “O Começo” é seu primeiro longa. Grande vencedor do Festival de San Sebastián - o filme levou a Concha de Ouro, a Concha de Prata para Melhor Realização, a Concha de Prata para Melhor Atriz (Ia Sukhitashvili) e o Prêmio do Júri para Melhor Argumento - o filme marca a estreia em longas-metragens da realizadora. Além de San Sebastian, o filme ainda foi laureado com o Prêmio da Crítica Internacional em Toronto. 
Rodrigo Fonseca do C7nema nos conta que “Uma comunidade de Testemunhas de Jeová é o mundo sobre o qual Dea se debruça para estudar a violência contra uma mulher, relegada à solidão diante de um universo opressor. Na trama escrita por Dea e Rati Oneli, coproduzida pelo realizador mexicano Carlos Reygadas (de ‘Luz Silenciosa’), Yana é uma atriz que não teve sucesso na sua carreira nos palcos e nas telas - ou nunca teve a verdadeira hipótese de apostar na arte com a liberdade necessária. Longe dos holofotes, casou-se com um sacerdote e teve um filho, prestes a entrar na adolescência. O templo deles, na cidade de Lagodekhi, é incendiado através do uso de coquetéis Molotov nos primeiros minutos de ‘O Começo’, num dos planos longuíssimos onde a câmara pouco mexe, deixando os personagens importantes fora do quadro, para entender as reações de Yana à brutalidade que lhe foi imposta por múltiplos homens, alheios aos seus sentimentos”.
Essa localidade onde o filme se passa – Lagodekhi - é uma cidade de quase 6 mil habitantes, que fica nos arredores do Cáucaso, próxima à fronteira do Azerbaijão. É uma cidade antiga que teve muitas construções ancestrais reconstruídas e onde convivem muitas etnias.
Numa entrevista concedida ao site C7nema, Dea Kulumbegashvili declarou que o filme “é um estudo de indivíduos e não uma reflexão sobre a prática cristã. Existem ali pessoas que são tocadas por um mistério, que é a fé, mas não é a religião que me interessa e, sim, a experiência individual, a vivência de uma mulher num espaço de repressão. O silêncio é uma parte essencial da geografia humana que nos rodeia e, através dele, é possível perceber a beleza natural e existencial à nossa volta. E este filme requer a cumplicidade do espectador para entramos na psique da personagem central, que encontrou no silêncio um modo de resistir. Por isso, há longos hiatos entre as palavras no meu filme. O que interessa é escutar o que as personagens escutam. É com o Tempo que quero dialogar. Venho de um país com muita beleza. Estava na hora de retratá-lo a partir das relações simbólicas que definem aquele espaço, onde muitos templos tornaram-se cinemas, durante o período soviético”.
A fotografia é de Arseni Khachaturan e a trilha sonora original é de Nicolas Jaar.
O que disse a crítica: Eurico de Barros do site Time Out não gostou. Escreveu: “Este longa-metragem de estreia da georgiana Dea Kulumbegashvili fez parte da Competição Oficial do Festival de Cannes de 2020, que acabaria por ser cancelado [devido a pandemia de covid], e centra-se num casal de Testemunhas de Jeová com um filho pequeno, que são alvo de hostilidade, violência e de uma violação, no interior da Geórgia, onde se instalaram. A realizadora terá decerto coisas interessantes e pertinentes para dizer sobre a fé e a intolerância, mas a forma que escolheu para o fazer neste maneirado, entorpecente e apático ‘O Começo’ não é a mais apelativa”.
Hugo Gomes do site Sapomag achou excelente. Disse: “’O Começo’ é um jogo de realidades encostadas a moralidades emprestadas e algo fabulistas, sem uma contaminar a outra, que dialoga com o seu público através de uma importante economia de palavras e no ausente grafismo das suas imagens. É uma experiência sensorial, dura e desencantada, e uma prova messiânica de que um nome tão difícil de pronunciar na realização [Dea Kulumbegashvili] se torne numa das mais promissoras figuras do cinema europeu dos próximos anos”.
O que eu achei: A primeira coisa que me chamou a atenção no filme foi o formato claustrofóbico da tela, algo que me parece ser um 4x3. A fotografia caprichada - assinada por Arseni Khachaturan - é um dos pontos altos da película. Outra coisa boa é a trilha sonora assinada pelo Nicolas Jaar, um chileno-americano nascido nos EUA, filho de um artista visual que admiro muito: o chileno Alfredo Jaar. O filme começa mostrando um ataque à uma igreja de Testemunhas de Jeová que nos dá a entender que o que iremos assistir é uma trama sobre intolerância religiosa mas, na verdade, esse tema é apenas o contexto no qual vive a personagem que realmente importa: Yana, interpretada belamente pela atriz Ia Sukhitashvili. Toda a história gira em torno dela, uma mulher que casou cedo com um sacerdote da igreja, teve um filho, e agora vive uma vida pautada pela desimportância, cercada de moralidade, repressão e isolamento, mas sofrendo todo tipo de ataque. Seus medos e seu cansaço são pontuados por tomadas contemplativas e longos silêncios, tornando a experiência bastante reflexiva. Melancólico define. No final, há duas situações, que à primeira vista parecem gratuitas, que são a atitude que ela tem com relação ao filho e o desaparecimento surreal de um dos personagens. Entretanto, refletindo melhor, ambas as situações têm ligação com passagens bíblicas: uma que é citada logo no início do filme e a outra, a famosa citação "do pó viestes ao pó voltarás". Enfim trata-se de um bom filme que vai agradar à cinéfilos acostumados à um slow cinema mas não vai agradar tanto ao público comum, fã de um cinema mais dinâmico. Se for seu caso, se jogue.