17.9.23

“Elvis” - Baz Luhrmann (Austrália/EUA, 2022)

Sinopse:
Cinebiografia de Elvis Presley (Austin Butler) que mostra sua ascensão à fama a partir do relacionamento do cantor com seu empresário "Coronel" Tom Parker (Tom Hanks). A história mergulha na dinâmica da parceria entre o ele e o empresário, usando a paisagem dos EUA em constante evolução e a perda da inocência de Elvis ao longo dos anos como cantor. No meio de sua jornada e carreira, Elvis encontrará Priscilla Presley (Olivia DeJonge), fonte de sua inspiração e uma das pessoas mais importantes de sua vida.
Comentário: Baz Luhrmann é um cineasta australiano, famoso por ter dirigido “Moulin Rouge” (2001). Assisti dele o bom filme "Austrália" (2008) e o mediano "O Grande Gatsby" (2013). Desta vez ele vai contar a história do famoso cantor americano Elvis Presley (1935-1977). Apelidado de "Rei do Rock", ele é considerado um dos ícones culturais mais significativos do século XX. Com uma série de aparições bem-sucedidas na televisão e sucessos no topo das paradas tornou-se a principal figura do rock. 
Odair Braz Jr do site R7 nos conta que “Assim como Batman, Superman e Homem-Aranha, Elvis Presley se tornou um personagem sujeito a interpretações por parte de roteiristas e, no caso do cantor, diretores de cinema e TV. E nesta cinebiografia (...) o diretor Baz Luhrmann faz exatamente isso: mostra a SUA visão de quem foi Presley, sem se importar muito com fatos e cronologia. Esta observação, digamos, mais particular do diretor não faz de ‘Elvis’ um filme ruim. Com cenas belíssimas, imagens sofisticadas, atenção máxima aos detalhes cenográficos e de época e um Austin Butler inspiradíssimo, a produção é (...) a mais bem cuidada feita sobre o cantor até hoje e o recoloca na cultura pop mundial como o ícone que sempre foi. Mas o filme também distancia o cantor da verdade histórica, fazendo dele quase que um super-herói da música. Há pouco mais de dois meses, quando Priscilla Presley e Lisa Marie, ex-mulher e filha de Elvis, respectivamente, consideraram o filme como ‘perfeito’, já apareceu um sinal de alerta para este colunista. Porque um longa mostrando, de fato, a vida de Presley teria de incomodar, pelo menos um pouco, as duas em alguns aspectos. E a razão de não ter havido nenhum estranhamento por parte delas é que Luhrmann (...) decidiu espetacularizar a história de Elvis, dando apenas pinceladas do que foi sua trajetória na música e nos palcos. O longa evita entrar em questões mais negativas e/ou delicadas, o que não o torna chapa-branca. Mas passa perto. Luhrmann já havia falado em entrevistas recentes que o filme busca mostrar, através de Elvis, a história dos Estados Unidos nas décadas de 50 a 70, fugindo assim do que seria uma biografia no sentido clássico do termo”.
Flávio Motta Coutinho do site Techmundo fez um levantamento do que no filme é verdade ou ficção. Segundo ele, “o filme mostra o serviço de Presley ao exército americano em 1957, na Alemanha, e como foi lá que ele conheceu Priscilla (Olivia De Jonge), dois anos depois. Na época, o futuro cantor tinha 24 anos e a garota apenas 14, quando começaram o seu relacionamento. Em 1960, os dois retornaram aos Estados Unidos e foram parar em diversos jornais. Em uma entrevista à Vogue, Priscilla Presley falou sobre como tinha receio de nunca mais vê-lo. Mas, no fim, deu tudo certo. Então, isso é um dos fatos narrados no filme, embora a cena do encontro não seja retratada com precisão por não terem registros históricos de como ocorreu”. Outro ponto é sobre a mansão Graceland. Coutinho nos conta que essa mansão foi “comprada pelo artista em 1957, com apenas 22 anos de idade. Localizada em Memphis, no Tennessee, abrigou diversos familiares e amigos do artista. A mansão retratada no filme é, de fato, a casa comprada por Presley. O local está aberto ao público para visitação desde 1982 e serviu como set de filmagens para o filme”. Com relação ao uso de drogas, Coutinho diz que “em uma das cenas, Priscilla pede para o cantor e ator procurar ajuda para lidar com o vício que, eventualmente, levou ao fim do relacionamento. O objetivo do diretor era manter o foco na relação entre o cantor e seu empresário. Porém, é difícil falar sobre a trajetória de Presley sem citar Priscilla e, consequentemente, o fim do casamento e o uso de drogas. Durante uma entrevista ao Good Morning America, Priscilla confirmou o vício do artista e deixou claro que o uso de drogas foi um dos motivos pelos quais eles terminaram, mas não o único - como fica implícito no longa”. Outra questão é sua relação com seu empresário Tom Parker, interpretado pelo Tom Hanks. Coutinho diz: “o objetivo do diretor era retratar a relação conturbada entre Elvis e seu empresário. Sendo assim, será que Tom Parker (... ) era, de fato, um vilão frio e calculista? Na vida real, as ações do Coronel também são questionáveis, mas ele foi um importante pilar na ascensão de Presley. Por ser um homem de negócios, tinha ideias valiosas de como o artista poderia alcançar o estrelato. Retratado como vilão no filme, a verdade é que, dessa forma, Parker é destituído de todo o crédito que teve na carreira de Presley. Então, as coisas não são exatamente como parecem!”. E, por fim, há a questão da morte do cantor. ”A narrativa artística do longa repete que ele ‘morreu de amor pela música’, representando a paixão transmitida nos palcos. Porém, a verdade é que ele foi encontrado inconsciente em Graceland no dia 16 de agosto de 1977, aos 42 anos. Ele foi declarado morto [parada cardíaca] por overdose”.
O que disse a crítica: Odair Braz Jr do site R7 achou o resultado incompleto e cheio de omissões. Escreveu: “Ao mesmo tempo em que ressalta qualidades no cantor, Luhrmann também se distancia freneticamente de polêmicas. A questão do uso de medicamentos pesados, a falência do relacionamento com Priscilla, entre outras coisas, tudo ficou de fora. Ok, é uma opção do diretor, não dá mesmo para colocar tudo em 2h30, mas há em ‘Elvis’ claramente um lado, que é o de querer mostrar o músico como um grande amigo da comunidade negra, um rebelde, um progressista e um sujeito que teria sido vitimizado por seu empresário. (...) Tudo isso está de fato dentro da essência de Presley, (...) mas outras coisas também. Elvis era um sujeito complexo, contraditório, solar, mas também sombrio em diversos aspectos. Quem assistir ao filme verá uma versão pop, muitas vezes alegre e divertida do cantor conhecido como o Rei do Rock, só que isso não foi tudo. Seus anos finais, por exemplo, são reduzidos ao máximo e temos uma impressão distorcida do que foi sua morte. Os anos de 1973 a 1977 foram importantíssimos na trajetória de Elvis e não nos é mostrado praticamente nada sobre eles. Do jeito que ficou no cinema, parece que ele se divorciou e morreu na sequência. Não foi assim, teve muito mais histórias depois disso, inclusive namoradas”. E conclui: “a omissão em larga escala de momentos decisivos e/ou negativos, não é aceitável numa biografia. Luhrmann preferiu privilegiar o espetáculo, o show e nos dar uma visão superficial do protagonista. É um caminho possível, mas não dá para deixar de dizer que o filme não tenha ficado manco em alguns sentidos. Ficou”.
Caio Coletti do site Omelete avaliou como ótimo. Disse: Baz Luhrmann “não está realmente interessado em Elvis Presley, o homem, embora dê a ele a prerrogativa de qualidades tremendamente humanas dentro do contexto melodramático do filme. Seu luto pela mãe, a generosidade que pautava suas relações pessoais, a admiração genuína que ele sentia por artistas com a coragem de se expressar, a relação visceral com a música (do jazz ao gospel), datada de seus primeiros contatos com ela na infância… Tudo está aqui, reconhecido e estilizado no ritmo inconfundível de Luhrmann, mas essa fundação humana serve apenas para apoiar uma exploração que é muito mais sobre Elvis Presley, o mito, o ícone, o símbolo - e ainda bem que é”. Ele salienta que “em entrevistas, o diretor tem evitado se referir a ‘Elvis’ como cinebiografia: ao invés disso, tem dito que este é um filme de super-herói, uma colocação não só astuta do ponto de vista mercadológico como também fiel ao tom mítico do longa”. E conclui dizendo: “é certamente um belo espetáculo“.
O que eu achei: A narrativa - que intercala momentos do futuro e do passado - percorre a trajetória do músico da juventude até a morte trágica após uma parada cardíaca aos 42 anos de idade, em 1977, muito provavelmente pelo excessivo uso de drogas. O foco fica na sua relação com o empresário Coronel Tom Parker, interpretado pelo Tom Hanks. O longa faz associações de Elvis com super-heróis. Então, apesar de conter diversas verdades sobre a biografia do cantor, há, de fato, uma tendência do filme em mostrar mais o ícone do que a pessoa. Austin Butler está excelente na pele de Elvis, cheguei a ter dúvidas em alguns trechos, se eu estava vendo Butler ou o verdadeiro Elvis. Achei que valeu a pena encarar os 159m de filme. Terminei de ver sabendo muito mais sobre ele, suas origens, seu envolvimento com os negros e com suas reinvindicações. Entendi finalmente uma expressão que eu sempre ouvi - “Elvis the Pelvis” – que significa aquele que rebola, ou seja, que dança com a pelve. Dança, aliás, que foi altamente combatida à época, levando o cantor a sofrer acusações por crime de luxúria e perversão. Tudo isso por conta da própria segregação racial, afinal ele aprendeu a rebolar justamente com os seus amigos negros, e isso não era bem visto. Fiquei curiosa em saber se quem canta no filme é o Butler ou o próprio Elvis e descobri no site Legião dos Heróis que “embora [Butler] realmente esteja cantando no filme, o trabalho não ficou inteiramente nas mãos do ator. Enquanto no começo do longa, (...) as canções são cantadas somente por Butler, à medida que Elvis vai amadurecendo o que ouvimos, na verdade, é uma mistura das vozes do próprio rei do rock com a de Butler. (...) Além disso, Austin Butler também aproveitou suas habilidades com instrumentos, como o violão, para também apresentá-las na frente das câmeras”. Vale ver.