3.9.23

“Pegando a Estrada” - Panah Panahi (Irã, 2021)

Sinopse:
Uma família caótica e afetuosa viaja por uma paisagem acidentada. No banco de trás, o pai (Hasan Majuni) parece estar com uma perna quebrada. A mãe (Pantea Panahiha) tenta rir ao mesmo tempo em que não consegue conter as lágrimas. O filho mais novo (Rayan Sarlak) fica agitado no karaokê coreografado que fazem no carro. Todos eles estão preocupados com o cachorro doente e irritando uns aos outros. Apenas o misterioso irmão mais velho (Amin Simiar), que pretende deixar o país, permanece quieto.
Comentário: Panah Panahi nasceu em Teerã, Irã, em 1984. Estudou cinema na Universidade de Arte de Teerã e trabalhou como fotógrafo de set e assistente de fotografia e direção. Também foi consultor, editor e assistente de direção dos filmes mais recentes do pai, o cineasta Jafar Panahi. “Pegando a Estrada” é seu primeiro longa-metragem. O pai dele - Jafar - iraniano como o filho, é um cineasta de primeira grandeza. Assisti dele "O Balão Branco" (1995), "O Espelho" (1997), "Isto Não É Um Filme" (2011), "Taxi Teerã" (2015) e "3 Faces" (2018). Em dezembro de 2010, o governo o condenou a uma sentença de seis anos, além do banimento das suas atividades por “propaganda contra o regime dos aiatolás”, ou seja, por motivação política. João Lanari Bo do site Vertentes do Cinema nos conta que: “São poucos os filmes, como acontece em ‘Pegando a Estrada’, que se definem por uma breve fala logo no início, lânguida, porém carregada de inquietação: ‘estamos sendo seguidos’. Estamos, registre-se, deslizando numa estrada a oeste de Teerã, a caminho de algum lugar, indefinido, que se revela como zona fronteiriça, possivelmente com a Turquia. O carro é um SUV alugado. (...) Uma família absolutamente ordinária divide o espaço a um só tempo amplo e claustrofóbico do SUV – pai (Hassan Madjooni), com a perna engessada; mãe (Pantea Panahiha), ligeiramente ansiosa; filho de 20 anos, que dirige o veículo (Amin Simiar); e o caçula, de seis anos, incansável e anárquico (Rayan Sarlak). O garoto dedilha no teclado desenhado no gesso do pai – na trilha, Schubert, fielmente sincronizado. Na sequência, a mãe cantarola uma canção pop iraniana pré-aiatolá, anterior portanto à fundação da República Islâmica do Irã, cuja constituição de 1979 estipulou que as relações políticas, econômicas, sociais e culturais vigentes no país devem estar de acordo com o Islã. Conforme relatórios internacionais, o histórico de direitos humanos no Irã é notoriamente ruim – o governo persegue e prende com frequência críticos do governo e de seu Líder Supremo, aiatolá Ali Khamenei, além de restringir a participação de candidatos que se opõe ao regime em eleições populares e outras formas de atividade política. Um dos focos dessa repressão é, hélas, o cinema: [o pai do diretor] Jafar Panahi, (...) foi preso (...), quando visitava o Ministério Público local com advogados e colegas para perguntar sobre o bem-estar e o paradeiro dos colegas cineastas Mohammad Rasoulof e Mostafa Aleahmad, detidos três dias antes. Jafar, que ganhou prêmios nos festivais de Veneza e Berlim, foi condenado a seis anos de cadeia. Já havia sido sentenciado em 2010, mas conseguiu liberdade condicional, embora impedido de sair do país e banido de dirigir filmes por vinte anos – mesmo assim, realizou ‘Taxi Teerã’, em 2015, unofficially”.
O que disse a crítica: Eduardo Kaneco do site Vertentes do Cinema gostou. Escreveu: “’Pegando a Estrada’ deixa a sensação de um filme equilibrado. As doses de emoção, o andamento da narrativa, os breves momentos musicais, enfim, tudo bem balanceado. Por um lado, é agradável, mas, por outro, evidencia uma falta de ousadia. Em especial, quanto ao motivo da fuga do rapaz que, provavelmente, entraria numa denúncia social ou política. E Panah Panahi não arrisca ter o mesmo destino de seu pai”.
João Lanari Bo do site Vertentes do Cinema gostou muito. Disse: “Road movies, carros e crianças, aliás, são recursos conhecidos de Kiarostami e Jafar Panahi, que o diretor de ‘Pegando a Estrada’ resgatou à perfeição. Senso de humor seco e rebeldia, também. O drama da perda e a energia da vida que se renova. Sempre que você ver uma barata, diz o pai, lembre-se de que seus pais a enviaram ao mundo com muita esperança. Pai e filho ligam as viagens da família a uma discussão sobre o valor depreciado do Batmóvel arranhado, e a mãe engata um karaokê do pop iraniano, sincronizando labialmente palavras proibidas pelo Islã. A mãe esconde o choro: pai e filho acabam se misturando às estrelas que pontilham a escuridão do universo”.
Daniel Oliveira do site Cenas de Cinema também foi muito elogioso. Declarou: “E essa é a (...) sensação do espectador ao assistir ao delicioso longa de estreia de Panah Panahi – sim, filho de Jafar Panahi e exemplar filho de peixe. O cineasta iraniano constrói uma família tão humana e irresistível, tão verossímil e comum em sua absoluta insanidade, que o espectador passa toda a projeção desejando que aquela viagem não acabe, que o final agridoce que se anuncia desde cedo não se concretize, que aquelas pessoas se tornem suas amigas e as acompanhem para uma cerveja após a sessão”.
O que eu achei: O filme é um road movie, ou seja, se passa basicamente na estrada. Não fica muito claro o que está havendo, só se sabe que o filho mais velho pretende deixar o país e essa fuga vai se dar de maneira ilícita. Ele está fugindo de algo, mas não sabemos o que é essa coisa em questão. Estão com ele no carro sua mãe, seu pai e seu irmão mais novo conversando, cantando, brincando, discutindo... Essa viagem é a despedida do filho, então eles precisam aproveitar ao máximo esse momento. Creio eu que conhecer a história do pai do diretor, o cineasta Jafar Panahi, ajude no entendimento da trama. Afinal com a perseguição política que ele sofre, com o fato dele ter sido sentenciado à prisão, de estar proibido de fazer filmes e de ter sido proibido de deixar o Irã, creio que tudo isso inspirou Panah a rodar essa história. Se o filme é triste? Não necessariamente. Ele alterna comédia, musical, fantasia e drama com o foco centrado nas relações humanas e familiares. Só não espere ter tudo explicadinho ao final. O segredo para gostar do filme reside justamente nessa entrega para viajar junto com eles. Atenção às boas atuações, com destaque para o filho mais novo interpretado pelo ator mirim Rayan Sarlak, que rouba a cena com sua hiperatividade.