
Comentário: Sérgio de Carvalho, é diretor, produtor e escritor. Formado em Cinema pela Universidade Estácio de Sá (RJ), atualmente ele dirige a produtora de cinema Saci Filmes, em Rio Branco, no Acre. Como diretor ele assina as séries de TV “Nokun Txai - Nossos Txais” (2016/2017) e “O Olhar Que Vem de Dentro” (2017) e do longa documentário “Empate” (2017). É a primeira vez que vejo um filme dele. “Noites Alienígenas” é inspirado no romance de mesmo nome escrito pelo próprio Sérgio de Carvalho. O filme expõe uma Amazônia urbana, onde a ancestralidade dos povos tradicionais resiste à contemporaneidade que insiste em negar a floresta. Com elementos narrativos fantasiosos, o longa apresenta a história de três personagens da periferia de Rio Branco, impactados pelo conflito entre facções criminosas e pela violência urbana, que, nos últimos dez anos, quase triplicou o assassinato de crianças e jovens no Estado do Acre. O longa ganhou cinco kikitos de ouro no Festival de Cinema de Gramado nas categorias de Melhor Filme, Troféu Júri da Crítica, Melhor Ator (Gabriel Knoxx), Melhor Atriz Coadjuvante (Joana Gatis) e Melhor Ator Coadjuvante (Chico Diaz). O filme também foi selecionado para ser exibido e lançado no Festival de Cinema de Gotemburgo, na Suécia.
Patrícia Cassese, colunista do Culturadoria, nos conta que “a semente da iniciativa [em fazer esse filme] pode ser localizada há cerca de 20 anos, quando o paulista Sérgio de Carvalho se mudou para Rio Branco, no Acre. ‘Vim recém-formado (...), em busca da floresta, dos povos da floresta, dos povos tradicionais, com quem trabalhei bastante’, contou ele, na entrevista coletiva para o lançamento do filme, realizada no formato online, de modo a reunir jornalistas de todo o Brasil. Sérgio contou que, naquele início dos anos 2000, ao chegar a Rio Branco, ele de pronto se rendeu às evidências de que a realidade ao seu entorno era bem diferente do que a que imaginava. ‘Realmente me surpreendi. Estava muito longe do meu imaginário enquanto pessoa que ainda não conhecia a região (Norte)’, admite. Uma das coisas que mais lhe chamaram a atenção, rememora, foi a quantidade expressiva de usuários de pasta à base de cocaína. Sérgio se refere à sobra da cocaína, que vem do processo de refinamento da droga, que, por sua vez, precede o envio da coca para o resto do Brasil. ‘Aqui, a gente vive numa região de fronteira de países produtores (da droga)’, diz, referindo-se ao fato de que grande parte da cocaína que circula pelo território brasileiro (em particular, com destino ao Sudeste, São Paulo em específico) entrar pelo Acre (muitas vezes, por Assis Brasil). ‘Essa realidade da dependência química me tocou muito’. A observação do fenômeno acabou inspirando Sérgio de Carvalho a escrever o livro ‘Noites Alienígenas’, publicado em 2011, pela editora Pindaíba. Ali, muitos leitores falavam ao autor sobre o potencial de a narrativa ser transposta para a sétima arte. O livro, comenta Sérgio, mergulha no universo da dependência química, mas também ressalta a questão da perda da identidade. ‘Porque, se a gente for pensar, essa periferia das cidades amazônicas é formada pelas pessoas que foram expulsas de seus territórios de origem, principalmente aqui no Acre. Muitas vezes, expulsas pelos extrativistas’, descreve. No entanto, já com a possibilidade do filme no horizonte, quando foi partir para o roteiro, Sérgio de Carvalho percebeu que a realidade tratada no livro, pelo fato de ele ter sido lançado há mais de dez anos, já estava defasada. ‘A região Norte foi muito impactada com a violência das mudanças na rota do narcotráfico. Então, a gente viu o Acre ser tomado pelo crime organizado de uma maneira muito rápida, muito enérgica e muito violenta’. O diretor se refere particularmente a facções de organizações que já atuavam no Sudeste. ‘Isso impactou a sociedade de uma maneira brutal’, diz, acrescentando que muitas dessas facções (...) passaram a se rivalizar, desaguando nas chamadas ‘guerras’. Mais que uma questão restrita ao Acre, salienta Sérgio de Carvalho, trata-se de uma realidade da Amazônia num espectro bem mais amplo. ‘A gente sabe que a cidade de Manaus também não passou distante, e que o estado de Rondônia também está vivenciando isso. A situação também chega à floresta, às comunidades indígenas, aos povos tradicionais’. Naquele momento, diante da gravidade do que estava se recrudescendo, Sérgio de Carvalho ainda constatava, perplexo, que o assunto era pouquíssimo tratado no Brasil. ‘E quando se fala disso, por vezes ainda é com uma certa distância. Então, senti necessidade, junto aos roteiristas – Camilo Cavalcanti, que foi um grande parceiro nos tratamentos do roteiro, e Rodolfo Minari -, de atualizar o conteúdo da obra. E ela (a atualização) se deu justamente mostrando o impacto dessa chegada de facções criminosas’”.
O que disse a crítica: Marcelo Müller do site Papo de Cinema achou o resultado bom. Escreveu: “Há uma vivacidade como argamassa das relações humanas em ‘Noites Alienígenas’. Sergio de Carvalho não insiste na ideia de que os personagens recém-adultos (antes amigos) foram divididos por essa frustração individual dos sonhos juvenis imposta pela realidade perversa. Essa noção fica implícita. Já a indignação da parcela desiludida da sociedade acreana está nas batalhas de rimas, na poesia alternativa à reprodução da violência como válvula de escape. (...) Seria leviano dizer que há algo de novo nessa produção que utiliza estratégias narrativas relativamente comuns para contar histórias infelizmente corriqueiras em áreas periféricas. No entanto, a atenção ao cenário incomum no cinema brasileiro e a veracidade que exala dos poros do longa-metragem é algo a ser celebrado”.
Gabriela Agra do site O Grito! avaliou como ótimo. Disse: “a trama (...) lança luz sobre diferentes caminhos para o Brasil. De um lado, está posto o ‘crime atrás do progresso’, que abduz e mata a juventude periférica e os povos originários, relegados à margem da sociedade - cenário lamentavelmente ainda mais comum após a ascensão do bolsonarismo. É, antes de tudo, uma denúncia à invasão das facções criminosas do Sudeste à Amazônia. Do outro, porém, há a riqueza e a ancestralidade das diferentes etnias indígenas que ali habitam aliadas à pungência criativa da juventude negra. Assim, é a resistência de ambas frente às constantes ameaças que impedem que a região se torne inóspita e seja completamente sequestrada por essas forças exteriores, ou colocando em outras palavras, alienígenas”.
O que eu achei: Se tem um assunto – dentre tantos outros – que devemos tratar no Brasil é essa questão do narcotráfico que invade o país. São sonhos que se desfazem e vidas que se perdem. Quantos filmes existem que se passam no Acre? Quantos tratam da chegada das facções criminosas do sudeste para o norte? Então, mesmo que o resultado não fosse bom, só essa temática já valeria o filme. Mas a vantagem aqui é que além de importante e pertinente, o filme é bem interessante. Gostei em especial de ver o ator Chico Diaz em cena. Ele trabalha bem demais! Gostei também de rever a atriz trans Kika Sena, que eu já havia ficado encantada quando a vi a primeira vez no filme “Paloma” (2022) do diretor Marcelo Gomes. É o cinema que encurta distâncias entre realidades, esteja você no Brasil ou em outras partes do mundo, a periferia do Acre vai até você com suas características culturais, seus sotaques, sua rotina, suas influências. Então não perca essa oportunidade rara. O filme segue agora para tentar uma vaga no Oscar. Torcendo desde já.
O que disse a crítica: Marcelo Müller do site Papo de Cinema achou o resultado bom. Escreveu: “Há uma vivacidade como argamassa das relações humanas em ‘Noites Alienígenas’. Sergio de Carvalho não insiste na ideia de que os personagens recém-adultos (antes amigos) foram divididos por essa frustração individual dos sonhos juvenis imposta pela realidade perversa. Essa noção fica implícita. Já a indignação da parcela desiludida da sociedade acreana está nas batalhas de rimas, na poesia alternativa à reprodução da violência como válvula de escape. (...) Seria leviano dizer que há algo de novo nessa produção que utiliza estratégias narrativas relativamente comuns para contar histórias infelizmente corriqueiras em áreas periféricas. No entanto, a atenção ao cenário incomum no cinema brasileiro e a veracidade que exala dos poros do longa-metragem é algo a ser celebrado”.
Gabriela Agra do site O Grito! avaliou como ótimo. Disse: “a trama (...) lança luz sobre diferentes caminhos para o Brasil. De um lado, está posto o ‘crime atrás do progresso’, que abduz e mata a juventude periférica e os povos originários, relegados à margem da sociedade - cenário lamentavelmente ainda mais comum após a ascensão do bolsonarismo. É, antes de tudo, uma denúncia à invasão das facções criminosas do Sudeste à Amazônia. Do outro, porém, há a riqueza e a ancestralidade das diferentes etnias indígenas que ali habitam aliadas à pungência criativa da juventude negra. Assim, é a resistência de ambas frente às constantes ameaças que impedem que a região se torne inóspita e seja completamente sequestrada por essas forças exteriores, ou colocando em outras palavras, alienígenas”.
O que eu achei: Se tem um assunto – dentre tantos outros – que devemos tratar no Brasil é essa questão do narcotráfico que invade o país. São sonhos que se desfazem e vidas que se perdem. Quantos filmes existem que se passam no Acre? Quantos tratam da chegada das facções criminosas do sudeste para o norte? Então, mesmo que o resultado não fosse bom, só essa temática já valeria o filme. Mas a vantagem aqui é que além de importante e pertinente, o filme é bem interessante. Gostei em especial de ver o ator Chico Diaz em cena. Ele trabalha bem demais! Gostei também de rever a atriz trans Kika Sena, que eu já havia ficado encantada quando a vi a primeira vez no filme “Paloma” (2022) do diretor Marcelo Gomes. É o cinema que encurta distâncias entre realidades, esteja você no Brasil ou em outras partes do mundo, a periferia do Acre vai até você com suas características culturais, seus sotaques, sua rotina, suas influências. Então não perca essa oportunidade rara. O filme segue agora para tentar uma vaga no Oscar. Torcendo desde já.