12.9.23

“Asas do Desejo” - Wim Wenders (Alemanha Ocidental/França, 1987)

Sinopse:
Na Berlim pós-guerra, Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander) são anjos que perambulam pela cidade. Invisíveis aos mortais, eles leem seus pensamentos e tentam confortar a solidão e a depressão das almas que encontram. Entretanto, um dos anjos, ao se apaixonar por uma trapezista (Solveig Dommartin), deseja abrir mão de sua imortalidade para se tornar um humano e experimentar as dores e alegrias de cada dia.
Comentário: Trata-se do filme número 64 da lista dos 100 essenciais elaborada pela Revista Bravo! em 2007. A matéria diz: “Os três grandes diretores do chamado ‘novo cinema alemão’ da década de 1970 - os outros são Werner Herzog e Rainer Werner Fassbinder - Wim Wenders foi o que atingiu maior popularidade, até por ter tido a chance de trabalhar em Hollywood. Depois de conquistar os cinéfilos com títulos como ‘Alice nas Cidades’ (1974) e ‘O Amigo Americano’ (1977), Wenders foi para os Estados Unidos no início da década de 1980, onde enfrentou sérias dificuldades para rodar ‘Hammett’ (1982). Em seguida, tornou-se mais conhecido do grande público com o memorável ‘Paris, Texas’ (1984). De volta ao país natal, gestou sua segunda obra-prima, ‘Asas do Desejo’, pelo qual ganhou o prêmio de Melhor Direção em Cannes (‘Paris, Texas’ levara a Palma de Ouro em 1984). O filme é protagonizado por dois anjos, Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander), que observam o cotidiano de Berlim no pós-guerra e tentam confortar as almas perdidas e perturbadas. Cansados de sua imortalidade vazia, invisível e despida de emoções, eles invejam os humanos e seus sentimentos, sensações e sentidos - para evidenciar isso, o mundo dos anjos é mostrado em preto-e-branco e o dos homens, em cores. A dupla se entrega a poéticos monólogos interiores sobre a condição de criaturas condenadas a não sentir, apenas pensar, e a biblioteca onde passam horas lendo intensifica a distância entre o intelecto e o coração. Até que Damiel resolve renunciar à essa vida perene para viver um romance e se apaixona por Marion (Solveig Dommartin), uma bela trapezista de circo. Wenders ilustra os devaneios metafísicos dos anjos com passeios de câmera, paciente e contemplativa, por ruas e arquitetura da cidade. A partir dos anos 1990, o diretor viu sua carreira entrar em um ritmo desigual. Para cada trabalho do nível de ‘Buena Vista Social Club’ (1999) e ‘Estrela Solitária’ (2005), fez filmes irregulares como ‘O Fim da Violência’ (1997) e ‘O Hotel de um Milhão de Dólares’ (2000) - todos resultados de sua segunda estada na América. Seu melhor momento à época foi a continuação de ‘Asas do Desejo’, ‘Tão Longe, Tão Perto’ (1993), em que Cassiel também desiste de ser anjo e vai atrás de Damiel. Fuja do remake hollywoodiano ‘Cidade dos Anjos’ (1998), em que a poesia do filme original deu lugar ao melodrama barato”.
O que eu achei: O filme é de uma delicadeza indescritível. A fotografia, assinada por Henri Alekan, oras em P&B oras colorida, é impecável. A trilha sonora é ótima, ajuda a trazer o clima leve, quase onírico, que a história pede. No papel dos anjos estão os excelentes Bruno Ganz e Otto Sander, ambos já falecidos. Eles visitam a Berlim pós-guerra. Há cenas em que é possível ver o muro de Berlim ainda de pé. Esses dois anjos vagam pela cidade ouvindo os pensamentos e as preocupações das pessoas, além de lembranças dos tempos de guerra, então há muitos lamentos e sussurros, o que exige uma certa atenção do espectador. Além dos dois atores principais, temos no elenco a atriz Solveig Dommartin, uma atriz francesa, que atuou na Alemanha e se destacou como musa e companheira de Wim Wenders. Outro papel de destaque é o do ator Peter Falk interpretando a si próprio. Ele ficou muito famoso nos anos 70 pelo seu papel em “Columbo”, uma série policial de TV na qual ele fazia o papel de um detetive. É possível também ver duas bandas se apresentando na cena underground da cidade: a primeira se chama “Crime and the City Solution” e a segunda, mais conhecida, é a do “Nick Cave and The Bad Seeds”. Tudo no filme é bastante inspirado, é algo como um poema filmado. Seus temas, apesar de terem um sentido especial numa Alemanha pós-guerra, são universais. Uma verdadeira obra-prima naquilo que de mais sublime o cinema é capaz de tocar. Veja primeiro este e depois sua sequência, "Tão Longe, Tão Perto" (1993), ambos imperdíveis.